domingo, 24 de janeiro de 2010

“CARRIE BRADSHAW SABE O QUE É SEXO BOM E NÃO TEM VERGONHA DE PERGUNTAR"




Antes de limpar a cozinha do apartamento e lavar o a louça (tarefas domésticas de domingo) assisti dois episódios do seriado Sex and the City. Foi quando tive a idéia de escrever a minha primeira postagem sobre sexo. É um tema que abordei apenas superficialmente no blog, ao contrário da protagonista da série que escreve exclusivamente sobre sexo em uma coluna de jornal. Vestirei a pele de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) por pelo menos uma postagem.
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Para ter uma boa noite de sexo não é preciso ter um corpo perfeito. Quando duas pessoas estão nuas não estão se exibindo como se fossem modelos da Vogue ou de uma revista erótica. É normal sentir vergonha de sua nudez, e a televisão, os filmes, acostumaram a nossa geração ao exibicionismo. A vergonha, a timidez, é o que nos aproxima de verdade dos nossos parceiros sexuais, são esses sentimentos que os convidam a experimentar nossas fraquezas e confiança. Como comparar a nudez envergonhada do quadro “Puberdade” de Munch com a nudez fashionista de Madona? Longe de afirmar que a beleza não deva ser vivenciada (ou mesmo que não exista beleza no mundo fashion e do cinema), o que tento é chamar a atenção dos jovens que estão agindo precipitadamente fazendo o possível para simular esses universos. A união sexual é um ato de amor, de troca mútua e de fragilidade, e não somente de prazer.
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Eu tive um interessante número de parceiros sexuais e nunca me envolvi em um relacionamento sério e estável que durasse por mais de um ano. Não que eu seja autosuficiente, simplesmente as pessoas certas que apareceram não quiseram ficar comigo. Encontrei todos os defeitos possíveis em cada affair pelo qual passei, meus casos revelam o mesmo universo de dificuldades sentimentais que passamos a coligar no mundo de hoje. Mas não tenho problema em assumir: eu tenho, sim, medo de relacionamentos.
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Os jovens estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, alguns falam que vivemos a "ditadura do sexo", se antes era proibido e evitado, agora é obrigatório e precisa ser feito. Disseram-me que a Susan Boyle tinha o charme do "sexo-zero", daquelas pessoas que vivem enclausuradas sem companhia sexual com desejos reprimidos. Agora o pior pesadelo dos amantes é a solidão dos feios, dos mal amados, enquanto se tornam belos fascinados por falsidades e tão mal amados quanto.
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Em todos os artigos a Carrie Bradshaw faz uma pergunta. A minha não pode faltar: "será que o que precisamos fazer, sexualmente, é assumir que sentimos vergonha?".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O primeiro artigo que publiquei em jornal










Uma Autobiografia e uma história confusa (ano: 2006)





FHC publi­cou a sua autobiografia este ano com o nome Arte da Política: A História que Vivi. O livro é uma narração dos eventos que ocorreram durante o seu mandato e uma dissertação sobre o seu modelo para desenvolvimento do Brasil, onde FHC explica os motivos de ter tomado as decisões que tomou e tenta resolver os mal-entendidos. No que trata dos seus próprios erros, a sua autobiografia se depara com a realidade de qualquer autobiografia escrita por político: é uma defesa pessoal, FHC confunde discurso livre com ativismo político.

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FHC teve uma carreira intelectual invejável, dedicando-se a universidade e a política de forma semelhante. Foi professor por trinta e sete anos, passando por Sorbonne e pela Universidade de Berkeley. A carreira política lhe aconteceu meio ao acaso onde foi fundamental o mandato de senador que herdou como suplente. Fundador do PSDB, foi ao lado de Mario Covas e Franco Montoro que iniciou um reduto no estado de São Paulo, começando uma nova história na política brasileira. Através dele e de seu partido um novo grupo de democratas, com uma nova visão política, chega ao poder. Um movimento antagônico leva o PT a uma posição de destaque. Chega então a vez do PT e do PSDB, pertencentes a dois caminhos distintos, mas que possuem em comum o fato de terem nascido do embates que movimentaram a refundada democracia brasileira.

