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sábado, 20 de agosto de 2011

Nudez e sexualidade

Nascimento de Vênus, William-Adolphe Bouguereau.
A beleza da deusa graga do amor
tornou-se tema recorrente na arte.

A história da arte encontra-se relacionada com a história da representação da nudez humana. Desde a exibição heróica da nudez dos deuses gregos até as atuais campanhas de moda, o homem perseguiu na representação da nudez do semelhante uma forma de manifestação do erotismo.

Atualmente um recurso tornou-se difundido no entretenimento como medida de diferenciação entre a exibição tolerável e intolerável do corpo humano: o conceito de nudez parcial. Para Hollywood a nudez parcial, preservando o púbis e os órgãos sexuais, passou a ser a regra.  A moda também explora nas campanhas publicitárias a sensualidade e a nudez parcial.

 Com esse artifício a nudez aproximou-se ainda mais da cultura. Do ponto de vista da nudez,  a diferença entre os filmes pornográficos e os filmes de Hollywood passou a ser o objetivo, a finalidade, com que ela é representada. Nos primeiros ela surge como um acontecimento envolvido em uma trama maior de romance, suspense ou drama, nos segundos ela aparece diretamente retratada dentro de sua finalidade primordial de transmitir prazer. Cada dia mais longas, as cenas de nudez e sexo representadas nos filmes nos fazem questionar se essa regra diferenciadora continua sendo preservada. O quanto a indústria do cinema passou a explorar a nudez pela própria nudez?
A nova marca japonesa UNIQUO
aposta no óbvio: jeans e nudez parcial.


A nudez escancarada dos filmes pornográficos encontra a sua raiz ancestral na pornografia feita através do desenho na arte rupestre. A fotografia pornográfica e o cinema pornô, por sua vez, surgem com o advento da fotografia e do cinema. A arte rupestre, contudo, representa atos sexuais com a infantilidade e despudor de um homem que não conhecia a moral sexual que viria a trazer o grande conflito da exibição da nudez: a vergonha e a culpa. Na tradição bíblica, por exemplo, Adão e Eva passam a cobrir o corpo diante de Deus após comerem do fruto proibido e tornarem-se conhecedores do bem e do mal. Entretanto, nem a Bíblia se esvai em culpa, a vivência correta e saudável da sexualidade é o tema de um dos mais belos livros bíblicos, Cântico dos Cânticos, atribuído ao Rei Salomão.


Rei Salomão e a rainha de Sabá (1959).
Teus dois seios são como dois filhos gêmios da gazela,
que se apascentam entre os lírios.

Cântico dos Cânticos, 4:5.
O livro bíblico Cântico dos Cânticos é entendido por alguns como um código de prazeres adotado para a sexualidade a âmbito conjugal, tendo como paradigma a vivência saudável da sexualidade entre os noivos. Atualmente, o cuidado com a sexualidade a âmbito individual deve acompanhar o cuidado com a sexualidade a âmbito coletivo. Não se pode extirpar a nudez da sociedade como se tentou fazer na Idade Média ou nos séculos mais recentes de moral mais rigorosa, porque a pornografia envolve o direito humano de reconhecer a sua sexualidade, o direito de olhar para a sua própria nudez. Coletivamente, uma indústria pornográfica com limites éticos e a divulgação de idéias que nos afastem do hedonismo exacerbado são boas bandeiras.


Desde o desfile dos jovens em maio de 1968 na França, as idéias liberais que sacudiram a velha moral européia encontraram inúmeros desafios pela frente. Hoje sabemos que a vivência desregrada da sexualidade tem a mesma força de desumanizar que a vivência moralizadora da antiga moral. O medo de exibir a nudez pode ser mais saudável que o despudor em demonstrá-la. O risco da sexualidade não é apenas a culpa paralisante, mas também o despudor que transforma o homem e a mulher em puro objeto de desejo, desrespeitando seus sentimentos e sua condição de humanos. A dificuldade presente na nossa sociedade é a de saber dosar essas tensões em busca de um equilíbrio que nos encaminhe para uma vivência da sexualidade sem culpa e com respeito a dignidade de cada um. É o conhecimento do sexo como forma dígna de manifestação do afeto e propulsor de dignidade.

Pamela Anderson em sua 7ª capa de Playboy (1999).
Capa de 11 edições da revista, a atriz é símbolo
da paixão americana por nudez.
Neymar: ícone do futebol é explorado por
Capricho
, publicação voltada para o público feminino adolescente.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

I have a date (eu tenho um encontro)

O que pode ser melhor do que
vinho no primeiro encontro?



