sexta-feira, 8 de abril de 2011

Escola Tasso da Silveira: Massacre no Realengo.

MATEUS MORAES, ESTUDANTE DA
7ª SÉRIE DO COLÉGIO TASSO DA SILVEIRA
Pela primeira vez em mais de dois anos de blog estou publicando um texto que não é de minha autoria. Trata-se do depoimento de Mateus Moraes dado à Folha de S. Paulo. Mateus é estudante da 7ª série e vivenciou o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira no Rio de Janeiro, Bairro do Realengo. Nenhum texto escrito por mim seria capaz de se aproximar da mensagem que este texto transmite. A única coisa que podemos fazer é dividir a dor dessas famílias o máximo que pudermos. 
         

            "Já tive alguns pesadelos na vida, mas nenhum se compara com o que vi hoje. A aula de português estava começando quando ouvimos um tiro dentro da escola.
 
            Naquele momento, todos entraram em pânico. A professora deixou a sala para ver o que acontecia e não deu para entender mais nada.
            
            Só ouvíamos o barulho dos tiros cada vez mais alto. Foi uma correria. Todos gritavam e tentavam se esconder embaixo das mesas. 
            
          Logo em seguida, um rapaz de camisa verde e calça preta com um revólver em cada mão entrou na sala. Não tive muita reação. A única coisa que fiz foi levantar da minha cadeira, que fica na primeira fileira da sala. 
Adolescente presta homenagem acendando velas
no muro da escola Tasso da Silveira. O respeito que o assassino
mostrou não ter na vida humana deve ser mil vezes reafirmado por cada um de nós.
          
         Ele ficou menos de meio metro de distância da minha mesa e começou a atirar. Foi uma covardia. Ele chegava perto dos meus amigos que estavam no chão, demorava um pouco e dava tiro na cabeça, no tórax. 
        Vi pelo menos uns sete amigos morrerem. Não sei como não morri. Fiquei o tempo inteiro em pé e orando. Cada vez que ele parava de atirar para recarregar as armas, ele gritava que não ia me matar. O rapaz berrava: "Fica tranquilo, gordinho. Já disse que não vou te matar". Ele falava isso, carregava o revólver e ia pra cima dos outros. 
        
         Teve uma hora que ele deixou a sala e continuou atirando do lado de fora.
     
         Minutos depois, o barulho acabou. Vi vários colegas feridos, outros mortos, muito sangue nas paredes da sala. Não sabia o que fazer nem como estava vivo. Foi Deus que me ajudou. 
         
         Logo em seguida, um policial deu um grito. Ele berrava para os alunos que estivessem vivos deixarem a escola. Saí correndo. Só fui parar lá em casa. Deixei até o material para trás. Chorei o dia inteiro, mas estou calmo agora. 
        
         Não vou ter mais coragem de estudar nessa escola. As lembranças são muito fortes".

domingo, 20 de março de 2011

OS NOVOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (Obama no Brasil)


OBAMA na Cidade de Deus  (City of  God)
                 Uma diferença de fácil percepção em relação às visitas diplomáticas do Presidente norte-americano Barack Obama em relação às do seu predecessor George W. Bush é a maneira como a população dos países visitados recebe o novo Presidente. No Brasil o Presidente foi muito bem recebido apesar de pequenos protestos como o organizado pelo PSTU — com direito a ato “pseudo-terrorista” de um dos manifestantes que lançou um coquetel molotov no consulado norte-americano no Rio. Na Cidade de Deus, por exemplo, crianças impressionaram Obama com demonstrações de capoeira. Com seu português improvisado foi aplaudido várias vezes no discurso do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
              
                 Essa alteração da percepção da população mundial sobre os Estados Unidos será um dos maiores legados de Obama para o seu país. Os EUA sofreram décadas de fortes críticas  através de um pensamento antiamericano que de tão intenso já vinha gerando animosidade contra os próprios cidadãos do país, muitas vezes inocentes. Na América do Sul esse pensamento geralmente precipitado e infantil foi incentivado pelo que a intelligentsia cuidou de chamar de “perfeito idiota latino-americano”, expressão atribuída a Vargas Llosa vencedor do Nobel de Literatura e ex-presidente peruano. A perfeito-idiotice-latino-americana tem exponenciais em todos os países, mas é atualmente liderada pelos presidentes Hugo Chávez e Evo Morales (Venezuela e Bolívia) antigos correligionários do governo Lula.   
                