A estrutura do Parlamento brasileiro passou a ter uma nova figura durante os seus dois mandatos, junto com o crescimento da esquerda e dos partidos menores. A aliança com partidos fortes, de base parlamentar sólida, caracterizou o seu governo, viciando o Congresso e dando inicio a uma tradição. Uma espécie de relação partidária fundamentada na coligação, na divisão das pastas dos ministérios e no favorecimento político, se consagrou com FHC e passou a ser o princípio do presidencialismo brasileiro.


O ano da publicação da sua autobiografia não foi o ano da volta do PSDB ao Palácio da Alvorada. O seu partido e as forças políticas que o levaram à presidência saíram derrotadas mesmo com o movimento de denúncias movidas pela imprensa e pelos órgãos de fiscalização do Estado. O esforço feito pelos legisladores da oposição não levou o governo petista ao fracasso na reeleição; a mesma lei que lhe garantiu mais quatro anos na presidência se mostrou útil também aos políticos petistas.


Paulo Markun tornou célebre em seu livro O Sapo e o Príncipe a expressão “o sociólogo e o operário”. A história recente do Brasil, a história de um presidente sociólogo e de um presidente operário, é analisada em seu livro tratando também os aspectos da semelhança; não são tão distantes assim, um como o outro seriam lados de uma mesma moeda, moeda que manteve os partidos majoritários do legislativo (PFL E PMDB) longe da chefia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Conflitos ultrapassados, texto do meu diário




Terça-feira, 03 de março de 2009.

Ao chegar ao apartamento percebi que no primeiro andar, logo a frente, havia uma festa muito movimentada ao som de rock and roll. Tocavam músicas do rock mais recente. Os risos, as conversas e o movimento inteiro da festa, fizeram-me lembrar da tentação de sempre que é abandonar os estudos e viver de farras. Tentado por essa idéia e pela falta de cigarros, decidi ir até um boteco no bairro ao lado do condomínio para comprar um maço e algumas cervejas para trazer para casa.

Enfrentei a chuva até lá com um guarda-chuva. O boteco estava com baixo movimento, todo na parte interna, sem as mesas da rua que são de costume. Não havia nenhuma mulher, somente alguns rapazes bebendo cerveja e jogando sinuca. Um era especialmente belo e realmente foi capaz de chamar minha atenção, observei-o desde que entrei. Sorriso carismático e aquele formato de cabeça característico de todos os rapazes belos., que forma uma meia lua em cima da nuca. Era o único branco.

Ao ver o dono do boteco perguntei quais cigarros ele tinha para vender, disse-me que tinha “carlton” e “hollywood”, além de algumas marcas que nunca fumo pela procedência duvidosa e péssimo gosto. Pedi uma carteira de “carlton” e perguntei sobre cerveja em lata ou longneck. Ele respondeu que não vendia nenhuma das duas, restando para mim a única alternativa de beber no bar. Aproveitei o fato para observar o comportamento dos rapazes que bebiam.

Sentei de pernas cruzadas, sem camisa, com o guarda-chuva ao lado da mesa. Na televisão passava um filme e pude reconhecer Halle Barry e Heath Ledger, e em poucos segundos mais, reconheci o filme, tratava-se de a “A Última Ceia”. Então perguntei ao rapaz mais belo da turma “nesse filme tem um condenado à morte?”. Ele respondeu que não sabia, o que para mim pouco importou, só queria que me dirigisse a palavra.

Ao longo da cerveja e dos cigarros que fumei, os rapazes comentavam sobre o filme, respondendo com expressões faciais e urros conforme as cenas fortes (como a de execução do condenado a morte) aconteciam. Percebi nesse instante, ao vê-los descontraídos, ocupados com as cervejas e suas conversas divertidas, o quanto a felicidade da vida está mesmo em momentos como esse, que são fáceis para eles de conseguir, bastam ir àquele bar e beber cervejas e conversar. Eu estava ali não como convidado, mas como espectador forasteiro, tentava compreender toda a beleza poética daqueles meninos envolvidos com jogos e descontração. Eu voltava da universidade do curso que nunca quis fazer, preocupado com a atividade financeira do estado, ou outra burocracia insuportável, enquanto aqueles rapazes voltavam de algum trabalho ou de uma escola pública. “O meu curso é uma morte, é uma morte lenta. Não chegarei a lugar nenhum”, pensei várias vezes. “Tenho agora com este diário poucos minutos de construção da minha personalidade, quando decidi escrever sobre o que vi e participei neste dia, decidi salvar a mim do comum a que me condenei. Como seria bom caso meus estudos contribuíssem para minha visão de mundo!”.

