Noite Estrelada sobre o Rio Ródano. Van Gogh. O uso da refração lembra o impressionismo.
Uma bela música completa qualquer madrugada.
Quando a música é de Nat King Cole*, a madrugada pode desenvolver ainda
mais as suas qualidades. Além do silêncio, é a impressão de que todos estão submersos na mesma quietude o que a torna tão viva em sentimentos. É hora de vigília enquanto os outros dormem.
Em alguns momentos da vida, sentimos-nos
iluminados por uma grande ideia. É o que acontece quando saímos do cinema após assistir
um bom drama: colocamos-nos em sintonia com algo maior. Saímos iluminados de
vida, de experiências humanas. As letras dos créditos passam lentamente e não conseguimos levantar da cadeira. São poucos segundos de introspecção. A extensão desses poucos segundos, é como a madrugada tem sido para mim.
Noite Estrelada.
Van Gogh Por que um simples arbusto
protagoniza esta cena?
Como no quadro clássico de Van
Gogh (Noite Estrelada) na minha madrugada as estrelas circundam as nuvens. Cada
estrela é como um universo de experiências que vivi. Todas elas interligadas
pelos traços da minha personalidade, dos meus aprendizados. A textura marca a
experiência como rugas. Não há alternativa a não ser unirmos nossa
pequenez à grandeza do mundo. Em momentos como esse, cada respiração nos comunica a algo maior: o repositório de todos os dramas humanos. Para um jovem
deitado no meio do nada, a solidão serve na verdade como uma conexão entre ele
e as estrelas.
Nat King Cole.
Cantor de jazz e músico norte-americano.
E então, qual seria a minha grande ideia, a grande
tacada metafísica, abstrata, capaz de servir agora como uma luz, uma chave mestra
para todas as minhas questões? É certo que ainda não estou no fim da
vida, nem perto do meio, mas até agora, em todos esses anos, nunca pude ser tão grande como esperei um dia ser. A diferença é que neste minuto isso não é mais importante para mim. Minha vida, que ainda é tão marcada por conquistas não chegadas, ganha agora a importância pelo que sempre foi, pelo que sempre a preencheu.
Amo cada detalhe da minha particular existência
nesse mundo, é este o segredo dessa madrugada de luzes. Estou desligado de
qualquer coisa que agora não possua. Não à toa o segredo do crescimento em uma
sociedade de consumo é a sensação humana de eterna insatisfação. Por maior que
seja uma existência, ela se resume a mesma simplicidade de sempre: a
concretização da felicidade. Com a impressão visível, desenhada nas estrelas,
de que estou nesse mundo em busca de outra coisa a não ser a minha própria realização,
sinto como se pudesse encarar com maior clareza o dia de amanhã. (...)
Música: "There was a boy, a very strange enchanted boy/ They say he wondered very far.. very far.../ Over land and sea"...(Havia um garoto, um garoto muito estranho e encantador/Diziam que ele veio de muito longe, muito longe/ Além da terra e do mar..)NATURE BOY/ NAT KING COLE.
*A música Nature Boy pode ser ouvida no link direto para o vídeo. Consagrada na voz de Nat King Cole é de autoria de Eden Ahbez. Letra e tradução: AQUI.
CASABLANCA (Michael Curtiz, 1942)
Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.
O clássico amor de cinema.
Toda a literatura da minha vida como amante são pedaços
de papel que nem o melhor artista do mundo seria capaz de fazer arte. Talvez a
colagem mais criativa fosse capaz de unir esses minúsculos fragmentos e fazer
deles um quadro expressivo. Como os grandes retratos de miséria, meus affairs só expressariam indignidade.
Simplesmente esperei
do mundo o melhor que ele podia oferecer. Esse é o grande mal das crianças
mimadas. Elas continuam a acreditar que o mundo é um palco onde satisfazem os seus desejos. Ele é, contudo, o resultado do encadeamento sem
lógica da vontade de inúmeros sujeitos. Com pesar, os mal acostumados descobrem
que a vida representa a ação volitiva de muita gente, não apenas a sua.
Existe um verso de Vinicius de Moraes que eu recitava antes que eles
dormissem. “Dorme como dormirás um dia na
minha poesia um sono sem fim”. Se esses versos os tocassem, não estaria
sozinho hoje.
CINEMA PARADISO (Giuseppe Tornatore, 1988)
O filme sobre o cinema dos comuns
tinha também um grande amor.
A minha avó cantava para eu dormir músicas as quais o seu pai
cantava, provavelmente de folhas de cordel. Extremamente criativas, não podem
ter outra fonte. Eu cantava para eles João Gilberto. A minha avó era uma
excelente cantora. Meus amantes, porém, odiavam João Gilberto. “É amor, oh-ba-la-la, oh-ba-la-la, uma
canção, quem ouvir, oh-ba-la-la, terá feliz o coração.” Hoje em dia um show
de João Gilberto não sai por menos de quinhentos reais, eu cantava
gratuitamente ao pé do ouvido para que dormissem em paz.
Sempre os velei o sono, tal qual um bom amante deve fazer.
