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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Discussão em torno do “kit-gay”, oportunidade para debater a homossexualidade nas escolas.


O "kit-gay" teria sido idealizado para exibição de vídeos 
nas escolas públicas, incluindo alunos em idade infantil.

Em uma manobra ousada, o candidato à prefeitura de São Paulo José Serra (PSDB) decidiu ressuscitar o “kit-gay” produzido pelo Ministério da Educação para ser exibido nas escolas públicas do país durante a chefia do Ministério pelo candidato Fernando Haddad (PT), seu rival nas urnas. O objetivo de Serra seria conquistar, apontam alguns, votos do eleitorado conservador, em especial, os evangélicos.

O que Serra fez relembra o evento “aborto” ocorrido nas últimas eleições presidenciais. A legalização do aborto foi usada contra o PT e contra a Dilma Rousseff (PT) no que resultou em um tiro pela culatra após o surgimento de acusações de abortamento pela própria mulher de Serra e pela rejeição do eleitorado em tornar a eleição um debate religioso. Agindo como quem não aprende com os próprios erros, Serra se enganou mais uma vez e pagará caro nas eleições ao tentar trazer o conservadorismo e a religião para o centro do debate.

Montagem anônima feita nas 
eleições presidenciais:  rejeição ao apelo 
religioso e conservador de Serra 
com o tema aborto.
Desde que foi divulgado pela imprensa e na internet o “kit-gay” tem provocado acalorados debates. Para alguns, os vídeos fazem proselitismo da orientação sexual homo e bissexual. Após a manifestação de vários setores sociais, a própria presidente Dilma Rousseff se manifestou contra o kit abortando o programa do Ministério da Educação justamente sob a alegação de proselitismo. A suposta intenção do Ministério de exibir o vídeo também às crianças elevou a revolta dos rivais do kit e transformou Fernando Haddad em inimigo público número um dos conservadores e religiosos (a exemplo, Silas Malafaia).

Os vídeos do malfadado “kit”, caso isso tenha sido de fato considerado pelo Ministério da Educação, em hipótese alguma deveria ser exibido no ensino fundamental uma vez que as crianças desconhecem suas preferências sexuais e não podem se identificar com segurança em um grupo de orientação sexual possível (heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade). Além de que as famílias nessa faixa etária detém sobre a educação da criança primazia em relação ao Estado e à escola. A educação das crianças depende inegavelmente da vontade e das escolhas dos pais, livres para determinar a educação dos filhos. 

O conteúdo dos vídeos faz inegável defesa da homoafetividade (aqui link para os vídeos). Essa defesa da homoafetividade, por exemplo, é feita em um dos vídeos demonstrando como vantajoso para um rapaz a sua bissexualidade. Teria o rapaz o “dobro de chances” de encontrar um parceiro (a) ideal. O vídeo se assemelha à verdadeira propaganda e pode incentivar práticas homossexuais por jovens que não têm essa orientação sexual. Esses vídeos são claros exageros de associações GLBT que não representam a opinião de todo o segmento social e que, avançadas demais nos costumes, esquecem o direto dos outros de escolher os seus costumes também.

Contudo, não nos enganemos. O debate nas escolas da homoafetividade é fundamental. Principalmente para os adolescentes uma vez que estes já possuem a orientação sexual definida e já percebem a presença ou ausência de desejos homossexuais a configurar essa possível orientação da sexualidade. De acordo com dados da UNESCO em 2001*, mais da metade dos jovens do sexo masculino nas capitais do país iniciaram sua vida sexual por volta dos 14 anos de idade e as meninas por volta dos 15 anos. Ou seja, em torno dessa faixa etária, espera-se que o adolescente já tenha iniciado sua vida sexual e definido a sua orientação sexual, estando preparado para a educação quanto à sexualidade, onde inclui a diversidade de orientação sexual e a discriminação sexual.
Namorar sem a orientação dos pais e dos professores pode ser 
perigoso para o adolescente.

De acordo com a Constituição Federal, legislar sobre educação é competência concorrente da União, Estados e Distrito Federal (Art. 24, IX, CF). Aos Municípios é dada a responsabilidade de em cooperação técnica com os demais entes efetivar a educação infantil e de ensino fundamental (Art. 30, VI e 211, §2º, CF) e aos estados a prioridade no ensino fundamental e médio (Art. 211, §3º, CF).  Determina também a Constituição Federal de forma ampla a responsabilidade do Estado pela Educação (Art. 205, CF) e a competência administrativa comum nesta matéria (Art. 23, V, CF).

Independente de qual ente político se trate, todos têm a obrigação de fornecer o serviço público de educação e consequentemente todos devem adotar de forma integrada ou de forma autônoma, normatização e programas que apontem as diretrizes na educação sexual dos jovens (onde a homoafetividade está inserida). Os riscos que demonstram a necessidade da educação sexual são por todos conhecidos e apontam para a generalidade dos jovens, independente de orientação sexual: gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, prostituição, promiscuidade, violência sexual, agressividade, depressão, vergonha, etc.

"Então eu saia de sala, eu ficava dando
voltas no corredor, eu ficava no banheiro trancado ou 
bebia água. Ou eu ia para casa mais cedo ou eu dizia
para a minha mãe que não tinha tido a última aula.
Porque, pra mim, a solução que eu achava que fosse
seria evitar, fingir que nada estava acontecendo."***
Relato de jovem gay vítima de discriminação escolar.
Sabe-se que os jovens homossexuais e bissexuais são mais sujeitos à violência, ao abuso de drogas, ao abandono familiar, à evasão escolar, à depressão, ao suicídio e à contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. Supõe-se 10 mil a 12 mil casos de discriminação por ano registrados no país**. 