Tentava não observar seguidamente o rapaz bonito de que falei. Poderia pensar alguma coisa de mim ou estranhar que lhe olhasse, memorizei uma ou outra das expressões que achava que tinha de mais belo. Queria que falassem, queria que todos eles falassem e vivessem, que se divertissem. Eu tinha ali no corpo magro daqueles meninos morenos, com os contornos dos músculos esguios e ágeis, a poesia que perdi. Eles jogavam sinuca e se movimentavam provocando muita admiração em mim.

Paguei a conta e voltei para casa.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O FLAMENGO EM QUATRO PERSONAGENS. (publicado)


A história que levou o Flamengo à conquista do seu hexacampeonato é uma dessas histórias fascinantes que só acredita quem tem costume com o futebol. O time iniciou o ano com uma campanha fraca e com a vitória de um carioca improvável para depois entrar no brasileirão tropeçando, com derrotas injustificáveis. Tudo indicava um caminho morno pela frente. Contudo, o time se acertou, ficou invicto por várias rodadas e ultrapassou os lideres no final da corrida sendo hexacampeão. A resposta para isso são quatro personagens.


O primeiro deles é Adriano, um rapaz deprimido que abandonou o dinheiro e a Europa para jogar no Brasil no clube do coração. Tudo muito bonito, mas daí a chegar ao país, entrar em forma, vencer a depressão e jogar futebol seria como uma vitória. Acabou sendo.

O segundo personagem é Petkovic, conhecido na Sérvia como Rambo. Esse voltou para o Flamengo em um acordo para cobrir dívidas. O então técnico do time, Cuca, recusava-se a escalar o sérvio discutindo com o presidente e ameaçando sair. Colocava o Rambo pra jogar no finalzinho. Petkovic virou a mesa, chegou de fininho, e passou a ser peça fundamental do time com gols épicos de bola parada. Agora é o deus do olímpico.

O terceiro personagem da história: Andrade. Monstro do futebol brasileiro e monumento da torcida rubro-negra, é uma espécie de ligação entre o passado glorioso do clube e o presente. Membro interino dos bastidores, Andrade assumiu a função de técnico porque não havia técnicos no mercado e terminou ganhando espaço com seus resultados. Agora a torcida tem duas dívidas com o Andrade, o jogador e o técnico. Pagar não vai nunca.

O quarto é tricampeão carioca, campeão da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. Escapou de uma amputação em uma lesão rara, voltou a jogar futebol e fez o gol do título em uma jogada ensaiada. É o que mais me emociona: Ronaldo Angelim.

Fui um flamenguista pessimista e analisei mal as coisas ao longo de todo este ano. Acreditei que Adriano no máximo dava bom exemplo de “pobre menino rico” com essa choradeira toda e que Petkovic estava velho e visivelmente fora de forma e que Andrade, com todo respeito, mesmo criado nos bastidores, não ia saber levar o time como técnico. E o pior, e sem perdão: Angelim não ia voltar a jogar futebol.

Fiz tudo errado, escalei outro time para jogar. Dei cedo o título para o Palmeiras. Eu penso com a cabeça e não com o coração. E futebol não tem sentido, se tem sentido é um sexto. Esse sentido, infelizmente, eu tenho pessimamente desenvolvido.

domingo, 11 de outubro de 2009

11 de setembro de 2009


Hoje é aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro (por um defeito no programa a data da postagem está errada). No dia dos atentados cheguei mais cedo da escola e vi a televisão transmitindo ao-vivo as imagens da CNN. Pensei que era o fim do mundo ou algo assim. Eu tinha quatorze anos e voltei à escola, de bicicleta, para interromper a aula e contar a meu melhor amigo o que estava acontecendo. Narrei no corredor da escola, ofegante, o que tinha testemunhado em casa e que meu amigo desconhecia. Achava que ele precisava saber imediatamente. Éramos próximos e tínhamos idéias malucas juntos, consumíamos muita cultura americana nos filmes, nas músicas e nos livros.