Como Álvaro de Campos,
eu bati no meu peito mais humanidades do que Cristo. Guardei no meu coração uma
fonte permanente de respeito. O que me faz permanecer vivo, hoje, é a
crença de que um dia poderei transferir a alguém todo o cuidado que estou
disposto a fazer.
Assim como uma crença
inabalável, carrego todos os dias a confiança de que um dia irei entregar o meu
principado à confiança da pessoa certa. É a solene trasmissão do título, a coroação. Como
o final de um grande show, espero
pelo meu grand finale. O final feliz,
hollywoodiano, novelesco quem sabe, em que anos de incompreesão encontrão o seu momento de espetáculo e grandeza.
A UM PASSO DA ETERNIDADE. (Fred Zinnemann, 1953)
Burt Lancaster e Deborah Kerr.
DE OLHOS BEM FECHADOS.
(Stanley Kubrick. 1999)
Nicole Kidman e Tom Cruise
Em uma leitura ocasional aos dezesseis anos tive contato com a frase que marcaria o meu primeiro amor: “o Belo é, é isso o que o Belo faz”. A frase é deBetsey Trotwood, tia e cuidadora de David Copperfield do clássico livro de Charles Dickens. Eu mal acordara para a sexualidade e — como de usual — estava apaixonado pela beleza.
Ao ler a fala de Mrs. Betsey, imediatamente percebi o que acontecia na minha vida. Aquele rapaz pelo qual me apaixonara fascinava em todo o sentido da expressão usada pela personagem. “Ele era, era isso o que Ele fazia”.
A sua personalidade não passava de um adendo para a sua estética, todas as suas ações estavam contaminadas por esse multiplicador. Por algum tempo o achei semelhante a Davi de Michelangelo. Davi por mais que inspirasse ideais gregos e renascentistas de beleza, revelava em suas mãos desproporcionais um convite ao conceito de beleza mais pós-moderno possível: a individualidade. Meu rapaz era individual e classicamente belo.
Ele não tinha mãos desproporcionais como as de Davi. Mas as suas veias saltadas, sempre aparentes, assemelhavam-se aos contornos das veias do corpo da escultura. Era claro como mármore, mas quente como o desejo que ele me inspirava. Seu corpo não tinha pelos, assim como uma estátua nua.
Davi com a cabeça de Golias. Caravaggio.
Toda a minha paixão pela filosofia e pelos gregos estava materializada nele. Ele preferia Esparta a Atenas. Gostava de lutar e Esparta soava mais agradável à sua índole guerreira. Já eu, era fascinado pelo que o homem ateniense aprendeu a fazer melhor do que qualquer outro: pensar.
Aos dezesseis anos era imaturo e fantasioso o suficiente para achar que era o homem mais inteligente do mundo e ele o rapaz mais belo que Deus tinha criado. Para elevá-lo, dizia-lhe que era mais inteligente do que eu, o que não era mentira. Ambos éramos inteligentes. Hoje, nem eu nem ele somos. Jogamos nossa inteligência no lixo junto com os nossos sonhos e a nossa amizade. Não o vejo há tanto tempo que nem sei dizer se ao menos continua belo.
Em uma gravação ao - vivo de Ella Fitzgerald com Louis Armstrong, Ella pergunta a Louis: “você já se apaixonou?”. Louis responde: “já me apaixonei quatro vezes”. Como o jocoso Louis, eu também voltei a me apaixonar. Contudo, nunca a beleza foi novamente o motriz exclusivo da minha paixão. Como muitos dos sentimentos que conheci naqueles anos, a beleza se perdeu na inocência do chumbo da minha minha segunda infância. Se a encontrarei um dia, não sei. Restam-me as fortes recordações da imagem da nudez do meu primeiro amado, o corpo nu do meu herói grego/judeu estampado na minha memória como uma tatuagem.
Willian Turner: auto-retrato.
(*qualquer semelhança com pessoas fictícias ou reais é liberdade poética, nenhum texto de contéudo pessoal deste Blog deve ser lido de forma a relacionar os textos com pessoas reais da vida do autor).
O que pode ser melhor do que
vinho no primeiro encontro?
Quando um casal americano sai para se conhecer chama isso de date. “I have a date”, “eu tenho um encontro”, diz o americano todo feliz. Entretanto, no mundo das “baladas”, da “curtição”, das danceterias e boates, o encontro está desaparecendo do vocabulário e do dia-a-dia dos amantes. Nós estamos abandonando o encontro para conhecer pessoas em festas, em flertes lançados a distância através de cantadas decoradas e artificiais.
Confesso que por algum tempo eu também entrei nessa roubada. Certa vez, cansado de inventar cantadas mirabolantes em danceterias eu decidi assumir um padrão de comportamento. Comecei usando o celular. Escrevia o texto em uma mensagem e dava para o pretendente ler, ele respondia no próprio aparelho. Depois, passei a ser mais ousado. Comecei a pegar um pedaço de papel, fazer uma bolinha e arremessar na cabeça deles. Assim eu iniciava a conversa e me vingava previamente caso levasse um fora. Certa vez joguei a bolinha na cabeça do rapaz certo e o namorei por três meses.