A escola não deve adotar posturas de incentivo a determinada orientação sexual, mas tem a obrigação de educar os jovens homossexuais ou bissexuais da mesma maneira como faz com os jovens heterossexuais. Tratar a homoafetividade como tabu só compromete ainda mais a segurança dos alunos de sexualidade diferenciada e pode resultar no fracasso da escola em atingir um resultado satisfatório na educação desse segmento de jovens.

O Art. 227, CF****, é claro em determinar a responsabilidade do Estado, da família e de todos em promover  aos adolescentes o direito à vida, liberdade, saúde, dignidade e respeito, protegendo-os contra a discriminação, violência, negligência, exploração, opressão.

Assim, cabe ao Ministério da Educação, às Secretarias Estaduais e Municipais de Educação determinar (sem usurpar a mesma obrigação de todos os poderes, órgãos do Estado, da escola em si e dos educadores) o caminho a ser seguido para a inserção dos jovens de orientação sexual diferenciada, como um segmento prioritário dentre os demais devido às fragilidades típicas da idade acentuadas pela descoberta de uma orientação sexual diferente do grupo majoritário e passível de forte discriminação social. Sem, contudo, cair em exageros mal vindos de proselitismo e de incentivo à sexualidade precoce.


*CASTRO, Mary Garcia. Juventude e sexualidade. Brasília: UNESCO. 2005
***GOIS, João Bosco Hora; SOLIVA, Tiago Bacelos. A Violência contra gays em ambiente escolar. 2011. Disponível em <http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/13899/7592>  Acesso em: 19 de outubro de 2012.
****Art. 227, CF. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

BRASIL, O PAÍS DO FUTURO

Tudo indica que o crescimento econômico brasileiro
se tornou estável.



Nesta semana o Ministro da Fazenda Guido Mantega anunciou que o Brasil será em 2015 a 5ª maior economia do mundo. Este ano o país alcançou a 6ª posição após ultrapassar os ingleses.

O crescimento brasileiro acompanha o movimento global de desenvolvimento econômico que alguns emergentes conseguiram alcançar, são eles Brasil, China, Índia e Rússia. 

Podemos nos perguntar por que outros emergentes, como Argentina, não integram esse grupo ou não ostentam, ao menos, resultados semelhantes O certo é que, na America do Sul, por exemplo, não foram todos os estados que experimentaram o ajuste básico das suas finanças, da sua economia e da política, levado a sucesso por aqui. Nosso crescimento ainda é insuficiente para distribuir renda na velocidade que a população pobre necessita, mas os últimos 20 anos de governo são capazes de nos separar da tragédia maior que seria não ocupar, em perfeitas condições, a posição adequada na economia global.

A nossa possibilidade real é crescer entorno de 4% ao ano durante 10 a 20 anos. Isso significa impactar de maneira sensível a vida de cada cidadão em um espaço curto de tempo. Em séculos, talvez seja a geração que mais perceba a evolução da sua renda e da sua qualidade de vida, dia-a-dia.

Em 2010 o PIB cresceu 7,5%. Maior índice em 25 anos.
Entre 2003 e 2010 a média foi de 4%.
Estima-se 4% a 5% em 2012.

O crescimento econômico durante o período FHC foi menor do que o crescimento experimentado durante o governo Lula. Isso não significa que o círculo de crescimento tenha começado somente aí. Depois da redemocratização do país, o governo FHC foi o primeiro a conseguir com sucesso superar os maiores desafios de então: a inflação e a instabilidade política. É o nascimento do cenário que encontramos hoje. As dificuldades experimentadas com a primeira marcha do Plano Real, as crises econômicas constantes e a crise enérgica pesam ainda mais contra o governo tucano.

Atingido o ponto atual, com a manutenção de uma política econômica sóbria, que não jogou fora o potencial de crescimento brasileiro sufocado durante décadas por uma inflação ilusória, o próximo alvo deve ser aprimorar os acertos e enfrentar outros fatores que sufocam o crescimento, como a infra-estrutura, a corrupção, o sistema tributário, a baixa qualificação profissional, escassez de crédito e juros altos. 

Com menos de 10% da população economicamente ativa com diploma universitário, índice inferior a China, Índia e Rússia, o país demonstra que nossas fragilidades são bem maiores que os cuidados básicos com a economia. A questão tributária também demonstra gravidade, em 2011, de cada R$ 100 ganhos o brasileiro deixou R$ 36 nas mãos do estado e o pior: são impostos arrecadados onerando basicamente a produção.

Todos esperam, alguns com mais pressa e necessidade, a manutenção da estabilidade econômica nas próximas décadas. Contudo, ansiamos ainda mais por ver cair por terra os outros monstros que impedem o país do futuro de se tornar realidade. Os projetos dos próximos governos devem se ater às questões economicas até então superadas, mas o potencial brasileiro, escondido por debaixo de véus ainda mais espessos e dificultosos, só será atingindo vencendo inimigos ainda mais difíceis.  

Ainda em 2009, The Economist já anunciava o sucesso
econômico do Brasil.

domingo, 27 de novembro de 2011

Empobrecimento cultural. Culpa de quem?

 
Em Tempos Idos, Cartola canta o auge do samba.
O gênero está cada dia menos presente no subúrbio do Rio.
 O que está acontecendo com a cultura, cinema, teatro, televisão e música, escondem cúmplices tão culpados quantos os diretamente responsáveis pela produção de baixa qualidade que assolou a arte. Esses cúmplices são os intelectuais e os artistas que produzem com qualidade e que não enfrentaram ainda a responsabilidade pelos resultados gerais da cultura.

Especificamente sobre o Brasil, a situação é crítica. Atualmente jovens de elevada formação educacional, de nível superior às vezes, desconhecem o que caracteriza a qualidade artística mínima. Como eles conseguem se tornar profissionais de alto desempenho em áreas complexas da ciência enquanto consomem uma cultura característica de uma educação fragilizada? Isso desafia a lógica. Os jovens brasileiros que atingem alto rendimento nas universidades atingiriam resultados ainda melhores se fossem capazes de identificar a arte de qualidade.
Por que excelentes alunos não identificam boa música?
A complexidade técnica não acompanha o refinamento
do espírito.