     Quando um casal americano sai para se conhecer chama isso de date. “I have a date”, “eu tenho um encontro”, diz o americano todo feliz. Entretanto, no mundo das “baladas”, da “curtição”, das danceterias e boates, o encontro está desaparecendo do vocabulário e do dia-a-dia dos amantes. Nós estamos abandonando o encontro para conhecer pessoas em festas, em flertes lançados a distância através de cantadas decoradas e artificiais.
     Confesso que por algum tempo eu também entrei nessa roubada. Certa vez, cansado de inventar cantadas mirabolantes em danceterias eu decidi assumir um padrão de comportamento. Comecei usando o celular. Escrevia o texto em uma mensagem e dava para o pretendente ler, ele respondia no próprio aparelho. Depois, passei a ser mais ousado. Comecei a pegar um pedaço de papel, fazer uma bolinha e arremessar na cabeça deles. Assim eu iniciava a conversa e me vingava previamente caso levasse um fora. Certa vez joguei a bolinha na cabeça do rapaz certo e o namorei por três meses.
     Agora estou fora dessa. Não tenho mais tempo e nem idade para suportar as horas de badalação e bebidas. A realidade da vida me obrigou a ser mais responsável e promovi mudanças. A primeira delas foi a reabilitação do “encontro”. Agora eu convido os pretendentes parar sair e comer alguma coisa ao invés de me intoxicar junto com eles de música eletrônica ruim.
John Travolta e Uma Thurman
no clássico Pulp Fiction  (QuentinTarantino, 1994).
O "silêncio que incomoda".
     Mia Wallace e Vicente Vega (Uma Thurman e John Travolta) no clássico do cinema Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), marcam um encontro que por pouco não termina em tragédia (a overdose de Mia). É uma prova irrefutável de que o encontro tem seus riscos. Contudo, no amor sempre jogamos dados como uma prerrogativa para participarmos do jogo. Outro fato interessante desse encontro é a referência que Mia Wallace (Uma Thurmam) faz ao “silêncio que incomoda”, aqueles clássicos momentos em que o casal fica em silêncio um olhando para o outro em procura de assunto para a conversa.
     Entretanto, o maior problema dos encontros ainda é ter que decidir se você irá ou não transar no primeiro encontro. É uma dúvida difícil. Desculpas esfarrapadas como chamar você para tomar cervejas em casa, dar uma subidinha para conhecer o apartamento, ir para um lugar mais confortável ou mais reservado, serão certamente as propostas feitas para forçar você a se entregar e ceder.
"Eu transo no primeiro encontro"
     Não existe uma regra geral para todos os casos, certamente encontraremos casais que transaram no primeiro encontro e agora vivem maritalmente enquanto outros não passaram da primeira vez. 
     O encontro é uma aventura, um pequeno ensaio da vida  a dois, é perfeitamente possível testar uma pessoa em um encontro, em uma balada isso já se apresenta como uma tarefa mais difícil. A revitalização do encontro se impera como forma de fugirmos de alguns defeitos inerentes aos nossos hábitos modernos que prejudicam nossa vida afetiva.
     Finalizando, se hoje for sábado e você estiver próximo ao telefone, não tenha dúvida: marque um encontro. Chame aquela pessoa especial para jantar fora ou beber alguma coisa. Quem sabe vocês não acabem, após o encontro, saindo para dançar em uma casa noturna em um clássico exemplo da união entre o velho e o novo, entre o útil e o agradável. Seria começar  a noite em Pulp Fiction e terminar em Embalos de um Sábado a Noite (Saturday Night Fever, John Badham,
1977).
     Boa sorte e até o nosso próximo encontro!


John Travolta e Karen Lynn Gorney.
Embalos de um Sábado à Noite
(Saturday Night Fever, John Badham, 1977)














domingo, 7 de novembro de 2010

Mais um post sobre sexo (e inevitavelmente sobre amor)