Agora estou fora dessa. Não tenho mais tempo e nem idade para suportar as horas de badalação e bebidas. A realidade da vida me obrigou a ser mais responsável e promovi mudanças. A primeira delas foi a reabilitação do “encontro”. Agora eu convido os pretendentes parar sair e comer alguma coisa ao invés de me intoxicar junto com eles de música eletrônica ruim.
John Travolta e Uma Thurman
no clássico Pulp Fiction (QuentinTarantino, 1994).
O "silêncio que incomoda".
Mia Wallace e Vicente Vega (Uma Thurman e John Travolta) no clássico do cinema Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), marcam um encontro que por pouco não termina em tragédia (a overdose de Mia). É uma prova irrefutável de que o encontrotem seus riscos. Contudo, no amor sempre jogamos dados como uma prerrogativa para participarmos do jogo. Outro fato interessante desse encontro é a referência que Mia Wallace (Uma Thurmam) faz ao “silêncio que incomoda”, aqueles clássicos momentos em que o casal fica em silêncio um olhando para o outro em procura de assunto para a conversa.
Entretanto, o maior problema dos encontros ainda é ter que decidir se você irá ou não transar no primeiro encontro. É uma dúvida difícil. Desculpas esfarrapadas como chamar você para tomar cervejas em casa, dar uma subidinha para conhecer o apartamento, ir para um lugar mais confortável ou mais reservado, serão certamente as propostas feitas para forçar você a se entregar e ceder.
"Eu transo no primeiro encontro"
Não existe uma regra geral para todos os casos, certamente encontraremos casais que transaram no primeiro encontro e agora vivem maritalmente enquanto outros não passaram da primeira vez. O encontro é uma aventura, um pequeno ensaio da vida a dois, é perfeitamente possível testar uma pessoa em um encontro, em uma balada isso já se apresenta como uma tarefa mais difícil. A revitalização do encontro se impera como forma de fugirmos de alguns defeitos inerentes aos nossos hábitos modernos que prejudicam nossa vida afetiva.
Finalizando, se hoje for sábado e você estiver próximo ao telefone, não tenha dúvida: marque um encontro. Chame aquela pessoa especial para jantar fora ou beber alguma coisa. Quem sabe vocês não acabem, após o encontro, saindo para dançar em uma casa noturna em um clássico exemplo da união entre o velho e o novo, entre o útil e o agradável. Seria começar a noite em Pulp Fiction e terminar em Embalos de um Sábado a Noite (Saturday Night Fever, John Badham, 1977).
Boa sorte e até o nosso próximo encontro!
John Travolta e Karen Lynn Gorney.
Embalos de um Sábado à Noite
(Saturday Night Fever, John Badham, 1977)
“Quem é belo é caro. Quem não é belo não é caro” cantaram as musas nas núpcias de Cadmo e Harmonia, em Tebas, segundo narração de Hesíodo. Será que a beleza é tão cara assim?
Em sua obra História da Beleza o pensador italiano Umberto Eco trabalha a variação e evolução da beleza no Ocidente a iniciar pela Grécia Antiga até os dias atuais. Começamos com estátuas gregas e terminamos com atores e atrizes de Hollywood. Se a beleza em Hollywood dos anos 40 para os dias de hoje se modificou tão severamente, o que ocorreu nesses milhares de anos de história?
De acordo com a obra de Umberto Eco, ao ser interrogado sobre qual critério utilizar para avaliar a beleza, o Oráculo de Delfos respondeu que “o mais justo é o mais belo”. Em toda a nossa história perseguimos o fenômeno da beleza e tentamos descobrir normas que regulem esse universo. Contudo, não existem tais normas universais, a beleza se manifesta de variadas formas e o que nos resta é compreender suas manifestações conforme o próprio homem evolui as engrenagens da cultura. A beleza vai mudando e nós vamos mudando junto com ela.
Romeu e Julieta, Sir. Frank Dicksee
Sou um admirador da beleza. Admiro-a com cuidado, pacatamente, à distância, para que não me fure os espinhos da rosa. Nem todas as belezas do mundo estão expostas como esculturas e pinturas em museus, ou são exibíveis como filmes em salas de cinema. Algumas belezas, como as das pessoas belas, estão por aí se movimentando pelo mundo. E possuem sonhos, ambições, pensam, vivem, desejam. Essas pessoas que nos dignificamos a chamar de belas podem não ser justas, como exige o Oráculo, e muitas vezes não são. Algumas paixões são construídas exclusivamente ao redor dessa admiração cega de beleza. Essas paixões tendem ao desequilíbrio e ao sofrimento do que ama e admira cegamente a beleza do outro.
A beleza não está presente apenas em Romeu e Julieta, ela rodeia todo casal de enamorados simplesmente porque é impossível amar aquilo que não consideramos belo. Para se destacar, como disse o Oráculo de Delfos, a beleza precisa se aproximar do justo e não é à toa que a nossa cultura normalmente relaciona a beleza com outro sentimentos nobres, como a justiça, bondade e heroísmo.