                 O mundo mudou a percepção sobre os EUA não somente porque Obama é negro e tem uma ideologia mais sintonizada com os movimentos que dominaram a produção intelectual em todos os países (movimentos ecológicos, antiglobalização, pacifistas, pró-países pobres, etc.), mas porque Obama de fato implementou uma política externa que recepcionou as críticas que o governo norte-americano sofreu. Não que Obama pratique o bem por pura convicção, mas porque os EUA perceberam que não podem mais impor ao mundo sem diálogo e cooperação — até mesmo convencimento — as suas vontades. Os EUA optam agora pelo diálogo porque o unilateralismo falhou.  
   
             Essa mudança se deu não somente devido à despolarização do poder nas relações internacionais que minou a capacidade norte-america de se impor ao mundo e o custo da política unilateral ao contribuinte (guerras caras), mas porque o país finalmente descobriu que a verdadeira liderança não é aquela que impõe sua vontade por meio da força, mas sim aquela que impõe a sua vontade por meio do convencimento. O verdadeiro líder é aquele que convence que está correto, porque liderados nessa condição são aqueles que verdadeiramente agem conforme a sua vontade. É interessante que o país que academicamente desenvolveu a mais complexa teoria contemporânea do poder tenha só agora percebido essa realidade incontestável.
               

Obama discursando para convidados
no Theatro Municipal no Rio de Janeiro

O discurso no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, marcado por uma simpatia exemplar e muito carisma,  confirma as minhas teses. Um líder carismático é justamente aquilo que os EUA precisam nessa nova política internacional. O Presidente norte-americano idealizado por Obama é também, de certa maneira, escolhido por todos os cidadãos do mundo e festejado também por eles. Obama afirmou “quero falar diretamente ao povo brasileiro, compartilhar idéias, valores e esperanças que temos em comum”.
                 
Fernando Henrique Cardoso em entrevista concedida recentemente à Folha de São Paulo disse “não dá para ser mais aquele isolacionismo imperial, do ‘eu quero’ e acontece”, mais na frente, na mesma entrevista continuou “os EUA não têm mais como impor nada para o mundo”. Certíssimas as afirmações do ex-presidente.  Agora é saber como o Brasil irá travar suas relações com essa nova potência, cada vez mais adepta do diálogo e do convencimento.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

I have a date (eu tenho um encontro)

O que pode ser melhor do que
vinho no primeiro encontro?