Em parte, a culpa disso é o que acontece extramuros. Após as aulas o mundo do estudante volta a ser o mesmo. A televisão continua com a mesma programação de sempre, a rádio e a internet também. As conversas dos estudantes vão girar entorno do que está comumente disposto nesses meios e a escola não pode controlar o que acontece do lado de fora. A cultura do adolescente de classe média está repleta de livros, música, cinema e até teatro. O problema é que tudo isso superficial e ruim.

A televisão, uma das maiores vilãs, acusa o público pela baixa qualidade artística da programação. Para ela a programação é ruim porque o grande público não adere a produções mais sofisticas. Em busca de se financiar, a televisão atende ao público. Afinal, posso culpar as pessoas por não exigirem uma cultura que não têm?

A restrição à liberdade ou mesmo a conduta autocrática de dizer ao outro o que fazer da sua vida, é evitada pelos intelectuais que dominam a opinião, conseqüência decorrente da sua formação liberal. Afinal, a arte moderna nasceu rompendo paradigmas e superando críticos e valores. Assim, os intelectuais e os bons artistas celebraram com a arte ruim um pacto de mútua convivência.  Com esse mantra, eles se esbaldam nos bolsões de boa cultura e se sentem irresponsáveis pelo que as pessoas fazem com a tão cara liberdade artística e de consciência.
Há poucas décadas, a música popular brasileira
liderava a venda de vinis.
        
         Ledo engano. Os bárbaros um dia gritarão tão alto que penetrarão a mais dura das bolhas. Apagada da cultura de massas, a arte de qualidade sobrevive na memória dos grandes artistas e no culto dos intelectuais. Trata-se agora de expandir esses bolsões e convidar o grande público à mesa. Objetivo este só atingível com a flexão do verbo mais antigo em material de responsabilidade social: engajar. Só existe uma política de convivência possível com a arte ruim: tolerância zero.
               
         

domingo, 26 de junho de 2011

O 80º aniversário de Fernando Henrique Cardoso

FHC: 80 anos de pura história.

 
            Fernando Henrique Cardoso comemorou o seu 80º aniversário no dia 18 de junho. Símbolo da única oposição possível ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, FHC não recebeu nenhum telefonema, nem carta, nem manifestação pública por parte do rival. Os jornais destacaram, contudo, a carta escrita pela presidente Dilma Rousseff. Na carta elogiosa, ela atribui a FHC a estabilização da economia.
            Pela repercussão da imprensa à carta da presidente, tem-se a impressão de que o PT finalmente teve a coragem de assumir o legado deixado pelo governo de FHC ao invés de disseminar a ideologia de “herança maldita”, estratégia estapafúrdia que garantiu ao partido três vitórias seguidas nas eleições presidenciais.
            Entretanto, o singelo gesto presidencial não tem a força de redimir tantos anos propagadores dessas idéias de injustiça. Nem tampouco demonstra um sinal de mudança no comportamento petista. É na verdade um breve afago ainda fortemente marcado pela vergonha. Pela altura do orgulho petista, pode-se compreender como um gesto vitorioso para alguém dotado de um ego tão acentuado.
Depois do caos inflacionário, uma moeda capaz
de agregar valor a uma unidade.
            Independente do reconhecimento petista o importante é o reconhecimento que será dado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por intermédio da história. Mesmo com o débil esquerdismo que ainda domina as universidades brasileiras, não se cogita a hipótese de um atentado à memória dos fatos naquilo que eles evidenciam de mais notório. É que FHC deu o pontapé inicial, lançou a pedra fundamental do equilíbrio econômico e democrático. Nem as tão celebradas conquistas sociais do governo Lula seriam possíveis caso Lula tivesse que enfrentar o caos econômico-financeiro que o governo FHC enfrentou e foi capaz de afugentar. Ao invés de desafiar Lula para disputar uma nova eleição ou mesmo a um debate no seu instituto, como já fez anteriormente, Fernando Henrique Cardoso deveria desafiá-lo a suceder Itamar Franco nas condições em que ele sucedeu e ter conseguido os resultados que o seu governo conseguiu. Em suma: deveria desafiar Lula a ser FHC.
          Por ocasião do 80º aniversário, foi organizado um especial com oitenta depoimentos de personalidades da política, da economia, do jornalismo e das artes sobre FHC. Personalidades como George Soros, Bill Clinton, Fernando Gabeira, Kofi Annan, Mario Sabino, Pedro Malan, Miguel Reale Jr., Roberto Civita e Vargas Llosa deram o seu sincero depoimento sobre o ex-presidente.
Alain Touraine: o gênio francês é capaz de dar a
FHC o seu devido papel.
          Não obstante, é no depoimento do sociólogo francês Alain Touraine que me alongarei. Nas suas exatas palavras: “Fernando Henrique Cardoso, que vencera a trupe numerosa dos radicais da dependência, que levou a cabo com sucesso uma reforma monetária indispensável e garantiu a continuidade das instituições, criou verdadeiramente o novo Brasil no qual Lula fez entrar dezenas de milhões de brasileiros e onde Dilma age no sentido de diminuir as desigualdades. Desde Fernando Henrique Cardoso, o Brasil é o único país que se modernizou ao mesmo tempo política, cultural e economicamente. É nesta escala que se deve medir a obra daquele que, por seu pensamento pessoal, e dando ao seu país uma estabilidade institucional nunca antes conhecida, fez do Brasil um dos Grandes”.      
            O petismo não tem responsabilidade alguma com a história. Sua ocupação é o sustentáculo falacioso que atribui a Lula — o homem do povo — a salvação deste mesmo povo. Este é o final feliz do conto de fadas petista a que o partido e sua massa de militantes idólatras jamais conseguirão riscar de suas mentes, nem que seja a custa do assassínio dos fatos.
Lula e FHC.
O sociológo e o sapo.
            Porém, a sociedade brasileira é mais forte do que a ideologia e idolatria petistas criadas em torno de falácias sobre a história pessoal de Lula, as realizações do seu governo e o passado recente do Brasil. Essa máquina "ideologizante" — movida para perpetuar-se no poder — irá ranger e desmoronar na primeira eleição presidencial perdida. De tudo isso não restará pedra sobre pedra.
            A disposição histórica dos papéis de FHC e LULA para as conquistas recentes do Brasil não será feita neste mesmo cenário de disputa política e ideológica entre o PSDB e o PT. A história será escrita em um ambiente afastado dessas celeumas e livre de todo o partidarismo. Homens como Getúlio Vargas e Juscelino Kubstchek foram grandes o suficiente para afundar o Brasil nessa mesma disputa sentimental e de toda a paixão envolvida restam apenas linhas escritas no papel. Este será o destino de Fernando Henrique Cardoso: ser redimido pela história. 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Escola Tasso da Silveira: Massacre no Realengo.