Comecei a postagem falando do valor que a beleza pode ter. De fato, ela pode ter valor incomensurável. Sem a beleza a vida seria sem graça, o que falar de a Garota de Ipanema, música composta a uma jovem anônima que passava na rua e que, conta a tradição, Tom Jobim e Vinicius de Moraes seguiram por metros em Ipanema? A beleza (não apenas a física e humana) é o motriz das artes e inspira produções do período clássico ao caos da arte pós-moderna. O que seria da poesia, da música e do amor, sem a beleza?
Inescapável como ela é, a beleza estará presente na vida de todos nós. Haverá os que venderão a alma por um minuto de sua presença, sem jamais a possuir, e haverá os que saberão estar próximos a ela todos os minutos da vida sem jamais se deixar ferir. Basta escolher de qual lado você estará.
O texto deveria ser sobre política, mas não há nada de importante a acrescentar. Dilma segue com os seus primeiros cem dias de governo nomeando e mantendo ministros que indicam uma continuidade das diretrizes políticas do governo Lula. Espera-se que ela enfrente a reforma tributária e da previdência. A mais interessante mudança foi na chefia do Banco Central, com todo respeito ao genial Henrique Meirelles.
Minhas leituras estão atrasadas, o estudo de Direito também. Os sentimentos, contudo, não atrasam. O coração nunca para de bater. Ultimamente ele tem andando bem tranqüilo e a passos estáveis e equilibrados, com a velocidade de quem não está amando ou de quem vive um amor delicado e monástico por si mesmo.
Ele irá acelerar sem dúvida nenhuma. Essa pausa não é uma pausa melancólica, é um momento de aprendizado, estou adquirindo maturidade e irei usá-la com eficiência quando o momento chegar. O meu coração dança calmamente ao som da bossa-nova que ainda inspira meus dias, também dá solavancos contidos ao som de bons sambas. Ah, e também suspira com os saxofones do jazz.
The world has gone mad today
And good's bad today,
And black's white today,
And day's night today,
And that gent today
You gave a cent today
Once had several chateaux.
(ANYTHING GOES, COLE PORTER)
Estou amando a música? Não, estou cantando ao amor. Não a nenhum amor que eu tenha tido, mas aos amores que virão. Cantando ao rosto ainda sem identidade dessa pessoa que me fita ao longe, o rosto do meu futuro amor. Como ele será?
Não rezo para ele, contudo, canto para ele todos os dias, Deus há de entender isso como uma prece. Como as mocinhas castas de antigamente sonhavam com seus futuros esposos, único homem de suas vidas, eu sonho com ele. Sem identidade, sim, ainda. Será alto, baixo, branco, negro, como será a cor dos seus olhos?
Em um texto antigo, eu falo do meu messias, do meu salvador. Existem sinais que percorreram o tempo e que me permitirão identificá-lo quando a hora inevitável chegar. Mas nenhum desses sinais me permitiriam reconhecê-lo na multidão. O messias é esquivo e etéreo, como uma fumaça de charuto percorrendo a escuridão da noite. Sua presença se fará notar, será visível e palatável, apenas não sei como.
Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes, nos ensina a não ir atrás de cultivar tristezas de amores passados. É justamente isso que estou fazendo, virando a página do passado e observando as folhas em branco que serão escritas. Não faltará nessas páginas nenhum elemento dos dramas gregos e dos melhores romances do período do romantismo, sem perder toda a brasilidade dos pandeiros e sem perder o charme do samba. Será uma bela história de amor e como será!
O que podemos fazer em um sábado a noite? Encontrar pessoas desconhecidas, abusar do álcool, fumar cigarros, transar por pura diversão. Transar por pura diversão? Confesso que poucas coisas podem ser tão instigantes quanto conhecer a intimidade sexual de uma pessoa, se você se viciar nisso pode sair por aí encontrando pessoas novas e descobrindo o que elas guardam de mais íntimo. Nada como vivenciar aventuras sexuais.
Não vivemos nenhum movimento social revolucionário dos hábitos sexuais, todas as transformações sociais que permitiram nossa sexualidade inusitada já acabaram. O sexo não é mais revolucionário e sentimos um vazio imenso por isso. O grande boom da sexualidade começou nos anos sessenta regado a muita música, inspirado em muito rock. O rock agora não é mais nenhuma novidade, ele vive a sua velhice. O sexo livre é praticado por pessoas em todas as camadas sociais, os antigos ideais que movimentaram a luta da contracultura se separaram do sexo livre. A liberdade sexual agora é um fato inegável para a maioria das pessoas e principalmente para os jovens.
Se antes o sexo era um meio de fazer revolução social, agora o sexo está institucionalizado e incentivado fortemente com apelo na imagem. Porém, nenhum sexo de fim de balada se compara ao sexo que fazemos com a pessoa que amamos. Em uma sociedade que apela excessivamente para a imagem, para a virilidade e para o prazer, algo inevitável ocorreu: o amor romântico foi deixado de lado nessas aventuras de virilidade. Perseguimos a beleza enquanto observamos belos mal resolvidos rechearem nossas cabeças com problemas e confusões. Por que são infelizes se a infelicidade, agora, é uma regalia dos feios e dos mal amados? É que a felicidade e o amor têm forte relação com a beleza, mas essa relação quando corretamente vivenciada sempre identificará beleza na pessoa em que amamos.