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O mundo não ficou bem depois de 11 de setembro, mas minhas expectativas ainda mais pessimistas jamais se realizaram. Eu estava excitado esperando que minha vida pudesse vir a ter algo de heróico quando vi os ataques. Achava que chegaria até a cidadezinha onde morava todo o frenesi daquelas torres caídas. Esperava que os EUA voltariam a recrutar civis para a guerra, jovens de preferência, como no Vietnã... Idéia infantil compatível com a minha maturidade na época. "Os jovens americanos irão morrer na guerra novamente". Os filmes que assistia e os rocks que ouvia eram influenciados pelos acontecimentos do Vietnã e ver um Vietnã acontecer seria belo. "Ah! Nem que pelos jornais e pela TV! Seria como em O Franco Atirador...".


Eu tinha raiva dos EUA e por acaso uma das professoras, colaborando, escolhera naquele ano um livrinho fino que falava sobre a influência cultural do país nos jovens a partir dos anos sessenta. Segundo muitos, o hamburger é o feijão com arroz dos americanos, confirmando a tese o livro tinha na capa um hamburger imenso que caia de paraquedas em um prato com a bandeira nacional do Brasil, anunciando que nos alimentávamos de uma cultura alienígena.


Sempre fui um formador de opinião, um intelectual, e o antiamericanismo seduziu muitos jovens com essas características durante o mandato do governo Bush, a começar pelo 11 de setembro, e eu não escapei a esse fácil destino. Contudo, a maturidade afastou-me de qualquer pensamento simplista em política internacional. Hoje em dia, como antes, não conheço os EUA pessoalmente, eles ainda são um monte de livros, filmes, internet, TV e "vida" que vem todos os dias mexer com a minha, mas diferentemente, tenho com eles agora uma boa relação, seja pela saída dos republicanos do poder, seja pelo simples fato de que sei muito bem que os EUA não podem ser culpados por tudo o que há de errado no mundo. Mesmo que pareçam ser o mundo todo, as vezes.

domingo, 26 de julho de 2009

O “estilo Lula” e uma análise do futuro (publicado em jornal)


Quando o Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB/PE) chamou o Bolsa Família de “esmola” foi rebatido pelo Presidente da República com o seu usual tom demagógico. O Presidente respondeu: “para um cidadão que pode dar uma gorjeta de R$ 100,00 em um hotel cinco estrelas isso não é nada, mas para uma mãe de família é dinheiro que na mão faz a multiplicação dos pães”.

Bom, o Lula é assim mesmo. Desde que assumiu o cargo tem falado para o povo com um estilo singular. Algo o fez acreditar que buscar uma linguagem simples garantirá sua aprovação e o crescimento do seu partido. Mesmo quando nomes de peso denunciam seu estilo de demagógico, ele mantém o tom: improviso, coração inflamado, choro, vale tudo para o Presidente da sinceridade. Tão sincero quanto seria um homem comum.
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Para quem não tem acesso a jornais, revistas e cultura, identificar um governo e suas falhas é difícil. Essa é a aposta do Presidente que sensibiliza os pobres transmitindo confiança não por fazer um bom governo, mas por não ter o mesmo rosto largo, de espertalhão, de larápio, que os políticos brasileiros educados, de classe alta, possuem. Ele é muito diferente de um senhor sem carisma que fala pausadamente (como Serra) ou de um senhor às vezes sarcástico demais, do riso confiante e ameaçador (como FHC). Lula é um operário que perdeu um dedo a serviço dos algozes, os patrões, que martirizam os trabalhadores. O mensalão foi incapaz de dar ao povo a imagem do Lula corrupto, ladrão e cheio de conchaves, imagem que temos de todos os políticos do Brasil independente da realidade.

Recentemente o Presidente foi recebido pela UNE com gritos de "Dilma presidente" e "Lula, guerreiro do povo brasileiro". A resposta foi a de um líder estudantil: "vocês vieram aqui para trabalhar ou para gritar?". Não há registro de outro presidente que tenha sido convidado para um congresso da UNE. Lula conta com o apoio dos estudantes que foram protestar contra a permanência de Sarney (aliado do governo) apenas após a saída do Presidente e sua comitiva de 11 ministros. A UNE recebeu do Governo Federal dez milhões de reais desde 2004, dentre os quais sete milhões nos últimos 14 meses.