MATEUS MORAES, ESTUDANTE DA
7ª SÉRIE DO COLÉGIO TASSO DA SILVEIRA
Pela primeira vez em mais de dois anos de blog estou publicando um texto que não é de minha autoria. Trata-se do depoimento de Mateus Moraes dado à Folha de S. Paulo. Mateus é estudante da 7ª série e vivenciou o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira no Rio de Janeiro, Bairro do Realengo. Nenhum texto escrito por mim seria capaz de se aproximar da mensagem que este texto transmite. A única coisa que podemos fazer é dividir a dor dessas famílias o máximo que pudermos. 
         

            "Já tive alguns pesadelos na vida, mas nenhum se compara com o que vi hoje. A aula de português estava começando quando ouvimos um tiro dentro da escola.
 
            Naquele momento, todos entraram em pânico. A professora deixou a sala para ver o que acontecia e não deu para entender mais nada.
            
            Só ouvíamos o barulho dos tiros cada vez mais alto. Foi uma correria. Todos gritavam e tentavam se esconder embaixo das mesas. 
            
          Logo em seguida, um rapaz de camisa verde e calça preta com um revólver em cada mão entrou na sala. Não tive muita reação. A única coisa que fiz foi levantar da minha cadeira, que fica na primeira fileira da sala. 
Adolescente presta homenagem acendando velas
no muro da escola Tasso da Silveira. O respeito que o assassino
mostrou não ter na vida humana deve ser mil vezes reafirmado por cada um de nós.
          
         Ele ficou menos de meio metro de distância da minha mesa e começou a atirar. Foi uma covardia. Ele chegava perto dos meus amigos que estavam no chão, demorava um pouco e dava tiro na cabeça, no tórax. 
        Vi pelo menos uns sete amigos morrerem. Não sei como não morri. Fiquei o tempo inteiro em pé e orando. Cada vez que ele parava de atirar para recarregar as armas, ele gritava que não ia me matar. O rapaz berrava: "Fica tranquilo, gordinho. Já disse que não vou te matar". Ele falava isso, carregava o revólver e ia pra cima dos outros. 
        
         Teve uma hora que ele deixou a sala e continuou atirando do lado de fora.
     
         Minutos depois, o barulho acabou. Vi vários colegas feridos, outros mortos, muito sangue nas paredes da sala. Não sabia o que fazer nem como estava vivo. Foi Deus que me ajudou. 
         
         Logo em seguida, um policial deu um grito. Ele berrava para os alunos que estivessem vivos deixarem a escola. Saí correndo. Só fui parar lá em casa. Deixei até o material para trás. Chorei o dia inteiro, mas estou calmo agora. 
        
         Não vou ter mais coragem de estudar nessa escola. As lembranças são muito fortes".

domingo, 20 de março de 2011

OS NOVOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (Obama no Brasil)


OBAMA na Cidade de Deus  (City of  God)
                 Uma diferença de fácil percepção em relação às visitas diplomáticas do Presidente norte-americano Barack Obama em relação às do seu predecessor George W. Bush é a maneira como a população dos países visitados recebe o novo Presidente. No Brasil o Presidente foi muito bem recebido apesar de pequenos protestos como o organizado pelo PSTU — com direito a ato “pseudo-terrorista” de um dos manifestantes que lançou um coquetel molotov no consulado norte-americano no Rio. Na Cidade de Deus, por exemplo, crianças impressionaram Obama com demonstrações de capoeira. Com seu português improvisado foi aplaudido várias vezes no discurso do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
              
                 Essa alteração da percepção da população mundial sobre os Estados Unidos será um dos maiores legados de Obama para o seu país. Os EUA sofreram décadas de fortes críticas  através de um pensamento antiamericano que de tão intenso já vinha gerando animosidade contra os próprios cidadãos do país, muitas vezes inocentes. Na América do Sul esse pensamento geralmente precipitado e infantil foi incentivado pelo que a intelligentsia cuidou de chamar de “perfeito idiota latino-americano”, expressão atribuída a Vargas Llosa vencedor do Nobel de Literatura e ex-presidente peruano. A perfeito-idiotice-latino-americana tem exponenciais em todos os países, mas é atualmente liderada pelos presidentes Hugo Chávez e Evo Morales (Venezuela e Bolívia) antigos correligionários do governo Lula.   
                
                 O mundo mudou a percepção sobre os EUA não somente porque Obama é negro e tem uma ideologia mais sintonizada com os movimentos que dominaram a produção intelectual em todos os países (movimentos ecológicos, antiglobalização, pacifistas, pró-países pobres, etc.), mas porque Obama de fato implementou uma política externa que recepcionou as críticas que o governo norte-americano sofreu. Não que Obama pratique o bem por pura convicção, mas porque os EUA perceberam que não podem mais impor ao mundo sem diálogo e cooperação — até mesmo convencimento — as suas vontades. Os EUA optam agora pelo diálogo porque o unilateralismo falhou.  
   