Carrie Bradshaw de Sex and the City sempre faz uma pergunta nas suas colunas sobre sexo que assina em um jornal. A minha vai ser: já se sentiu, ao final de uma relação sexual, como se tivesse faltado alguma coisa, algo mais importante do que prazer?
A maioria de nós já passou por situações assim e isso nos incomoda muito. Não quero ser Arnaldo Jabor e repetir suas tolices de best-seller, mas concordando com ele, em um texto de sua autoria largamente difundido na internet: ESTAMOS COM FOME DE AMOR. Estamos com fome de ser amados da maneira mais démodé. O que queremos mesmo é comer macarrão como os personagens da animação A dama e o Vagabundo e sermos surpreendidos em um beijo. O que buscamos mesmo é o amor idealizado, romantizado, que se manifesta nas coisas mais simples. E não o sexo perfeito que vendem por aí.
Arnaldo Jabor encerra o seu texto denunciando uma verdade: antes ser idiota para os outros do que infeliz para si mesmo! Evite as tentações artificiais que vendem fartamente por aí. Persiga o amor, tenha ele como o seu farol, como seu guia. Faça do amor a estrela guia que orienta a sua navegação. Se você perseguir o amor, não haverá erro, mesmo perdido no Triângulo das Bermudas.
ARNALDO JABOR. Afinal de contas, o que ele entende de sexo?
“Sinto-me como se tivesse sido expelido de um liquidificador, estraçalhado e batido por todos os lados”, foi o que disse a um amigo no telefone recentemente. Os meus sentimentos viraram uma mistura de raiva, dor, frustração e revolta. Não me lembro de quando me vi pautado por sentimentos tão pouco nobres. “Estou andando com dificuldade, por hora preciso da ajuda de uma bengala, não sei quando poderei atirá-la de lado e caminhar por minhas próprias pernas novamente. Estou dormindo com o auxílio de medicação”, falei ao mesmo amigo instantes depois. Passaria todos esses dias embriagado, anestesiado até essa dor passar, mas alguns remédios que tomo não me permitem esses abusos sem pôr em risco a minha saúde.
Os piores demônios que viviam comigo e que acreditava estarem exorcizados, voltaram à minha companhia, voltaram a ocupar a cabeceira da minha cama. Eles olham para mim com suas faces disformes o tempo inteiro e já não consigo fitar essas aberrações. Não estou em condições de conviver com esses monstros e não tenho crença nenhuma em Deus para rogar em pedido de ajuda.
Uma constante fúria chuvosa despenca sobre mim. Já verti muitas lágrimas junto a essa chuva morna. A saída somática para minhas dores não são lágrimas, a mais singela representação da dor psíquica, mas sim o vômito. “Como a minha tia fizera quando a sua filha morreu, no velório, ela vomitava para todos os lados”. Sinto inveja de não poder somatizar minhas dores com tanta facilidade. Quem sabe a saída para todo sofrimento humano não seja esse, o vômito? Acho que a minha tia tinha muito que dizer a humanidade com seus reboliços estomacais.
Que um romance que começou e acabou com a mesma velocidade tenha provocado em mim sensações tão fortes é um sinal do quanto eu preciso amadurecer. O pior mal do idealizador é que quanto mais alto é o sonho, maior é a queda. A realidade não é tão bela quanto aquilo que imaginamos, idealizamos, sonhamos e construímos, diuturnamente quando estamos apaixonados.
Todas essas angustias acontem porque eu o amo? Disso não tenho certeza. Refazendo meus cálculos, eu descobri que só me apaixonei uma única vez na vida. Esses eventos me fizeram descobrir que o que eu pensava ser o meu segundo amor é na verdade uma invenção causada pela necessidade. Na soma antiga, o D. seria o meu terceiro amor. Contudo, quando releio o meu segundo amor, descubro defeitos gritantes que o jogam na vala comum dos espíritos paupérrimos. O D. é completamente diferente, sua personalidade é uma construção complexa de sentimentos dignos de respeito, ao contrário do outro, ele está no lugar especial dos espíritos luxuosos. Mesmo assim não sei dizer ao certo se o amava ou se ainda o amo. Posso descobrir no futuro que em relação ao meu primeiro amor tudo isso não passou de carinho ou outro afeto menor e menos significativo.
Dolorosamente, vou caminhando esse labirinto de cercas vivas porque sou obrigado a percorrê-lo em busca de uma saída. Se eu não tenho sorte no amor, serei um jogador falido e compulsivo. Mas sempre rolarei meus dados. Sempre estarei pronto e a espera da hora da sorte, chegue ela um dia ou não.
Nada, a não ser uma noite atípica, fria, próxima ao chuvoso, como uma noite de outubro em Teresina jamais deveria ser. “Assemelha-se ao prenúncio de uma passageira tempestade”, pensei várias vezes. Era esse clima absurdo o que me preocupava até chegar em casa e me envolver em um estranho telefonema. Mal podia saber que o céu despencaria e seria sobre a minha cabeça.