     Quando um casal americano sai para se conhecer chama isso de date. “I have a date”, “eu tenho um encontro”, diz o americano todo feliz. Entretanto, no mundo das “baladas”, da “curtição”, das danceterias e boates, o encontro está desaparecendo do vocabulário e do dia-a-dia dos amantes. Nós estamos abandonando o encontro para conhecer pessoas em festas, em flertes lançados a distância através de cantadas decoradas e artificiais.
     Confesso que por algum tempo eu também entrei nessa roubada. Certa vez, cansado de inventar cantadas mirabolantes em danceterias eu decidi assumir um padrão de comportamento. Comecei usando o celular. Escrevia o texto em uma mensagem e dava para o pretendente ler, ele respondia no próprio aparelho. Depois, passei a ser mais ousado. Comecei a pegar um pedaço de papel, fazer uma bolinha e arremessar na cabeça deles. Assim eu iniciava a conversa e me vingava previamente caso levasse um fora. Certa vez joguei a bolinha na cabeça do rapaz certo e o namorei por três meses.
     Agora estou fora dessa. Não tenho mais tempo e nem idade para suportar as horas de badalação e bebidas. A realidade da vida me obrigou a ser mais responsável e promovi mudanças. A primeira delas foi a reabilitação do “encontro”. Agora eu convido os pretendentes parar sair e comer alguma coisa ao invés de me intoxicar junto com eles de música eletrônica ruim.
John Travolta e Uma Thurman
no clássico Pulp Fiction  (QuentinTarantino, 1994).
O "silêncio que incomoda".
     Mia Wallace e Vicente Vega (Uma Thurman e John Travolta) no clássico do cinema Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), marcam um encontro que por pouco não termina em tragédia (a overdose de Mia). É uma prova irrefutável de que o encontro tem seus riscos. Contudo, no amor sempre jogamos dados como uma prerrogativa para participarmos do jogo. Outro fato interessante desse encontro é a referência que Mia Wallace (Uma Thurmam) faz ao “silêncio que incomoda”, aqueles clássicos momentos em que o casal fica em silêncio um olhando para o outro em procura de assunto para a conversa.
     Entretanto, o maior problema dos encontros ainda é ter que decidir se você irá ou não transar no primeiro encontro. É uma dúvida difícil. Desculpas esfarrapadas como chamar você para tomar cervejas em casa, dar uma subidinha para conhecer o apartamento, ir para um lugar mais confortável ou mais reservado, serão certamente as propostas feitas para forçar você a se entregar e ceder.
"Eu transo no primeiro encontro"
     Não existe uma regra geral para todos os casos, certamente encontraremos casais que transaram no primeiro encontro e agora vivem maritalmente enquanto outros não passaram da primeira vez. 
     O encontro é uma aventura, um pequeno ensaio da vida  a dois, é perfeitamente possível testar uma pessoa em um encontro, em uma balada isso já se apresenta como uma tarefa mais difícil. A revitalização do encontro se impera como forma de fugirmos de alguns defeitos inerentes aos nossos hábitos modernos que prejudicam nossa vida afetiva.
     Finalizando, se hoje for sábado e você estiver próximo ao telefone, não tenha dúvida: marque um encontro. Chame aquela pessoa especial para jantar fora ou beber alguma coisa. Quem sabe vocês não acabem, após o encontro, saindo para dançar em uma casa noturna em um clássico exemplo da união entre o velho e o novo, entre o útil e o agradável. Seria começar  a noite em Pulp Fiction e terminar em Embalos de um Sábado a Noite (Saturday Night Fever, John Badham,
1977).
     Boa sorte e até o nosso próximo encontro!


John Travolta e Karen Lynn Gorney.
Embalos de um Sábado à Noite
(Saturday Night Fever, John Badham, 1977)














quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Notas sobre a beleza (História da Beleza, Humberto Eco)

O Beijo, Francesco Hayez
                “Quem é belo é caro. Quem não é belo não é caro” cantaram as musas nas núpcias de Cadmo e Harmonia, em Tebas, segundo narração de Hesíodo. Será que a beleza é tão cara assim?
                Em sua obra História da Beleza o pensador italiano Umberto Eco trabalha a variação e evolução da beleza no Ocidente a iniciar pela Grécia Antiga até os dias atuais. Começamos com estátuas gregas e terminamos com atores e atrizes de Hollywood. Se a beleza em Hollywood dos anos 40 para os dias de hoje se modificou tão severamente, o que ocorreu nesses milhares de anos de história?
                De acordo com a obra de Umberto Eco, ao ser interrogado sobre qual critério utilizar para avaliar a beleza, o Oráculo de Delfos respondeu que “o mais justo é o mais belo”. Em toda a nossa história perseguimos o fenômeno da beleza e tentamos descobrir normas que regulem esse universo. Contudo, não existem tais normas universais, a beleza se manifesta de variadas formas e o que nos resta é compreender suas manifestações conforme o próprio homem evolui as engrenagens da cultura. A beleza vai mudando e nós vamos mudando junto com ela.
Romeu e Julieta, Sir. Frank Dicksee
                Sou um admirador da beleza. Admiro-a com cuidado, pacatamente, à distância, para que não me fure os espinhos da rosa. Nem todas as belezas do mundo estão expostas como esculturas e pinturas em museus, ou são exibíveis como filmes em salas de cinema. Algumas belezas, como as das pessoas belas, estão por aí se movimentando pelo mundo. E possuem sonhos, ambições, pensam, vivem, desejam. Essas pessoas que nos dignificamos a chamar de belas podem não ser justas, como exige o Oráculo, e muitas vezes não são. Algumas paixões são construídas exclusivamente ao redor dessa admiração cega de beleza. Essas paixões tendem ao desequilíbrio e ao sofrimento do que ama e admira cegamente a beleza do outro.
                A beleza  não está presente apenas em Romeu e Julieta, ela rodeia todo casal de enamorados simplesmente porque é impossível amar aquilo que não consideramos belo. Para se destacar, como disse o Oráculo de Delfos, a beleza precisa se aproximar do justo e não é à toa que a nossa cultura normalmente relaciona a beleza com outro sentimentos nobres, como a justiça, bondade e heroísmo.
                Comecei a postagem falando do valor que a beleza pode ter. De fato, ela pode ter valor incomensurável. Sem a beleza a vida seria sem graça, o que falar de a Garota de Ipanema, música composta a uma jovem anônima que passava na rua e que, conta a tradição, Tom Jobim e Vinicius de Moraes seguiram por metros em Ipanema? A beleza (não apenas a física e humana) é o motriz das artes e inspira produções do período clássico ao caos da arte pós-moderna. O que seria da poesia, da música e do amor, sem a beleza?     
                Inescapável como ela é, a beleza estará presente na vida de todos nós. Haverá os que venderão a alma por um minuto de sua presença, sem jamais a possuir, e haverá os que saberão estar próximos a ela todos os minutos da vida sem jamais se deixar ferir. Basta escolher de qual lado você estará.                   