             Essa mudança se deu não somente devido à despolarização do poder nas relações internacionais que minou a capacidade norte-america de se impor ao mundo e o custo da política unilateral ao contribuinte (guerras caras), mas porque o país finalmente descobriu que a verdadeira liderança não é aquela que impõe sua vontade por meio da força, mas sim aquela que impõe a sua vontade por meio do convencimento. O verdadeiro líder é aquele que convence que está correto, porque liderados nessa condição são aqueles que verdadeiramente agem conforme a sua vontade. É interessante que o país que academicamente desenvolveu a mais complexa teoria contemporânea do poder tenha só agora percebido essa realidade incontestável.
               

Obama discursando para convidados
no Theatro Municipal no Rio de Janeiro

O discurso no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, marcado por uma simpatia exemplar e muito carisma,  confirma as minhas teses. Um líder carismático é justamente aquilo que os EUA precisam nessa nova política internacional. O Presidente norte-americano idealizado por Obama é também, de certa maneira, escolhido por todos os cidadãos do mundo e festejado também por eles. Obama afirmou “quero falar diretamente ao povo brasileiro, compartilhar idéias, valores e esperanças que temos em comum”.
                 
Fernando Henrique Cardoso em entrevista concedida recentemente à Folha de São Paulo disse “não dá para ser mais aquele isolacionismo imperial, do ‘eu quero’ e acontece”, mais na frente, na mesma entrevista continuou “os EUA não têm mais como impor nada para o mundo”. Certíssimas as afirmações do ex-presidente.  Agora é saber como o Brasil irá travar suas relações com essa nova potência, cada vez mais adepta do diálogo e do convencimento.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Pequenas notas sobre o vestido da posse

Decente taier branco, quase transparente, com relevo acentuado.
                    A capa da Veja desta semana (02/01) trás a presidente Dilma Rousseff desfilando um vestido branco com a faixa presidencial verde e amarela nos ombros. A escolhida para desenhar o vestido da posse foi a gaúcha Luisa Stadtlander que veste os Rousseff há alguns anos e que também desenhou o vestido de casamento da filha da presidente. Escolha feita ao gosto da presidente que não abandonou as preferências da família mesmo na hora de escolher o vestido mais importante da sua vida. Esperemos para ver se no futuro a presidente também terá personalidade na hora de optar novamente entre o velho e o novo. Na história da política nacional, Lula e ela foram os políticos a terem a personalidade e aparência mais maquiadas. 
                    Em uma mulher, elegância e estilo são atributos que não podem faltar, escolhas políticas importantes da presidente serão os seus vestidos e o penteado. Dilma não precisa se apresentar impecável, em uma mulher até as gafes podem ter estilo. O vestido da posse, por exemplo, a engordou razoavelmente, mas demonstrou uma Dilma humana. E convenhamos, pelo menos a presidente decidiu que um vestido vermelho seria overdose de petismo justo no primeiro dia de trabalho. Branco é melhor. É sinal de esperança.

Para sair bem nas futuras capas de Veja, a presidente terá que fazer
um bom governo e escolher apropriadamente os vestidos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

DEPOIS DO RESULTADO FINAL (eleições presidenciais)

Como já se esperava, Dilma Rousseff foi eleita a primeira presidenta do Brasil. Não comentarei aqui as conseqüências de ter uma mulher na chefia do executivo porque no momento histórico em que vivemos isso é mais do que natural. Era um dia que haveria de chegar. Já há alguns anos as mulheres venceram todas as adversidades que as separavam da política. Fica a Dilma como uma alegoria apenas.

O que temos pela frente é a nítida possibilidade da candidata eleita realizar um governo melhor que o do seu predecessor se internacionalmente encontrarmos as mesmas características favoráveis que o governo Lula encontrou. E caso ocorram turbulências fora do Brasil, não é de se esperar que o país reaja com a mesma fragilidade que reagia no governo FHC e nos governos anteriores a ele.  É preciso algo muito mais grave para complicar o país. A crise econômica  mundial trouxe para Lula o ano de menor crescimento econômico de seus oito anos de mandato, mas sem desestabilizar o Brasil. Crises semelhantes ou mais localizadas ainda, em países emergentes como se assistia antes, não deverão causar abalos maiores do que a crise gerada pelos subprimes americanos.

O processo de desenvolvimento pelo qual passamos não foi de oito anos de governo Lula por mais que o PT insista em apostar no fato dos brasileiros terem pouca memória. O processo pelo qual passamos é de dezesseis anos, ou mais tempo ainda, abarcando as conquistas do governo FHC e até conquistas mais antigas em governos anteriores. O PT pretendeu comparar o governo Lula ao governo FHC com a frieza de números que analisados sem nenhum critério maior só servem para endossar o discurso “nunca antes na história deste paiz”. Os governos FHC e LULA enfrentaram dificuldades e momentos distintos para que a análise dos dois seja feita com medidas mecânicas dignas das ciências naturais e não das ciências sociais. O governo Lula só teria sido pior que o governo FHC se tivesse provocado no Brasil um retrocesso digno dos governos mais atrapalhados. As condições dadas a Lula são de longe melhores que as dadas a FHC e a resposta foi mesmo a do progresso natural. Agora, se espera que o PT continue progredindo como demonstrou no governo Lula. O que jamais saberemos, pois ficará no plano da especulação, é qual resultado o PSDB traria ao país quando governasse, em tese, em condições menos ardilosas que as encontradas oito anos atrás.


Em entrevista à Folha de S. Paulo, o cientista político de reputação internacional Joseph Nye foi claro em afirmar que o Brasil evoluiu dramaticamente nos últimos vinte anos. “Vinte anos atrás ninguém levava o Brasil a sério. Era a terra da inflação, nada funcionava. Depois que você passou a ter um real sólido e uma política fiscal sólida, a base do Brasil, com seus recursos naturais, seu potencial, aflorou. Claro que eu dou crédito para Lula, mas eu dou o grande crédito para Cardoso”, afirmou o cientista.