O Presidente tem o governo avaliado como ótimo/bom para 69% da população e tem agido com arrogância chamando os senadores da oposição de pizzaiolos e dominando a fraca CPI da Petrobrás. Percebe-se que o Brasil não precisa mais de Congresso Nacional, basta o Poder Executivo, ele impõe o que quer ao legislativo o seduzindo promiscuamente.

Em 2010 seja qual for o vencedor haverá muitos pontos em comum, graças a herança do lulismo: o PMDB estará com o governo, haverá escândalos de CPIs, ninguém acabará com o Bolsa Família e o crescimento do PIB se chegar a 5% ao ano deixará a todos felizes reelegendo o vencedor para mais quatro anos.. Como disse John F. Kennedy, o segredo para o sucesso de um governo é a economia, mesmo que tudo, tudo o resto vá errado.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Trechos de uma longa carta enviada a um amigo: o abandono do curso de filosofia

"Eu teria sido um aluno brilhante de filosofia, sociologia ou qualquer outro curso em que as exigências fossem as de um aluno com incomum capacidade crítica e destreza em se mover em meio aos campos teóricos de uma ciência. Sou forçado a ver com inveja as pessoas que tiveram a oportunidade que eu não tive ou a coragem que não assumi. Como o Eduardo que abandonou seu curso de direito na UESPI para apostar nas próprias escolhas, porque confiava em sua capacidade."

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"Isso é um desabafo. Não é necessário que você leia esta carta até o fim. Eu já abandonei as formalidades que textos dessa natureza exigem, quero falar com emoção, pois é o que sinto agora, angústia. Serei tão direto quanto O Apanhador no Campo de Centeio"


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"O curso de direito foi feito para qualquer aluno que tenha capacidade de recordar por meio de exaustivo estudo o que é textualmente exposto pelas leis. Existe em minha sala exemplos de alunos com essa capacidade, proveniente, como já pude perceber, da ambição profissional e da identidade com o curso. Eu não tenho identidade com o curso e não sinto nenhuma ambição profissional, o que me coloca em situação de larga desvantagem".

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"Eu deveria ter com o direito ao menos a esperança de atingir autonomia financeira, pois se ele não é um fim em si mesmo, poderia ser um meio para algo. Acontece que por detrás da realidade que ele significa, mora morto o único sonho que tive nesta vida: o de ser um intelectual."


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"Sou obrigado a continuar com o curso porque não me resta outra alternativa. Na minha idade não ter autonomia financeira começa a ser algo muito irritante. Sinto como se ele fosse uma armadilha a que terminei caindo. Não refiz a matricula de filosofia na federal, era impossível estudar para os dois ao mesmo tempo e as minhas notas no curso de direito diminuíam. Negam-se a me sustentar nesta cidade para estudar exclusivamente filosofia. Sou péssimo estudante de direito. Há algum lugar onde o patinho feio seja cisne? Estou deslocado."


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"Será que eu consigo dinheiro com essa droga?"


"O Direito Penal é uma forma de manter viva a consciência de dinossauros ocupados em fazer o que mais detesto na vida: falso-moralismo."


"Nunca foi ciência, parece-me técnica, ou mesmo puro know-how, mero conhecimento procedimental, savoir-faire."





quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

texto do meu diário (comparações com a obra Confissões de uma Máscara, Mishima)



Escrito em maio de 2004, tem como tema as impressões de colegial.

Ao contrário do personagem de Mishima, a que roubo o nome dessas confissões, não me lembro de ter fantasiado uma única vez, quando criança, as coisas que ele confessa ter fantasiado. Contudo, senti no peso do colegial as mesmas paixões disfarçadas em amizade que ele relata com tanto vigor no livro, daí a homenagem. Minha mais marcante imagem, da minha inebriante descoberta, a descoberta do erotismo, não fora uma imagem clássica, como São Sebastião de Guido Reni, mas a mesma confecção vulgar de pornografia que circulava pelos corredores da escola. O peso enorme de um estranho fascínio pesava sob minha cabeça; enganava-os fingindo participar do mesmo universo de descoberta sexual que eles (os outros garotos), e, como a personagem de Mishima, fui me tornando especial na arte de dissimular e fingir. Um senso de preservação e uma maldade desde aqueles anos passou a dominar minhas relações sociais. Nunca fui verdadeiramente bom, era muito marcado por um sentimento de autopreservação que me obrigava a ser ruim.