Cena clássica de a Dama e o Vagabundo
O que podemos fazer em um sábado a noite? Encontrar pessoas desconhecidas, abusar do álcool, fumar cigarros, transar por pura diversão. Transar por pura diversão? Confesso que poucas coisas podem ser tão instigantes quanto conhecer a intimidade sexual de uma pessoa, se você se viciar nisso pode sair por aí encontrando pessoas novas e descobrindo o que elas guardam de mais íntimo. Nada como vivenciar aventuras sexuais.
Não vivemos nenhum movimento social revolucionário dos hábitos sexuais, todas as transformações sociais que permitiram nossa sexualidade inusitada já acabaram. O sexo não é mais revolucionário e sentimos um vazio imenso por isso. O grande boom da sexualidade começou nos anos sessenta regado a muita música, inspirado em muito rock. O rock agora não é mais nenhuma novidade, ele vive a sua velhice. O sexo livre é praticado por pessoas em todas as camadas sociais, os antigos ideais que movimentaram a luta da contracultura se separaram do sexo livre. A liberdade sexual agora é um fato inegável para a maioria das pessoas e principalmente para os jovens.
Se antes o sexo era um meio de fazer revolução social, agora o sexo está institucionalizado e incentivado fortemente com apelo na imagem. Porém, nenhum sexo de fim de balada se compara ao sexo que fazemos com a pessoa que amamos. Em uma sociedade que apela excessivamente para a imagem, para a virilidade e para o prazer, algo inevitável ocorreu: o amor romântico foi deixado de lado nessas aventuras de virilidade. Perseguimos a beleza enquanto observamos belos mal resolvidos rechearem nossas cabeças com problemas e confusões. Por que são infelizes se a infelicidade, agora, é uma regalia dos feios e dos mal amados? É que a felicidade e o amor têm forte relação com a beleza, mas essa relação quando corretamente vivenciada sempre identificará beleza na pessoa em que amamos.   
Carrie Bradshaw de Sex and the City sempre faz uma pergunta nas suas colunas sobre sexo que assina em um jornal. A minha vai ser: já se sentiu, ao final de uma relação sexual, como se tivesse faltado alguma coisa, algo mais importante do que prazer?
A maioria de nós já passou por situações assim e isso nos incomoda muito. Não quero ser Arnaldo Jabor e repetir suas tolices de best-seller, mas concordando com ele, em um texto de sua autoria largamente difundido na internet: ESTAMOS COM FOME DE AMOR. Estamos com fome de ser amados da maneira mais démodé. O que queremos mesmo é comer macarrão como os personagens da animação A dama e o Vagabundo e sermos surpreendidos em um beijo. O que buscamos mesmo é o amor idealizado, romantizado, que se manifesta nas coisas mais simples. E não o sexo perfeito que vendem por aí.
Arnaldo Jabor encerra o seu texto denunciando uma verdade: antes ser idiota para os outros do que infeliz para si mesmo! Evite as tentações artificiais que vendem fartamente por aí. Persiga o amor, tenha ele como o seu farol, como seu guia. Faça do amor a estrela  guia que orienta a sua navegação. Se você perseguir o amor, não haverá erro, mesmo perdido no Triângulo das Bermudas.

ARNALDO JABOR. Afinal de contas, o que ele entende de sexo?

domingo, 24 de janeiro de 2010

“CARRIE BRADSHAW SABE O QUE É SEXO BOM E NÃO TEM VERGONHA DE PERGUNTAR"




Antes de limpar a cozinha do apartamento e lavar o a louça (tarefas domésticas de domingo) assisti dois episódios do seriado Sex and the City. Foi quando tive a idéia de escrever a minha primeira postagem sobre sexo. É um tema que abordei apenas superficialmente no blog, ao contrário da protagonista da série que escreve exclusivamente sobre sexo em uma coluna de jornal. Vestirei a pele de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) por pelo menos uma postagem.
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Para ter uma boa noite de sexo não é preciso ter um corpo perfeito. Quando duas pessoas estão nuas não estão se exibindo como se fossem modelos da Vogue ou de uma revista erótica. É normal sentir vergonha de sua nudez, e a televisão, os filmes, acostumaram a nossa geração ao exibicionismo. A vergonha, a timidez, é o que nos aproxima de verdade dos nossos parceiros sexuais, são esses sentimentos que os convidam a experimentar nossas fraquezas e confiança. Como comparar a nudez envergonhada do quadro “Puberdade” de Munch com a nudez fashionista de Madona? Longe de afirmar que a beleza não deva ser vivenciada (ou mesmo que não exista beleza no mundo fashion e do cinema), o que tento é chamar a atenção dos jovens que estão agindo precipitadamente fazendo o possível para simular esses universos. A união sexual é um ato de amor, de troca mútua e de fragilidade, e não somente de prazer.
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Eu tive um interessante número de parceiros sexuais e nunca me envolvi em um relacionamento sério e estável que durasse por mais de um ano. Não que eu seja autosuficiente, simplesmente as pessoas certas que apareceram não quiseram ficar comigo. Encontrei todos os defeitos possíveis em cada affair pelo qual passei, meus casos revelam o mesmo universo de dificuldades sentimentais que passamos a coligar no mundo de hoje. Mas não tenho problema em assumir: eu tenho, sim, medo de relacionamentos.
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Os jovens estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, alguns falam que vivemos a "ditadura do sexo", se antes era proibido e evitado, agora é obrigatório e precisa ser feito. Disseram-me que a Susan Boyle tinha o charme do "sexo-zero", daquelas pessoas que vivem enclausuradas sem companhia sexual com desejos reprimidos. Agora o pior pesadelo dos amantes é a solidão dos feios, dos mal amados, enquanto se tornam belos fascinados por falsidades e tão mal amados quanto.
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Em todos os artigos a Carrie Bradshaw faz uma pergunta. A minha não pode faltar: "será que o que precisamos fazer, sexualmente, é assumir que sentimos vergonha?".