O mais importante agora é que o PT, mesmo narcisista, seja capaz de absorver as críticas que o governo Lula sofreu, pois caso faça isso, poderá governar com resultados ainda melhores. Mas assumir que errou não é uma qualidade petista e não espero que eles sejam capazes de fazer isso agora. O que se publicou nos jornais ontem e hoje anunciam a volta de Palocci e a manutenção de Mantega e Meirelles. Bis in idem é o que todos cogitam, porém, o PT é capaz de muito mais e já nos surpreendeu outras vezes. A política econômica deverá continuar sendo a mesma, a manutenção do tripé básico formulado no governo FHC e que revolucionou o país será mantida (as metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário que foi implantado ainda em 1999), mas nada impede que Dilma Rousseff venha a colocar em prática novas medidas.

Termino o artigo desejando boa sorte à nova presidente e também à oposição para que ela auxilie o país a encontrar o meio termo no debate político para que consigamos, petistas no governo ou não, continuar progredindo. Independente de qual lado político se esteja, o país e os brasileiros são mais importantes que disputas eleitorais e debates ideológicos. Minha parte será feita. Continuarei com o mesmo hobby de escrever sobre política neste espaço e de debater com os amigos as minhas opiniões. Boa sorte, Brasil!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Antes do resultado final (eleições presidenciais)

Existem algumas coisas que eu pretendo escrever aqui aintes do resultado final das eleições. Vamos a elas.
...
Estamos caminhando para o fim de mais um teste a nossa jovem democracia. O Brasil se redemocratizou recentemente e superamos momentos difíceis em busca do amadurecimento de nossas instituições políticas. Um presidente foi deposto, a imprensa, seja no governo Itamar, Collor, FHC e Lula, nos trouxe escândalos de corrupção que nos fizeram cogitar a descrença na política e na capacidade de nós, brasileiros, governarmos a  nós mesmos. A corrupção, como disse The Economist na sua última publicação, não é particularidade de nenhum partido político no Brasil, mas sim uma característica da política brasileira. Precisamos ser capazes de identificar em cada um dos partidos aqueles que fazem política com seriedade e que trabalham pelo fortalecimento do Brasil.


Sobre as eleições presidenciais, vivemos momentos que mais uma vez nos levaram a desacreditar no futuro. Os partidários do candidato de oposição utilizaram do recurso à religião para conquistar votos de conservadores ligados às igrejas. Isso dividiu as próprias igrejas e os fiéis. Sofremos a possibilidade de ver a campanha presidencial dividir o país em conservadores e liberais como ocorre sempre nas eleições americanas. Não estamos preparados para essas novidades e a população brasileira reagiu chocada a essa divisão. Em contrapartida, os partidários da candidata governista revelaram publicamente detalhes da vida pessoal da mulher de José Serra acusando-a de ter praticado aborto, vilipendiando a intimidade do candidato e indo além daquilo que a imprensa e a política está autorizada a fazer. 


Outro traço das eleições foi a constante presença do Presidente da República nos comícios, nas passeatas e no horário eleitoral. Os esquerdistas críticos do PSDB esqueceram autocrítica na hora de avaliar as conseqüências de uma exposição excessiva como esta que transformou o presidente em um cabo eleitoral. A campanha do PT também se pautou em mentiras deslavadas praticando populismo nacionalista ao ameaçar a população com privatizações que o PSDB jamais cogitou.


 É difícil saber qual dos dois lados errou em grau mais severo, resta-nos assistir a tudo isto estarrecidos.
             
A imprensa está dividida e foi muitas vezes partidária. Em uma clara alegoria disso, tivemos as capas da revista Veja e da revista Istoé, cada qual apontando a contradição de um dos candidatos. Isso demonstrou o embate entre os dois meios de comunicação. Conheço de Estadão e Carta Capital terem assumido o seu voto.
 
 Por um lado esse embate sofrido pela imprensa foi um dos bons acontecimentos dessas eleições. Um jornal e uma revista não devem sempre ser imparciais porque isso coloca em risco o comprometimento do veículo com a verdade. Verdade, como sabemos, é um conceito difícil e fugidio, como sempre ensinou a filosofia. É perfeitamente possível que dois lados acreditem fielmente em suas idéias e as defendam com a força de quem crer estar em defesa da verdade. Algo saudável. Errado seria se os meios de comunicação tivessem formado sua linha editorial com base em interesses políticos ou econômicos o que até agora não foi demonstrado.

O ruim não foi a imprensa ter ido à luta por votos, mas sim o fato dela ter se envolvido em denuncismo e sensacionalismo ao invés de divulgar a proposta dos candidatos e mover as discussões em torno delas. O fato da eleição ter virado uma guerra em que um enfia o dedo no olho do outro é em parte culpa da cobertura da imprensa.