Amava os fortes e me aproximava deles a todo custo. Fui com os tempos marcando minhas relações de amizade com meninos frustrados, quase sempre agressivos. Mesmo os de beleza serena e angelical -- mais a frente falarei das minhas experiências com esses tipos -- conseguiam vencer o anarquismo e as expressões gratuitas de violência. Não gostava, nunca gostei do vigor físico exagerado, gostava dos pontapés e socos que viam de um corpo frágil, ágil, mais “ágil que forte”. Até as personagens ágeis dos desenhos animados eu amava. Essas experiências colegiais abriam aos poucos espaço para o começo da minha difícil relação com a autoridade e com o costume. Aprendi a odiar as autoridades, e os costumes, subvertia-os. Meus amigos de colegial, todos eu influenciava com minha atípica visão de mundo, e passavam todos a multiplicar o universo maravilhoso de literatura que eu fazia ser tudo o que estava ao meu redor, como o rei Midas convertia tudo em ouro, eu convertia tudo em mágica. São as pessoas criativas que deus pôs nele, as que eu disciplinei.



Mantinha contato excessivo com eles e a eles voltava minha atração sexual, por isso havia em mim mais intensidade na percepção do desejo e mais freqüentes momentos de descontrole, uma vez que não vivia distante do objeto admirado sexualmente, não havia separação entre o meu mundo e o mundo do meu objeto de desejo, como havia entre o deles e o das garotas a quem voltavam sua atração sexual. E nesse ponto aprendi a odiar e a afastar-me ainda mais do meio das meninas, nunca gostei nem do que lhes fazia referência, como roupas e sua fragilidade. Na infância a separação boba de papéis a que nos educam afastam-nos em pólos diversos, eu não tinha porque buscar reconstruir esses pólos, religá-los, se deixassem a mim em um internato como o Ateneu eu acharia ali meu verdadeiro lar. Ainda não deixei de as perceber (as mulheres) como seres deslocados do mundo, como alienígenas, observo-as com profunda admiração e sem saber de onde vieram e que propósitos possam ter nesta vida.

O que me deixava ainda mais deslocado era também a criatividade incomum voltada à objetos de arte, como literatura e a música. Havia dificuldade em comunicar o mundo apreendido na admirável literatura a que tinha contato e as experiências banalizadas de vida que os outros na escola adquiriam com os recursos que a educação de pouca qualidade lhes trazia. Eu queria fugir para um lugar parecido com o lugar que meus livros retratavam, com aquelas pessoas criativas e capazes de propagar literatura.

continua

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Crítica ao FILME CONDUTA DE RISCO



Já nos aproximamos do OSCAR 2009 e discutir esse filme talvez esteja fora de ocasião. Conduta de Risco foi indicado a sete OSCAR no ano de 2008 levando o de melhor atriz coadjuvante com Tilda Swinton (Karen Crowder). Na época das indicações ocorreu uma divisão na crítica que em parte o enalteceu e em parte o criticou severamente. Eu pertenço ao grupo do meio termo e estou aqui para ajustar, agora longe do calor daquele OSCAR, as reais proporções da qualidade do longa-metragem. Analisá-lo é também uma maneira de revermos o que ocorreu naquele ano, um dos mais confusos de Hollywood nos últimos dez. Fora de ocasião ou não, vamos à crítica do filme.


O filme se passa em meio a um grupo de advogados e mesmo não tendo muitas cenas com audiências ou inquirição de testemunhas é um filme do gênero dos que envolve o universo do Direito e terminam sendo assistidos por esses profissionais (como eu) com grande entusiasmo no mundo todo. Existem muitos bons filmes com tema voltado ao meio jurídico na biblioteca universal de filmes. Algum deles, como O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men 1957), Julgamento em Nuremberg (Judgment in Nuremberg 1961), Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959) são clássicos do cinema de todos os tempos.


O longa-metragem é o filme de estréia de Tony Gilroy como diretor. Segundo afirmam, Gilroy tirou inspiração para o filme enquanto freqüentava escritórios de advocacia para escrever o roteiro de Advogado do Diabo (Devil’s Advocate 1997). Outro grande trabalho do roteirista é a trilogia Bourne estrelada por Matt Damon e que angariou fãs no mundo todo. Tony Gilroy é um nome que será citado futuramente no cinema, com absoluta certeza. Para um filme de estréia conseguiu um sucesso bem acima do esperado, mas não completamente inesperado tendo em face o elenco e o dinheiro investido.