Eu lhe liguei como ligava costumeiramente antes de dormir. Mas dessa vez ele não teve a mesma conversa amável de sempre, ao invés disso, começou a falar coisas estranhas que eu nunca tinha ouvido antes. Ele me disse que não tem certeza se me ama, não sabe se deve ficar comigo, ele acha que precisa conhecer o mundo, acha que se envolver comigo seria prematuro porque eu sou a primeira pessoa com quem ele teve tanta proximidade. Que azar o meu, que azar. Se eu fosse a terceira, quarta, ou quinta pessoa, talvez ele agora estivesse comigo e tivesse certeza de que me ama. Mas eu tive o azar de ser o primeiro, como me perdoar, como perdoar o destino?
Sorte no amor ou sorte no jogo? Acho que deveria me mudar para Las Vegas. Lá é meu lugar, entre os jogadores, não nesse mundo, entre os amantes. O amor só tem me causado transtornos, sem nenhum ressentimento, impiedosamente, o amor tem sido para mim como um predador. “O amor adora consumir a minha carne e esbaforido deixar os restos para as hienas e para os abutres”.
Depois do estranho telefonema, decidi ir beber. É o que faço sempre que me sinto chocado, de felicidade ou não. Comecei com algumas cervejas em um bar e terminei com um litro de cachaça em minha casa. Será que eu o amo? Sem dúvida nenhuma, eu o amo. Amo cada pequeno pedaço do corpo dele que eu possuí. Amo cada pequena fragilidade que eu percebi na sua nudez, na sua personalidade. Amo cada defeito que eu conheci e que pretendia aprimorar. “Ele está melhor agora, aprendeu muita coisa comigo e vai treinar seu aprendizado com os amantes que reclama de nunca ter possuído”.
Depois que ele me falou ao telefone tudo aquilo que tinha para me dizer, senti-me arrasado. “Estou arrasado, graças a deus”. Levei as mãos à cabeça compulsivamente, puxando os cabelos para trás, como as pessoas desesperadas fazem. Isso é uma prova que mesmo com o desastre que foram alguns dos meus romances, eu ainda estou preparado para amar, ainda estou preparado para sofrer de amor. Ele, o amor, não me deixou insensível e indiferente. Ele não consumiu a minha inocência.
As nuvens começam a se dissipar e os primeiros raios de sol surgem anunciando o fim da tempestade. O calor volta a abraçar os espectadores que admiram da janela o retorno da esperança. É a volta da vida após o susto.
Abro a janela e o vento, ainda forte, penetra no meu corpo. Ele carrega um pouco do calor do sol. Os traços do céu ainda são pesados, mas existe um prenúncio de alegria. Contagiado pelos anúncios de sol, já sinto o dia claro, azulado e acompanhado de uma orquestra de pássaros. É primavera no meu coração.
O amor não deve ser outra coisa senão uma primavera. O amor é o cuidado com o outro e o cultivo da inocência. Não pode haver amor onde não houver pureza. O amor há de ser nobre, o mais nobre dos sentimentos. O sangue dos amantes deve ser azul, principesco, jovial e corajoso. O amor deve se aproximar de Apolo, com forma muscular bem cultivada e harmônica, além de intelectualmente criativo e poético. A perfeição da mente e do corpo, esse deve ser o retrato mais aproximado do amor. O amor de dois verdadeiros amantes, ao se materializar, deve se materializar como Apolo.
Nos concertos as Quatro Estações de Vivaldi a primavera se apresenta rica em sons, em variações, aflorada e transmissora de vida, ao oposto do verão que a segue grave e imperioso. É convidativa, como deve ser convidativo aos amantes aproveitar a beleza das cores que ganham especial destaque nessa época do ano. As quatro estações estão perfeitamente representadas na obra de Vivaldi. Junto com os poemas que a acompanham, percebemos um cuidado em expressar em sons as sensações despertadas pelas estações. Mais do que uma estação do ano, porém, a primavera, verão, outono e inverno são sentimentos, estados psicológicos, que podem ser perfeitamente internalizados. O que eu internalizo agora é a primavera.
Como em La vie en rose (Edith Piaf) vejo a vida em cor-de-rosa. Como diz a música, “entrou no meu coração um pouco de felicidade e conheço a causa”. É a presença do amor. Ele me trouxe a estrela da manhã, que impera a sua luz mesmo com o fim da noite. Solitária apenas no céu, a estrela da manhã vive a graciosa companhia do meu olhar atento a fitá-la. Somos amantes, e não à distância, o mesmo céu que ela brilha é o céu dos meus sentimentos.
Estou realmente experimentando uma primavera no meu coração? Não sei. Entretanto, nunca vi um anúncio de fim de tempestade como esse. Ao que tudo indica há de se seguir o azul e aguardo impaciente que o azul siga.
Independente de como o tempo vá se comportar, uma coisa posso garantir: sei como o amor deve se representar. Ele virá acompanhado de um concerto de Vivaldi, tingindo o céu com seus matizes coloridos e me transmitindo, antes de tudo, esperança.
Se eu pudesse comparar os meus dias a uma ópera, seria como um ato onde o protagonista, sufocado com seus pensamentos, reflete sozinho sobre os eventos da sua vida, aprisionado em suas próprias desgraças. Pela minha cabeça surgiriam todas as personagens da história, as principais falas, os principais acontecimentos, em uma progressão doentia, fazendo-me cair em um buraco negro, como se o chão faltasse aos meus pés. Aos gritos, eu desabaria ao som da ópera através do vazio escuro da minha consciência enquanto os violinos desesperadamente acompanhariam a minha espiral de loucura.
