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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Crítica ao FILME CONDUTA DE RISCO



Já nos aproximamos do OSCAR 2009 e discutir esse filme talvez esteja fora de ocasião. Conduta de Risco foi indicado a sete OSCAR no ano de 2008 levando o de melhor atriz coadjuvante com Tilda Swinton (Karen Crowder). Na época das indicações ocorreu uma divisão na crítica que em parte o enalteceu e em parte o criticou severamente. Eu pertenço ao grupo do meio termo e estou aqui para ajustar, agora longe do calor daquele OSCAR, as reais proporções da qualidade do longa-metragem. Analisá-lo é também uma maneira de revermos o que ocorreu naquele ano, um dos mais confusos de Hollywood nos últimos dez. Fora de ocasião ou não, vamos à crítica do filme.


O filme se passa em meio a um grupo de advogados e mesmo não tendo muitas cenas com audiências ou inquirição de testemunhas é um filme do gênero dos que envolve o universo do Direito e terminam sendo assistidos por esses profissionais (como eu) com grande entusiasmo no mundo todo. Existem muitos bons filmes com tema voltado ao meio jurídico na biblioteca universal de filmes. Algum deles, como O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men 1957), Julgamento em Nuremberg (Judgment in Nuremberg 1961), Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959) são clássicos do cinema de todos os tempos.


O longa-metragem é o filme de estréia de Tony Gilroy como diretor. Segundo afirmam, Gilroy tirou inspiração para o filme enquanto freqüentava escritórios de advocacia para escrever o roteiro de Advogado do Diabo (Devil’s Advocate 1997). Outro grande trabalho do roteirista é a trilogia Bourne estrelada por Matt Damon e que angariou fãs no mundo todo. Tony Gilroy é um nome que será citado futuramente no cinema, com absoluta certeza. Para um filme de estréia conseguiu um sucesso bem acima do esperado, mas não completamente inesperado tendo em face o elenco e o dinheiro investido.


O filme se inicia com um monólogo do personagem Arthur Edens (Tom Wilkinson) que corre em segundo plano enquanto vemos cenas do escritório de advocacia em uma noite de trabalho difícil. A linguagem de Arthur será um dos grandes pontos do filme, ele escolhe os adjetivos perfeitamente e revela a qualidade do roteiro. No monólogo, Arthur compara a sua saída pela porta do escritório ao rompimento de uma “película” ou “líquido embrionário.”


O escritório seria uma “placenta” e Arthur rompia esse “casulo” libertando-se da sujeira que havia dentro dele. “Eu renasci” diz o personagem e continua “o escritório é o ânus de um organismo cuja única função é expelir veneno”, “estive coberto dessa merda toda a vida”. São as declarações que faz ao seu amigo e protagonista do filme Michael Clayton (George Clooney) quanto este o visita na delegacia por causa do surto de Arthur durante uma audiência.


A história do filme envolve uma companhia ligada ao agronegócio, a U/NORTH, com. um total de 70.000 funcionários espalhados em mais de 65 países. Um herbicida produzido pela mesma seria agressivo ao organismo humano e teria provocado a morte de diversas pessoas (e doença de uns outros tantos) em uma pequena comunidade nos EUA. O resultado da tragédia é uma ação coletiva por indenizações no valor de 3 bilhões de doláres. O escritório de Arthur, Michael e Marty Bach (Sydney Pollock) é o responsável pela defesa da empresa de agrotóxicos. Ocorre que o advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson), maníaco-depressivo com problemas pessoais, enlouquece durante uma audiência e revela informações em desfavor de seu cliente. Além disso, Arthur também começa a juntar provas contra o seu cliente (U/NORTH), pondo em risco a sua vida e os rumos do processo. Por envolver o tema de capitalismo selvagem e indústrias carniceiras o filme foi comparado a Erin Brockovich (2000) e O Informante (The Insider, 1999). O processo é carregado pelo escritório há sete anos com protelações para cansar os querelantes e promover um acordo de baixo custo à empresa.