O filme se inicia com um monólogo do personagem Arthur Edens (Tom Wilkinson) que corre em segundo plano enquanto vemos cenas do escritório de advocacia em uma noite de trabalho difícil. A linguagem de Arthur será um dos grandes pontos do filme, ele escolhe os adjetivos perfeitamente e revela a qualidade do roteiro. No monólogo, Arthur compara a sua saída pela porta do escritório ao rompimento de uma “película” ou “líquido embrionário.”


O escritório seria uma “placenta” e Arthur rompia esse “casulo” libertando-se da sujeira que havia dentro dele. “Eu renasci” diz o personagem e continua “o escritório é o ânus de um organismo cuja única função é expelir veneno”, “estive coberto dessa merda toda a vida”. São as declarações que faz ao seu amigo e protagonista do filme Michael Clayton (George Clooney) quanto este o visita na delegacia por causa do surto de Arthur durante uma audiência.


A história do filme envolve uma companhia ligada ao agronegócio, a U/NORTH, com. um total de 70.000 funcionários espalhados em mais de 65 países. Um herbicida produzido pela mesma seria agressivo ao organismo humano e teria provocado a morte de diversas pessoas (e doença de uns outros tantos) em uma pequena comunidade nos EUA. O resultado da tragédia é uma ação coletiva por indenizações no valor de 3 bilhões de doláres. O escritório de Arthur, Michael e Marty Bach (Sydney Pollock) é o responsável pela defesa da empresa de agrotóxicos. Ocorre que o advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson), maníaco-depressivo com problemas pessoais, enlouquece durante uma audiência e revela informações em desfavor de seu cliente. Além disso, Arthur também começa a juntar provas contra o seu cliente (U/NORTH), pondo em risco a sua vida e os rumos do processo. Por envolver o tema de capitalismo selvagem e indústrias carniceiras o filme foi comparado a Erin Brockovich (2000) e O Informante (The Insider, 1999). O processo é carregado pelo escritório há sete anos com protelações para cansar os querelantes e promover um acordo de baixo custo à empresa.


A trama central do filme é intercalada por cenas da vida particular de Michael Clayton, sua separação difícil e a relação com o seu filho de oito anos. A intenção é desenvolver o personagem, que é de fato complexo e guiado com maestria por George Clooney. Michael Clayton é também viciado em poker e deve dinheiro a agiotas por causa de um negócio mal sucedido no ramo de bares. Ele é longe de ser um herói, talvez não chegue a ser um anti-herói, é somente uma pessoa ocupada demais com seus próprios problemas e sem tempo para heroísmo. Não se importa se a causa envolvendo a U/NORTH é suja ou não, apenas quer resolver seus problemas financeiros e pessoais. Refere-se a si mesmo como "faxineiro" que limpa a sujeira dos seus clientes "donas de casa assaltantes e políticos pervertidos". Arthur começa a inserir na ocupada consciência de Michael preocupações de natureza ética que terminam por influenciar um discurso que faz ao seu filho sobre caráter. Contudo, ao ouvir o primeiro discurso de Arthur sobre a sujeira do caso U/NORTH, Michael surpreende-se dando a mínimo interesse para questões morais relacionadas com o seu trabalho e considerando toda a confusão criada por Arthur como um resultado da doença mental do mesmo, como se fosse um devaneio questionar-se sobre a ética em assumir ou não determinada causa e a responsabilidade decorrente disso. Michael Clayton é um advogado sóbrio que conhece o seu papel em um processo e na vida, com realismo. O enrendo é não-linear como muito tem se visto, sem contudo se basear no recurso fortemente.