Brigitte Bardot, ícone do cinema.
James Dean, ícone do cinema.

sábado, 15 de janeiro de 2011

PROCURANDO A ESPADA DO MEU SALVADOR

Livro em Branco

                O texto deveria ser sobre política, mas não há nada de importante a acrescentar. Dilma segue com os seus primeiros cem dias de governo nomeando e mantendo ministros que indicam uma continuidade das diretrizes políticas do governo Lula. Espera-se que ela enfrente a reforma tributária e da previdência. A mais interessante mudança foi na chefia do Banco Central, com todo respeito ao genial Henrique Meirelles.
                
Minhas leituras estão atrasadas, o estudo de Direito também. Os sentimentos, contudo, não atrasam. O coração nunca para de bater. Ultimamente ele tem andando bem tranqüilo e a passos estáveis e equilibrados, com a velocidade de quem não está amando ou de quem vive um amor delicado e monástico por si mesmo.
                Ele irá acelerar sem dúvida nenhuma. Essa pausa não é uma pausa melancólica, é um momento de aprendizado, estou adquirindo maturidade e irei usá-la com eficiência quando o momento chegar. O meu coração dança calmamente ao som da bossa-nova que ainda inspira meus dias, também dá solavancos contidos ao som de bons sambas. Ah, e também suspira com os saxofones do jazz


The world has gone mad today
And good's bad today,
And black's white today,
And day's night today,
And that gent today
You gave a cent today
Once had several chateaux.


(ANYTHING GOES, COLE PORTER)
         
                Estou amando a música? Não, estou cantando ao amor. Não a nenhum amor que eu tenha tido, mas aos amores que virão. Cantando ao rosto ainda sem identidade dessa pessoa que me fita ao longe, o rosto do meu futuro amor. Como ele será?
              Não rezo para ele, contudo, canto para ele todos os dias, Deus há de entender isso como uma prece. Como as mocinhas castas de antigamente sonhavam com seus futuros esposos, único homem de suas vidas, eu sonho com ele. Sem identidade, sim, ainda. Será alto, baixo, branco, negro, como será a cor dos seus olhos?
             Em um texto antigo, eu falo do meu messias, do meu salvador. Existem sinais que percorreram o tempo e que me permitirão identificá-lo quando a hora inevitável chegar. Mas nenhum desses sinais me permitiriam reconhecê-lo na multidão. O messias é esquivo e etéreo, como uma fumaça de charuto percorrendo a escuridão da noite. Sua presença se fará notar, será visível e palatável, apenas não sei como.
             

Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes, nos ensina a não ir atrás de cultivar tristezas de amores passados. É justamente isso que estou fazendo, virando a página do passado e observando as folhas em branco que serão escritas. Não faltará nessas páginas nenhum elemento dos dramas gregos e dos melhores romances do período do romantismo, sem perder toda a brasilidade dos pandeiros e sem perder o charme do samba.
             Será uma bela história de amor e como será!