O que me salva desses dias sufocantes é o som da música. Tenho vivido na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong todos os amores que deixei de viver. A música me desloca dos meus desesperos e abre para mim a porta dos amores, sonhos e sentimentos alheios. Um momento em que saio de mim e alcanço o universo dos outros. Um novo amor para cada composição, “dream a little dream of me”. Posso beijar o meu amor e lhe dizer coisas doces por quantas horas quiser, podemos dançar lentamente ao compasso da melodia de um jazz sensacional. Mesmo que esse amor não exista, mesmo que ele tenha me abandonado.
“Doces sonhos até os raios de sol te encontrar/ doces sonhos que deixam todas as preocupações para trás/ mas em seus sonhos quaisquer que eles sejam/ sonhe um pequeno sonho comigo”. “Sweet dreams till sunbeams find you/ Sweet dreams that leave all worries far behind you/ But in your dreams, whatever they be/ Dream a little dream of me”.
Nem a sombra mais vertical e febril dos meus amores mal resolvidos poderá vencer a alegria regozijante dos amores que virão. Mesmo com todo o desamor, mesmo com todo o descaso, mesmo com o desprezo, essa sombra ultrapassada não projetará sua força sobre os meus sonhos e meu futuro. Nenhuma vez essa sombra agrediu a minha inocência: vou amar sempre sem nenhum cuidado e com toda as minhas forças. A minha vida ainda será como uma bela música de jazz, para belos e felizes amantes. E cada vez mais ela se distanciará de uma ópera dramática. Será um ato com dois personagens, dançando nas nuvens a imensidão da paixão e dojazz.
Antes de limpar a cozinha do apartamento e lavar o a louça (tarefas domésticas de domingo) assisti dois episódios do seriado Sex and the City. Foi quando tive a idéia de escrever a minha primeira postagem sobre sexo. É um tema que abordei apenas superficialmente no blog,ao contrário da protagonista da série que escreve exclusivamente sobre sexo em uma coluna de jornal. Vestirei a pele de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) por pelo menos uma postagem.
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Para ter uma boa noite de sexo não é preciso ter um corpo perfeito. Quando duas pessoas estão nuas não estão se exibindo como se fossem modelos da Vogue ou de uma revista erótica. É normal sentir vergonha de sua nudez, e a televisão, os filmes, acostumaram a nossa geração ao exibicionismo. A vergonha, a timidez, é o que nos aproxima de verdade dos nossos parceiros sexuais, são esses sentimentos que os convidam a experimentar nossas fraquezas e confiança. Como comparar a nudez envergonhada do quadro “Puberdade” de Munch com a nudez fashionista de Madona? Longe de afirmar que a beleza não deva ser vivenciada (ou mesmo que não exista beleza no mundo fashion e do cinema), o que tento é chamar a atenção dos jovens que estão agindo precipitadamente fazendo o possível para simular esses universos. A união sexual é um ato de amor, de troca mútua e de fragilidade, e não somente de prazer.
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Eu tive um interessante número de parceiros sexuais e nunca me envolvi em um relacionamento sério e estável que durasse por mais de um ano. Não que eu seja autosuficiente, simplesmente as pessoas certas que apareceram não quiseram ficar comigo. Encontrei todos os defeitos possíveis em cada affair pelo qual passei, meus casos revelam o mesmo universo de dificuldades sentimentais que passamos a coligar no mundo de hoje. Mas não tenho problema em assumir: eu tenho, sim, medo de relacionamentos.
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Os jovens estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, alguns falam que vivemos a "ditadura do sexo", se antes era proibido e evitado, agora é obrigatório e precisa ser feito. Disseram-me que a Susan Boyle tinha o charme do "sexo-zero", daquelas pessoas que vivem enclausuradas sem companhia sexual com desejos reprimidos. Agora o pior pesadelo dos amantes é a solidão dos feios, dos mal amados, enquanto se tornam belos fascinados por falsidades e tão mal amados quanto.
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Em todos os artigos a Carrie Bradshaw faz uma pergunta. A minha não pode faltar: "será que o que precisamos fazer, sexualmente, é assumir que sentimos vergonha?".
Ao chegar ao apartamento percebi que no primeiro andar, logo a frente, havia uma festa muito movimentada ao som de rock and roll. Tocavam músicas do rock mais recente. Os risos, as conversas e o movimento inteiro da festa, fizeram-me lembrar da tentação de sempre que é abandonar os estudos e viver de farras. Tentado por essa idéia e pela falta de cigarros, decidi ir até um boteco no bairro ao lado do condomínio para comprar um maço e algumas cervejas para trazer para casa.
Enfrentei a chuva até lá com um guarda-chuva. O boteco estava com baixo movimento, todo na parte interna, sem as mesas da rua que são de costume. Não havia nenhuma mulher, somente alguns rapazes bebendo cerveja e jogando sinuca. Um era especialmente belo e realmente foi capaz de chamar minha atenção, observei-o desde que entrei. Sorriso carismático e aquele formato de cabeça característico de todos os rapazes belos., que forma uma meia lua em cima da nuca. Era o único branco.