A trama central do filme é intercalada por cenas da vida particular de Michael Clayton, sua separação difícil e a relação com o seu filho de oito anos. A intenção é desenvolver o personagem, que é de fato complexo e guiado com maestria por George Clooney. Michael Clayton é também viciado em poker e deve dinheiro a agiotas por causa de um negócio mal sucedido no ramo de bares. Ele é longe de ser um herói, talvez não chegue a ser um anti-herói, é somente uma pessoa ocupada demais com seus próprios problemas e sem tempo para heroísmo. Não se importa se a causa envolvendo a U/NORTH é suja ou não, apenas quer resolver seus problemas financeiros e pessoais. Refere-se a si mesmo como "faxineiro" que limpa a sujeira dos seus clientes "donas de casa assaltantes e políticos pervertidos". Arthur começa a inserir na ocupada consciência de Michael preocupações de natureza ética que terminam por influenciar um discurso que faz ao seu filho sobre caráter. Contudo, ao ouvir o primeiro discurso de Arthur sobre a sujeira do caso U/NORTH, Michael surpreende-se dando a mínimo interesse para questões morais relacionadas com o seu trabalho e considerando toda a confusão criada por Arthur como um resultado da doença mental do mesmo, como se fosse um devaneio questionar-se sobre a ética em assumir ou não determinada causa e a responsabilidade decorrente disso. Michael Clayton é um advogado sóbrio que conhece o seu papel em um processo e na vida, com realismo. O enrendo é não-linear como muito tem se visto, sem contudo se basear no recurso fortemente.


A câmera do filme costuma focar os personagens bem de perto, muitas vezes escondendo o cenário, acompanhando as expressões faciais dos mesmos, que parecem não interpretar em busca de um fim. O uso máximo do recurso é na cena final em que a câmera acompanha Michael Clayton ao longo de um passeio de táxi. A trilha sonora é suave, com sons gerados eletronicamente ou fortemente mixados. Quanto às cores, nas cenas com Michael Clayton, costumam predominar cores frias, azuis. Em outras cenas predominam cores esverdeadas, em algumas temos cores mais quentes, talvez nas de Karen Crowder (Tilda Swinton)


Comentando a interpretação de Tilda Swinton que levou o OSCAR, de fato ela é foi competente e deu vida a essa executiva exausta, desequilibrada, relacionada demais com o trabalho e que toma decisões que não são capazes de conviver com sua personalidade, decisões de crime. É um pouco parecida com Michael na questão mesma do realismo e por seus problemas pessoais causarem frieza nas suas decisões de executiva. É uma personagem frágil, apesar de se apresentar no filme no papel mais próximo de uma vilã.


As críticas mais severas disseram que o filme é tedioso e que a trama é pouco explícita exigindo demais do espectador que pode se perder e até retirar a atenção do filme, que possui pouca ação real, focando-se basicamente em seu roteiro. De fato é possível que isso, um verdadeiro desastre, aconteça em Conduta de Risco. A trama realmente requer muito cuidado por parte do espectador e o roteiro e sua execução, nesse sentido, sofreu problemas graves. A trama central perde-se durante a trama secundária, as vezes nos tornamos insensíveis a recursos do filmes, por ele apelar pouco, como na cena poética em que Arthur caminha pelas ruas da cidade perdido com seus devaneios diante de publicidades imensas da empresa U/NORTH. Contudo, o ideal é que aqui tenhamos um espectador capaz de compreender a trama sem que o filme necessite explicitar, reforçar, dizer a mesma coisa duas vezes.


O que vi nesse filme foram pontos de grande qualidade intercalados com problemas graves, mas que, quando acerta o faz com maestria sendo espelho para muitos outros filmes que pretendam criar personagens realistas e passar a impressão real de humanos que se perde diante das situações "heróicas" demais que os filmes apresentam e que de fato exigem.


Próximo ao fim, na cena ápice, Michal Clayton fala para Karen Crowder (Tilda Swinton) "você tentou me matar, sou o cara que você deveria comprar e você me mata?". E então, Michael realmente se venderia? Pensa o espectador. É possível, ele é tão anti-herói que talvez fizesse isso. É quando então Michael se despede, depois de revelar-se um herói, respondendo a um homem que pergunta quem ele é: "Sou Shiva, Deus da Morte".


domingo, 17 de agosto de 2008

O ator favorito

O ator favorito não foi uma escolha que fiz através de justificativas extensas, por isso não procurem forte embasamento crítico na minha escolha por Anthony Hopkins, meu favorito desde sempre.

De lá para cá meu senso crítico evoluiu bastante, passei a assistir filmes americanos por puro entretenimento e apego a sua linguagem de fácil compreensão e reprodução, mesmo assim, Hopkins continua a despertar o mesmo fascínio de quando lhe admirava com meus olhos de púbere. É como a primeira paixão.