Enfim, eleições para o parlamento e para a chefia do executivo jamais serão perfeitas, porque a imperfeição é inerente aos homens e na hora de tomar decisões tão cruciais para o rumo do país é mais do que normal que nos exaltemos. A questão é saber se evoluímos ou se retrocedemos. Sem fazer um julgamento que valorize um ou outro candidato, respondo a esse questionamento afirmando que sim. Evoluímos, vagarosamente, mas evoluímos. Uma evolução à brasileira.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A via da inocência

Marina Silva (PV) conquistou um número expressivo de votos no primeiro turno das eleições presidenciais e foi a responsável pela existência do segundo turno. Agora os dois candidatos se preocupam em seduzir o Partido Verde. Mas o que está por detrás desse fenômeno que fez de Marina Silva a galinha dos ovos de ouro?
                A resposta só pode ser uma: inocência. Inocência do eleitorado e não de Marina Silva. Desde o começo da eleição ela soube como atrair os eleitores desencantados com o PT e sem coragem de assumir o voto no PSDB. Vendendo uma “terceira via”, que teria como objetivo “quebrar o plebiscito no país” a candidata atraiu toda sorte de desavisados com o seu discurso excessivamente ideológico, do mundo da fantasia.
Marina Silva despertou no coração dos “marineiros” aquela velha centelha infantil que trazemos dentro de nós desde crianças, quando vivemos no mundo dos contos de fadas. No Brasil inteiro gente de todas as classes sociais se identificou com o ato cristalino, puríssimo, que seria o voto na candidata. E foram levar seu inexpressivo partido às urnas quebrando a dicotomia PT-PSDB.
Nem o PT dos escândalos revelados pela imprensa, nem o PSDB de Serra aliado a antigos grupos políticos que já governaram o país. “Tudo menos um candidato que cheire a política como ela é, tudo menos a dura realidade” era o mantra que os eleitores levaram às urnas para votar no Partido Verde. Mas porque votaram se a Marina Silva nunca teria sido eleita? Porque é assim mesmo com as coisas divinas e intangíveis, elas nunca se materializam na realidade. Marina Silva pertence o mundo das idéias, onde segundo Platão, os seres encontram sua perfeição ontológica, ela não é daqui. Ela é um verde alienígena.
Alfabetizada tardiamente, antiga doméstica, vítima de doenças e perversidades da floresta que tanto defende, Marina Silva tem todas as características necessárias para atrair essa parte do eleitorado que anseia por uma alternativa ao duro mundo da politicagem brasileira. Ela lembra um pouco o Lula sertanejo celebrado pelo PT hodiernamente e representado em filme.  
Um choque de realismo, contudo, foi a dado a ex-presidenciável agora que o Partido Verde ameaça uma revolta. Marina Silva está tendo problemas para acalmar a fúria do partido por cargos, ministérios e negociatas. Ela deseja debater de maneira limpa os programas de governo e não fazer coligação oportunista. Ontem ela cancelou uma reunião com a direção do PV.
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E agora, Marina Silva, você vai apoiar o PT ou PSDB e condicionar seu discurso ideológico ao realismo do factível, desapontando seus eleitores ao verem pela primeira vez uma Marina real? É esperar para ver.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O PT e a Imprensa


           A última aventura petista foi contra a imprensa livre. De José Dirceu a Lula, vários petistas foram demonstrando sua inclinação autoritária. Estão inconformados com a imprensa porque ela não está ocupada em participar do “oba-oba” que o partido pretende fazer valer nessas eleições. Queriam uma imprensa que louvasse os supostos acertos do governo, assim como eles fazem na propaganda eleitoral e na propaganda governamental – nesta última de maneira mais sutil. Como a imprensa não concorda que o governo foi o maior acontecimento da história desse país, só pode estar alucinada. É assim que o problema é visto do ponto de vista do PT.

Houve quem acusasse a imprensa de “golpista”. Estaria a imprensa movimentando interesses partidários quando na verdade ela apenas cumpre com o seu papel em uma democracia: o de fiscalizar o governo. Quanto ao escândalo Erenice Guerra, talvez a imprensa tenha prestado um favor a Dilma Rousseff. Quem imagina qual função a protegida da candidata petista viria a ocupar em um possível governo? Quem sabe tenha sido melhor a bomba explodir agora no que nas mãos de Dilma.
       
            Na Bahia, José Dirceu acreditava estar longe dos reportares em uma palestra para sindicalistas. Era Dirceu em mais um dia de suas vastas ocupações partidárias pós-escândalo do mensalão. O PT não baniu nenhum dos envolvidos no caso (o companheirismo é algo sem fim no PT), e não seria diferente com o companheiro José Dirceu, antigo segundo homem do governo Lula. Então, falando para essa platéia e para as futuras prateias que o petismo ainda lhe proporcionará, Dirceu explanou suas opiniões sobre a imprensa no Brasil. Existiria um “excesso de liberdade” e concluiu "o problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa.". As falas de Dirceu falam por si só. Derrubado por um escândalo que nasceu no Congresso e que a imprensa só fez divulgar, ele agora declara suas mágoas.

Porém, o que pensa Dirceu é mais do que o que pensa Dirceu. É o que pensa o PT e é o que pensa o presidente Lula. No background, apagado, mas não morto, Dirceu ainda participa de atividades partidárias e freqüenta o governo na intimidade da amizade que possui com os seus principais protagonistas. Se ele pensa assim é porque a nata do petismo pensa igual e se o presidente não está com eles é capaz que José Dirceu o convença do contrário.

Mas assustador que Dirceu, contudo, foi o Sindicato de Jornalistas de São Paulo ter organizado uma manifestação contra o “golpismo midiático”. A manifestação atraiu a presença de Luiza Erundina (deputada federal PSB/SP). Foi uma panfletagem organizada pelo PT, CUT, MST e UNE. Isso mostra o quanto alguns movimentos sociais e sindicatos ainda mantêm afinidade com o governo. O objetivo do encontro era “redigir um documento, assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras”. O movimento chegou a sugerir uma auditoria nas contas da Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo. E disse “sugerimos que todos assinemos publicações comprometidas com a democracia e os movimentos sociais, como a Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Revista do Brasil, jornal Brasil de Fato, jornal Hora do Povo”.

O grupo organizado em torno do Sindicato de Jornalistas de São Paulo deu nome aos bois. O que eles chamam de “grande mídia” é certamente a Editora Abril, o Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo, mesmo nomes em que foi sugerida a auditoria nas contas. O movimento tem o direito de manifestar sua opinião e de se organizar para redigir documentos, levantar assinaturas e todo o resto. Eles podem até demonstrar apreço por um ou outro jornal e revista, conforme a linha editorial dos mesmos. O que não podem é querer impedir qualquer jornal de manifestar livremente a sua opinião.