Ao ver o dono do boteco perguntei quais cigarros ele tinha para vender, disse-me que tinha “carlton” e “hollywood”, além de algumas marcas que nunca fumo pela procedência duvidosa e péssimo gosto. Pedi uma carteira de “carlton” e perguntei sobre cerveja em lata ou longneck. Ele respondeu que não vendia nenhuma das duas, restando para mim a única alternativa de beber no bar. Aproveitei o fato para observar o comportamento dos rapazes que bebiam.
Sentei de pernas cruzadas, sem camisa, com o guarda-chuva ao lado da mesa. Na televisão passava um filme e pude reconhecer Halle Barry e Heath Ledger, e em poucos segundos mais, reconheci o filme, tratava-se de a “A Última Ceia”. Então perguntei ao rapaz mais belo da turma “nesse filme tem um condenado à morte?”. Ele respondeu que não sabia, o que para mim pouco importou, só queria que me dirigisse a palavra.
Ao longo da cerveja e dos cigarros que fumei, os rapazes comentavam sobre o filme, respondendo com expressões faciais e urros conforme as cenas fortes (como a de execução do condenado a morte) aconteciam. Percebi nesse instante, ao vê-los descontraídos, ocupados com as cervejas e suas conversas divertidas, o quanto a felicidade da vida está mesmo em momentos como esse, que são fáceis para eles de conseguir, bastam ir àquele bar e beber cervejas e conversar. Eu estava ali não como convidado, mas como espectador forasteiro, tentava compreender toda a beleza poética daqueles meninos envolvidos com jogos e descontração. Eu voltava da universidade do curso que nunca quis fazer, preocupado com a atividade financeira do estado, ou outra burocracia insuportável, enquanto aqueles rapazes voltavam de algum trabalho ou de uma escola pública. “O meu curso é uma morte, é uma morte lenta. Não chegarei a lugar nenhum”, pensei várias vezes. “Tenho agora com este diário poucos minutos de construção da minha personalidade, quando decidi escrever sobre o que vi e participei neste dia, decidi salvar a mim do comum a que me condenei. Como seria bom caso meus estudos contribuíssem para minha visão de mundo!”.
Tentava não observar seguidamente o rapaz bonito de que falei. Poderia pensar alguma coisa de mim ou estranhar que lhe olhasse, memorizei uma ou outra das expressões que achava que tinha de mais belo. Queria que falassem, queria que todos eles falassem e vivessem, que se divertissem. Eu tinha ali no corpo magro daqueles meninos morenos, com os contornos dos músculos esguios e ágeis, a poesia que perdi. Eles jogavam sinuca e se movimentavam provocando muita admiração em mim.
"Eu teria sido um aluno brilhante de filosofia, sociologia ou qualquer outro curso em que as exigências fossem as de um aluno com incomum capacidade crítica e destreza em se mover em meio aos campos teóricos de uma ciência. Sou forçado a ver com inveja as pessoas que tiveram a oportunidade que eu não tive ou a coragem que não assumi. Como o Eduardo que abandonou seu curso de direito na UESPI para apostar nas próprias escolhas, porque confiava em sua capacidade."
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"Isso é um desabafo. Não é necessário que você leia esta carta até o fim. Eu já abandonei as formalidades que textos dessa natureza exigem, quero falar com emoção, pois é o que sinto agora, angústia. Serei tão direto quanto O Apanhador no Campo de Centeio"
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"O curso de direito foi feito para qualquer aluno que tenha capacidade de recordar por meio de exaustivo estudo o que é textualmente exposto pelas leis. Existe em minha sala exemplos de alunos com essa capacidade, proveniente, como já pude perceber, da ambição profissional e da identidade com o curso. Eu não tenho identidade com o curso e não sinto nenhuma ambição profissional, o que me coloca em situação de larga desvantagem".
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"Eu deveria ter com o direito ao menos a esperança de atingir autonomia financeira, pois se ele não é um fim em si mesmo, poderia ser um meio para algo. Acontece que por detrás da realidade que ele significa, mora morto o único sonho que tive nesta vida: o de ser um intelectual."
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"Sou obrigado a continuar com o curso porque não me resta outra alternativa. Na minha idade não ter autonomia financeira começa a ser algo muito irritante. Sinto como se ele fosse uma armadilha a que terminei caindo. Não refiz a matricula de filosofia na federal, era impossível estudar para os dois ao mesmo tempo e as minhas notas no curso de direito diminuíam. Negam-se a me sustentar nesta cidade para estudar exclusivamente filosofia. Sou péssimo estudante de direito. Há algum lugar onde o patinho feio seja cisne? Estou deslocado."
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"Será que eu consigo dinheiro com essa droga?"
"O Direito Penal é uma forma de manter viva a consciência de dinossauros ocupados em fazer o que mais detesto na vida: falso-moralismo."
"Nunca foi ciência, parece-me técnica, ou mesmo puro know-how, mero conhecimento procedimental, savoir-faire."