Os mais eruditos escolhem atores do cinema clássico, do cinema europeu ou ainda do cinema independente. Eu escolho um do cinema popular americano porque nunca deixei de apreciá-lo e de ressaltar a sua qualidade maior: ter como espectador o grande público. É inegável que a linguagem hollywoodiana precisa se reformar da mesma maneira como é inegável que produziu grandes filmes. Minha escolha, Anthony Hopkins, é a escolha de um ator com relativa visibilidade que contagiou as massas e parte dos críticos com os seus trabalhos.


O Oscar para
Anthony Hopkins veio com O Silêncio dos Inocentes. Grandes papéis, claro, foram Picasso, Charles Dickens e Nixon em três filmes biográficos; o mordomo workahollic no filme The Remains of the Day (o mordomo obsessivo era um dos atributos impagáveis do excelente filme de James Ivory) e o médico Frederick Treves no filme O Homem Elefante de David Lynch (1980). Sem falar, claro, das suas inúmeras participações como ator coadjuvante. Dos filmes mais recentes com Hopkins, admiro especialmente Hearts in Atlantis, com roteiro baseado em Stephen King.

Com uma seriedade inconfundível, Hopkins sempre atribui maior profundidade a seus personagens, dando-lhes um pouco do seu natural mistério. Sua voz é fascinante. Seus olhos sempre parecem fitar alguma coisa além no espaço. Estilo inconfundível, inspira admiração, como aquela que temos quando estamos na frente de um grande sábio. Procuro assistir qualquer filme que o tenha escalado no elenco.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

In an west far far away....

(imagem do verdadeiro Wild Bill)

Na pequena cidade de Dallas, alguns anos após a Civil War americana, Stuart Heisler ambientou um dos seus melhores filme de faroeste. O nome é o Vingador Impiedoso (original Dallas). As filmagens são do ano de 1948. O astro Gary Cooper interpreta Blayde Hollister um coronel militar sulista que se tornou outlaw depois que os yankees venceram a guerra. Estranhamente, o outlaw é amigo do lendário Wild Bill Hickok, um personagem real que lutou heroicamente na guerra civil ao lado da União, participando de tiroteios fantásticos que deixaram uma lenda ao redor de seu nome.

A história se inicia com a busca do desastrado delegado federal interpretado por Leif Erickson por Wild Bill. As ordens de Washington são para o levar até a cidade de Dallas para investigar abusos de um trio de irmaõs conhecidos como "irmãos Marlow". Quando encontra Wild Bill, o delegado recebe uma resposta negativa e aceita o convite de Blayde Hollister para o substituir. Hollister tem também uma brilhante idéia de farsa: ir até a cidade de Dallas com papéis invertidos, Blayde fingiria ser o delegado federal e o delegado fingiria ser seu ajudante. Embasbacado com as habilidades de Blayde com a pistola, o delegado concorda com o plano.

A participação de Wild Bill é apenas especial, serve somente para introduzir o personagem protagonista Blayde Hollister que é fictício. Contudo, a introdução da trama, melhor parte do filme, conta com muitos diálogos com a lenda viva Wild Bill. Assistam.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Algumas linhas sobre cultura POP


Sem dúvida alguma PULP FICTION (Tarantino) é um dos maiores filmes já feitos pela indústria cinematográfica americana. Seu ano de lançamento foi o mesmo de Assassinos por Natureza (Oliver Stone com roteiro do Tarantino) e ambos pairam sobre o mesmo tema da violência gratuita que a indústria americana vende a preço de bananas. Em Pulp Fiction, Tarantino vai buscar na expressão mais vulgar de literatura as influências para o filme. Não tem como deixar de observar a linguagem hollywoodiana voltando-se para ela mesma, como metalinguagem ou estudo complexo de estilo. Observa-se com clareza todo o cinema da década, o cinema de ação, o cinema de aventura, e até o romance. Pulp Fiction é o único filme necessário para se perceber todo o cinema da década de 90.

Mesmo sendo um apreciador de arte muito crítico com a cultura POP, não deixo de observar os caminhos da indústria americana no cinema, na literatura e na música. Escritores de máxima vanguarda e eruditos, como Umberto Eco, já se renderam ao estudos dos elementos constituintes das modernas expressões artísticas da cultura POP. A Misteriosa Chama da Rainha Loana, seu livro mais recente, retrata a busca de um erudito desmemoriado pelas suas memórias de infãncia nos quadrinhos editados no início da indústria. Eu acho que devo mesmo prosseguir com cautela ao apreciar a arte de meu tempo, um canhão de muitas luzes que dispara em direção às tendências mais diversas.