No Clube Militar do Rio de Janeiro jornalistas participaram de uma discussão sobre os riscos de censura à imprensa. O tema do encontro era “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão." É isso mesmo o que o senhor ou senhora leu, são jornalistas ameaçando a imprensa  em São Paulo e militares ocupados de defendê-la no Rio de Janeiro.

PS: O que é mais perigoso, uma imprensa que critica o governo ou uma imprensa submissa aos interesses dele?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lamaçal na Casa Civil



Cinco dias de desgaste até a ministra da Casa Civil Erenice Guerra pedir demissão. O pedido de demissão na verdade esconde uma exoneração do Presidente. Até a publicação da reportagem desta semana na revista Veja, tudo indicava que a ex-ministra continuaria no cargo. Porém, as denúncias feitas por Folha de São Paulo fizeram transbordar o copo, foram a gota d’água. A ministra caiu.
Amigada da candidata Dilma Rousseff, a ex-ministra ocupou cargos relacionados com o Ministério de Minas e Energia e depois que Dilma foi alçada, pós-escândalo do mensalão, à condição de Ministra da Casa Civil, acompanhou a colega e passou a ser secretária-executiva do ministério. Para onde fosse Dilma, era levada a colega Erenice. Será que Dilma desconhecia as práticas dos filhos de Erenice, tendenciosos a fazer lobby em contratos volumosos com o governo, tudo com o consentimento e participação da mãe? Bom, isso a candidata nega, mas o bom senso só pode nos levar a imaginar o contrário.
O filho de Erenice, Israel Guerra, além de lobista, ocupava um cargo na Terracap, vinculado ao Distrito Federal. Recebia R$ 6.800 sem pisar no serviço. Funcionário fantasma, portanto. Israel Guerra também ocupou cargos na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
A empresa do filho de Erenice Guerra prometeu a empresários intermediar com a sua mãe um financiamento com o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Social). Em troca, a empresa de Israel Guerra embolsaria seis parcelas de 40 mil e 5% do valor total do contrato. Os empresários se negaram a  propina. Em reportagem da revista Veja, ficou demonstrada a participação da mesma empresa na facilitação de um negócio entre um grupo do setor aéreo e os Correios. Tudo com a participação da ex-ministra, que inclusive teria se reunido com os empresários. Partes das falcatruas ocorreram ainda na era Dilma na Casa Civil.
A ex-ministra prometeu contra-atacar a revista Veja por meios legais. “Sinto-me atacada em minha honra pessoal e ultrajada pelas mentiras publicadas sem a menor base em provas ou em sustentação na verdade dos fatos, cabendo-me tomar medidas judiciais para a reparação necessária. E assim o farei. Não permitirei que a revista 'Veja', contumaz no enxovalho da honra alheia, o faça comigo sem que seja acionada tanto por danos morais quanto para que me garanta o direito de resposta"

O impacto das denúncias sobre as eleições é incerto. Pesquisa divulgada recentemente demonstrou que apenas 1 em cada 10 eleitores se sente bem informados sobre as quebras de sigilo de pessoas ligadas à Serra. Não duvido que grupo ainda menor se demonstre informado sobre as denúncias na Casa Civil que revelam ter o principal ministério do governo se transformado em palco de negociatas e corrupção.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lula: o extirpador

Em declarações em um comício em Santa Catarina Lula afirmou “nós precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, mais a frente, no mesmo discurso, Lula complementa “nós já aprendemos demais, já sabemos quem são os Bornhausen. Eles não podem vir disfarçados de cordeiros. Já conhecemos as histórias deles”. Além de verbalizar seus planos maliciosos contra o DEM, o Presidente aproveitou para alfinetar os Bornhausen, lideranças de Santa Catarina.

As declarações são chocantes, o maior problema, porém, é saber se Lula realmente se sente em condições de extirpar um partido do cenário político. Será que ele estaria com tanta bola assim? Sabemos que o DEM é o principal aliado do PSDB nessas eleições e eixo da oposição ao petismo, um partido de larga tradição que sempre esteve no centro dos principais acontecimentos políticos do Brasil. A extirpação do DEM só beneficiaria o PT e prejudicaria a democracia instituindo o monopartidarismo no Brasil. Talvez seja este o sonho atual do PT.

O deputado federal e presidente do DEM Rodrigo Maia (DEM/RJ), em rebate às críticas de Lula afirmou que “o discurso mostra que o Lula está desequilibrado. Presidente que fala em extirpar partido político em pleno processo eleitoral revela seus pendores autoritários”. E completou: "o caminho para extirpar o adversário é na linha da Alemanha nazista. O presidente age de forma autoritária ao invés de deixar o eleitor decidir”.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também percebeu o autoritarismo do discurso, "isto extrapola o limite do estado de direito democrático", e continuou "faltou quem freasse o Mussolini. Alguém tem que parar o Lula". Finalizando, afirmou o ex-presidente: "para o equilíbrio dos poderes. O Presidente está extrapolando o poder político." Já o deputado federal Paulo Bornhausen (SC) afirmou que "Lula tentou dividir o Brasil em dois países, de pobres e ricos".

Todos esses acontecimentos só nos revelam o quanto presidente perdeu as estribeiras, a modéstia, e diante da alta popularidade que experimenta – fruto exclusivamente dos sucessos da política econômica que somente seguiu o óbvio da cartilha das regras de economia – se transformou em um super-lider, em um megalomaníaco, em um incitador de massas.

Com o bolso cheio de dinheiro (graças a uma política econômica que não passa de uma excelente continuidade do governo FHC) a classe média não tem do que reclamar e com a origem popular do presidente a classe trabalhadora também se desmancha em afeto por Lula. Agradar a gregos e troianos é perfeitamente possível, comprovou o PT. E diante de tanto êxito o Presidente há muito tempo perdeu a compostura.