O poetinha da Bossa: Vinicius de Moraes






sábado, 8 de janeiro de 2011

Pequenas notas sobre o vestido da posse

Decente taier branco, quase transparente, com relevo acentuado.
                    A capa da Veja desta semana (02/01) trás a presidente Dilma Rousseff desfilando um vestido branco com a faixa presidencial verde e amarela nos ombros. A escolhida para desenhar o vestido da posse foi a gaúcha Luisa Stadtlander que veste os Rousseff há alguns anos e que também desenhou o vestido de casamento da filha da presidente. Escolha feita ao gosto da presidente que não abandonou as preferências da família mesmo na hora de escolher o vestido mais importante da sua vida. Esperemos para ver se no futuro a presidente também terá personalidade na hora de optar novamente entre o velho e o novo. Na história da política nacional, Lula e ela foram os políticos a terem a personalidade e aparência mais maquiadas. 
                    Em uma mulher, elegância e estilo são atributos que não podem faltar, escolhas políticas importantes da presidente serão os seus vestidos e o penteado. Dilma não precisa se apresentar impecável, em uma mulher até as gafes podem ter estilo. O vestido da posse, por exemplo, a engordou razoavelmente, mas demonstrou uma Dilma humana. E convenhamos, pelo menos a presidente decidiu que um vestido vermelho seria overdose de petismo justo no primeiro dia de trabalho. Branco é melhor. É sinal de esperança.

Para sair bem nas futuras capas de Veja, a presidente terá que fazer
um bom governo e escolher apropriadamente os vestidos.

domingo, 7 de novembro de 2010

Mais um post sobre sexo (e inevitavelmente sobre amor)



Cena clássica de a Dama e o Vagabundo
O que podemos fazer em um sábado a noite? Encontrar pessoas desconhecidas, abusar do álcool, fumar cigarros, transar por pura diversão. Transar por pura diversão? Confesso que poucas coisas podem ser tão instigantes quanto conhecer a intimidade sexual de uma pessoa, se você se viciar nisso pode sair por aí encontrando pessoas novas e descobrindo o que elas guardam de mais íntimo. Nada como vivenciar aventuras sexuais.
Não vivemos nenhum movimento social revolucionário dos hábitos sexuais, todas as transformações sociais que permitiram nossa sexualidade inusitada já acabaram. O sexo não é mais revolucionário e sentimos um vazio imenso por isso. O grande boom da sexualidade começou nos anos sessenta regado a muita música, inspirado em muito rock. O rock agora não é mais nenhuma novidade, ele vive a sua velhice. O sexo livre é praticado por pessoas em todas as camadas sociais, os antigos ideais que movimentaram a luta da contracultura se separaram do sexo livre. A liberdade sexual agora é um fato inegável para a maioria das pessoas e principalmente para os jovens.
Se antes o sexo era um meio de fazer revolução social, agora o sexo está institucionalizado e incentivado fortemente com apelo na imagem. Porém, nenhum sexo de fim de balada se compara ao sexo que fazemos com a pessoa que amamos. Em uma sociedade que apela excessivamente para a imagem, para a virilidade e para o prazer, algo inevitável ocorreu: o amor romântico foi deixado de lado nessas aventuras de virilidade. Perseguimos a beleza enquanto observamos belos mal resolvidos rechearem nossas cabeças com problemas e confusões. Por que são infelizes se a infelicidade, agora, é uma regalia dos feios e dos mal amados? É que a felicidade e o amor têm forte relação com a beleza, mas essa relação quando corretamente vivenciada sempre identificará beleza na pessoa em que amamos.   
Carrie Bradshaw de Sex and the City sempre faz uma pergunta nas suas colunas sobre sexo que assina em um jornal. A minha vai ser: já se sentiu, ao final de uma relação sexual, como se tivesse faltado alguma coisa, algo mais importante do que prazer?
A maioria de nós já passou por situações assim e isso nos incomoda muito. Não quero ser Arnaldo Jabor e repetir suas tolices de best-seller, mas concordando com ele, em um texto de sua autoria largamente difundido na internet: ESTAMOS COM FOME DE AMOR. Estamos com fome de ser amados da maneira mais démodé. O que queremos mesmo é comer macarrão como os personagens da animação A dama e o Vagabundo e sermos surpreendidos em um beijo. O que buscamos mesmo é o amor idealizado, romantizado, que se manifesta nas coisas mais simples. E não o sexo perfeito que vendem por aí.
Arnaldo Jabor encerra o seu texto denunciando uma verdade: antes ser idiota para os outros do que infeliz para si mesmo! Evite as tentações artificiais que vendem fartamente por aí. Persiga o amor, tenha ele como o seu farol, como seu guia. Faça do amor a estrela  guia que orienta a sua navegação. Se você perseguir o amor, não haverá erro, mesmo perdido no Triângulo das Bermudas.

ARNALDO JABOR. Afinal de contas, o que ele entende de sexo?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

DEPOIS DO RESULTADO FINAL (eleições presidenciais)

Como já se esperava, Dilma Rousseff foi eleita a primeira presidenta do Brasil. Não comentarei aqui as conseqüências de ter uma mulher na chefia do executivo porque no momento histórico em que vivemos isso é mais do que natural. Era um dia que haveria de chegar. Já há alguns anos as mulheres venceram todas as adversidades que as separavam da política. Fica a Dilma como uma alegoria apenas.

O que temos pela frente é a nítida possibilidade da candidata eleita realizar um governo melhor que o do seu predecessor se internacionalmente encontrarmos as mesmas características favoráveis que o governo Lula encontrou. E caso ocorram turbulências fora do Brasil, não é de se esperar que o país reaja com a mesma fragilidade que reagia no governo FHC e nos governos anteriores a ele.  É preciso algo muito mais grave para complicar o país. A crise econômica  mundial trouxe para Lula o ano de menor crescimento econômico de seus oito anos de mandato, mas sem desestabilizar o Brasil. Crises semelhantes ou mais localizadas ainda, em países emergentes como se assistia antes, não deverão causar abalos maiores do que a crise gerada pelos subprimes americanos.

O processo de desenvolvimento pelo qual passamos não foi de oito anos de governo Lula por mais que o PT insista em apostar no fato dos brasileiros terem pouca memória. O processo pelo qual passamos é de dezesseis anos, ou mais tempo ainda, abarcando as conquistas do governo FHC e até conquistas mais antigas em governos anteriores. O PT pretendeu comparar o governo Lula ao governo FHC com a frieza de números que analisados sem nenhum critério maior só servem para endossar o discurso “nunca antes na história deste paiz”. Os governos FHC e LULA enfrentaram dificuldades e momentos distintos para que a análise dos dois seja feita com medidas mecânicas dignas das ciências naturais e não das ciências sociais. O governo Lula só teria sido pior que o governo FHC se tivesse provocado no Brasil um retrocesso digno dos governos mais atrapalhados. As condições dadas a Lula são de longe melhores que as dadas a FHC e a resposta foi mesmo a do progresso natural. Agora, se espera que o PT continue progredindo como demonstrou no governo Lula. O que jamais saberemos, pois ficará no plano da especulação, é qual resultado o PSDB traria ao país quando governasse, em tese, em condições menos ardilosas que as encontradas oito anos atrás.


Em entrevista à Folha de S. Paulo, o cientista político de reputação internacional Joseph Nye foi claro em afirmar que o Brasil evoluiu dramaticamente nos últimos vinte anos. “Vinte anos atrás ninguém levava o Brasil a sério. Era a terra da inflação, nada funcionava. Depois que você passou a ter um real sólido e uma política fiscal sólida, a base do Brasil, com seus recursos naturais, seu potencial, aflorou. Claro que eu dou crédito para Lula, mas eu dou o grande crédito para Cardoso”, afirmou o cientista.

O mais importante agora é que o PT, mesmo narcisista, seja capaz de absorver as críticas que o governo Lula sofreu, pois caso faça isso, poderá governar com resultados ainda melhores. Mas assumir que errou não é uma qualidade petista e não espero que eles sejam capazes de fazer isso agora. O que se publicou nos jornais ontem e hoje anunciam a volta de Palocci e a manutenção de Mantega e Meirelles. Bis in idem é o que todos cogitam, porém, o PT é capaz de muito mais e já nos surpreendeu outras vezes. A política econômica deverá continuar sendo a mesma, a manutenção do tripé básico formulado no governo FHC e que revolucionou o país será mantida (as metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário que foi implantado ainda em 1999), mas nada impede que Dilma Rousseff venha a colocar em prática novas medidas.

Termino o artigo desejando boa sorte à nova presidente e também à oposição para que ela auxilie o país a encontrar o meio termo no debate político para que consigamos, petistas no governo ou não, continuar progredindo. Independente de qual lado político se esteja, o país e os brasileiros são mais importantes que disputas eleitorais e debates ideológicos. Minha parte será feita. Continuarei com o mesmo hobby de escrever sobre política neste espaço e de debater com os amigos as minhas opiniões. Boa sorte, Brasil!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tempestade no meu coração

Rain Storm, Union Square.  Childe Hassam

“Sinto-me como se tivesse sido expelido de um liquidificador, estraçalhado e batido por todos os lados”, foi o que disse a um amigo no telefone recentemente. Os meus sentimentos viraram uma mistura de raiva, dor, frustração e revolta. Não me lembro de quando me vi pautado por sentimentos tão pouco nobres. “Estou andando com dificuldade, por hora preciso da ajuda de uma bengala, não sei quando poderei atirá-la de lado e caminhar por minhas próprias pernas novamente. Estou dormindo com o auxílio de medicação”, falei ao mesmo amigo instantes depois. Passaria todos esses dias embriagado, anestesiado até essa dor passar, mas alguns remédios que tomo não me permitem esses abusos sem pôr em risco a minha saúde.
                Os piores demônios que viviam comigo e que acreditava estarem exorcizados, voltaram à minha companhia, voltaram a ocupar a cabeceira da minha cama. Eles olham para mim com suas faces disformes o tempo inteiro e já não consigo fitar essas aberrações. Não estou em condições de conviver com esses monstros e não tenho crença nenhuma em Deus para rogar em pedido de ajuda.
                Uma constante fúria chuvosa despenca sobre mim. Já verti muitas lágrimas junto a essa chuva morna. A saída somática para minhas dores não são lágrimas, a mais singela representação da dor psíquica, mas sim o vômito. “Como a minha tia fizera quando a sua filha morreu, no velório, ela vomitava para todos os lados”. Sinto inveja de não poder somatizar minhas dores com tanta facilidade. Quem sabe a saída para todo sofrimento humano não seja esse, o vômito? Acho que a minha tia tinha muito que dizer a humanidade com seus reboliços estomacais.
                Que um romance que começou e acabou com a mesma velocidade tenha provocado em mim sensações tão fortes é um sinal do quanto eu preciso amadurecer. O pior mal do idealizador é que quanto mais alto é o sonho, maior é a queda. A realidade não é tão bela quanto aquilo que imaginamos, idealizamos, sonhamos e construímos, diuturnamente quando estamos apaixonados.
                Todas essas angustias acontem porque eu o amo? Disso não tenho certeza. Refazendo meus cálculos, eu descobri que só me apaixonei uma única vez na vida. Esses eventos me fizeram descobrir que o que eu pensava ser o meu segundo amor é na verdade uma invenção causada pela necessidade. Na soma antiga, o D. seria o meu terceiro amor. Contudo, quando releio o meu segundo amor, descubro defeitos gritantes que o jogam na vala comum dos espíritos paupérrimos. O D. é completamente diferente, sua personalidade é uma construção complexa de sentimentos dignos de respeito, ao contrário do outro, ele está no lugar especial dos espíritos luxuosos. Mesmo assim não sei dizer ao certo se o amava ou se ainda o amo. Posso descobrir no futuro que em relação ao meu primeiro amor tudo isso não passou de carinho ou outro afeto menor e menos significativo.
                Dolorosamente, vou caminhando esse labirinto de cercas vivas porque sou obrigado a percorrê-lo em busca de uma saída. Se eu não tenho sorte no amor, serei um jogador falido e compulsivo. Mas sempre rolarei meus dados. Sempre estarei pronto e a espera da hora da sorte, chegue ela um dia ou não.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Antes do resultado final (eleições presidenciais)

Existem algumas coisas que eu pretendo escrever aqui aintes do resultado final das eleições. Vamos a elas.
...
Estamos caminhando para o fim de mais um teste a nossa jovem democracia. O Brasil se redemocratizou recentemente e superamos momentos difíceis em busca do amadurecimento de nossas instituições políticas. Um presidente foi deposto, a imprensa, seja no governo Itamar, Collor, FHC e Lula, nos trouxe escândalos de corrupção que nos fizeram cogitar a descrença na política e na capacidade de nós, brasileiros, governarmos a  nós mesmos. A corrupção, como disse The Economist na sua última publicação, não é particularidade de nenhum partido político no Brasil, mas sim uma característica da política brasileira. Precisamos ser capazes de identificar em cada um dos partidos aqueles que fazem política com seriedade e que trabalham pelo fortalecimento do Brasil.


Sobre as eleições presidenciais, vivemos momentos que mais uma vez nos levaram a desacreditar no futuro. Os partidários do candidato de oposição utilizaram do recurso à religião para conquistar votos de conservadores ligados às igrejas. Isso dividiu as próprias igrejas e os fiéis. Sofremos a possibilidade de ver a campanha presidencial dividir o país em conservadores e liberais como ocorre sempre nas eleições americanas. Não estamos preparados para essas novidades e a população brasileira reagiu chocada a essa divisão. Em contrapartida, os partidários da candidata governista revelaram publicamente detalhes da vida pessoal da mulher de José Serra acusando-a de ter praticado aborto, vilipendiando a intimidade do candidato e indo além daquilo que a imprensa e a política está autorizada a fazer. 


Outro traço das eleições foi a constante presença do Presidente da República nos comícios, nas passeatas e no horário eleitoral. Os esquerdistas críticos do PSDB esqueceram autocrítica na hora de avaliar as conseqüências de uma exposição excessiva como esta que transformou o presidente em um cabo eleitoral. A campanha do PT também se pautou em mentiras deslavadas praticando populismo nacionalista ao ameaçar a população com privatizações que o PSDB jamais cogitou.


 É difícil saber qual dos dois lados errou em grau mais severo, resta-nos assistir a tudo isto estarrecidos.
             
A imprensa está dividida e foi muitas vezes partidária. Em uma clara alegoria disso, tivemos as capas da revista Veja e da revista Istoé, cada qual apontando a contradição de um dos candidatos. Isso demonstrou o embate entre os dois meios de comunicação. Conheço de Estadão e Carta Capital terem assumido o seu voto.
 
 Por um lado esse embate sofrido pela imprensa foi um dos bons acontecimentos dessas eleições. Um jornal e uma revista não devem sempre ser imparciais porque isso coloca em risco o comprometimento do veículo com a verdade. Verdade, como sabemos, é um conceito difícil e fugidio, como sempre ensinou a filosofia. É perfeitamente possível que dois lados acreditem fielmente em suas idéias e as defendam com a força de quem crer estar em defesa da verdade. Algo saudável. Errado seria se os meios de comunicação tivessem formado sua linha editorial com base em interesses políticos ou econômicos o que até agora não foi demonstrado.

O ruim não foi a imprensa ter ido à luta por votos, mas sim o fato dela ter se envolvido em denuncismo e sensacionalismo ao invés de divulgar a proposta dos candidatos e mover as discussões em torno delas. O fato da eleição ter virado uma guerra em que um enfia o dedo no olho do outro é em parte culpa da cobertura da imprensa.


Enfim, eleições para o parlamento e para a chefia do executivo jamais serão perfeitas, porque a imperfeição é inerente aos homens e na hora de tomar decisões tão cruciais para o rumo do país é mais do que normal que nos exaltemos. A questão é saber se evoluímos ou se retrocedemos. Sem fazer um julgamento que valorize um ou outro candidato, respondo a esse questionamento afirmando que sim. Evoluímos, vagarosamente, mas evoluímos. Uma evolução à brasileira.