A câmera do filme costuma focar os personagens bem de perto, muitas vezes escondendo o cenário, acompanhando as expressões faciais dos mesmos, que parecem não interpretar em busca de um fim. O uso máximo do recurso é na cena final em que a câmera acompanha Michael Clayton ao longo de um passeio de táxi. A trilha sonora é suave, com sons gerados eletronicamente ou fortemente mixados. Quanto às cores, nas cenas com Michael Clayton, costumam predominar cores frias, azuis. Em outras cenas predominam cores esverdeadas, em algumas temos cores mais quentes, talvez nas de Karen Crowder (Tilda Swinton)


Comentando a interpretação de Tilda Swinton que levou o OSCAR, de fato ela é foi competente e deu vida a essa executiva exausta, desequilibrada, relacionada demais com o trabalho e que toma decisões que não são capazes de conviver com sua personalidade, decisões de crime. É um pouco parecida com Michael na questão mesma do realismo e por seus problemas pessoais causarem frieza nas suas decisões de executiva. É uma personagem frágil, apesar de se apresentar no filme no papel mais próximo de uma vilã.


As críticas mais severas disseram que o filme é tedioso e que a trama é pouco explícita exigindo demais do espectador que pode se perder e até retirar a atenção do filme, que possui pouca ação real, focando-se basicamente em seu roteiro. De fato é possível que isso, um verdadeiro desastre, aconteça em Conduta de Risco. A trama realmente requer muito cuidado por parte do espectador e o roteiro e sua execução, nesse sentido, sofreu problemas graves. A trama central perde-se durante a trama secundária, as vezes nos tornamos insensíveis a recursos do filmes, por ele apelar pouco, como na cena poética em que Arthur caminha pelas ruas da cidade perdido com seus devaneios diante de publicidades imensas da empresa U/NORTH. Contudo, o ideal é que aqui tenhamos um espectador capaz de compreender a trama sem que o filme necessite explicitar, reforçar, dizer a mesma coisa duas vezes.


O que vi nesse filme foram pontos de grande qualidade intercalados com problemas graves, mas que, quando acerta o faz com maestria sendo espelho para muitos outros filmes que pretendam criar personagens realistas e passar a impressão real de humanos que se perde diante das situações "heróicas" demais que os filmes apresentam e que de fato exigem.


Próximo ao fim, na cena ápice, Michal Clayton fala para Karen Crowder (Tilda Swinton) "você tentou me matar, sou o cara que você deveria comprar e você me mata?". E então, Michael realmente se venderia? Pensa o espectador. É possível, ele é tão anti-herói que talvez fizesse isso. É quando então Michael se despede, depois de revelar-se um herói, respondendo a um homem que pergunta quem ele é: "Sou Shiva, Deus da Morte".


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

texto do meu diário


TRILHAS SONORAS E RETORNO
Chopin foi a trilha sonora dos meus 17 anos e atualmente quando o escuto volto no tempo. Era esplêndido, os noturnos ganhavam a noite levando-me com eles. Em linguagem de informática podemos dizer que Chopin é um ponto de restauração do meu sistema, uma ação que motiva um retorno do meu ser a um lugar aonde ele já esteve, permitindo que eu volte a "ser" o que já fui, ocupando por alguns segundos uma inteira condição psíquica passada. É muito provável que Tom Jobim termine sendo outro desses pontos de restauração e no futuro faça-me retornar para a atualidade com as suas músicas instrumentais.

Começa a execução do piano dos noturnos e volto à mesma janela, ao mesmo quarto, com um cigarro e xícaras de café, uma sensação impressionante que acho só ser possível ocorrer em mim. Eu sinto o gosto do café na minha boca novamente, o cheiro da canela que adicionava a mais nos cappuccinos. Nessa época tinha deixado de freqüentar escolas e atingido o ápice do meu comportamento anti-social. Vivia para mim mesmo como um animal livre e soberano, lia meus livros solitário e vivia meu mundo, um selvagem que nutria paixões puríssimas, obcecado como era com a nobreza dos próprios sentimentos. Nesta idade feri propositadamente o antebraço duas vezes causando queimaduras irreparáveis de terceiro grau; pequenas cicatrizes de 4cm de diámetro que meus amigos rockeiros de Teresina chamavam de scars. O abuso de entorpecentes era constante, gritava ouvindo Sex Pistols: no fun, my baby, no fun! Ou ainda: no future, no future, for YOU! Passava-se "nada" na minha cabeça como dizia mamãe.

Como será quando Tom Jobim fizer-me voltar aos meus 21 anos de idade? Eu tenho neste momento metade da complexidade que tive antes e teminarei com meu retorno não honrando ao maestro caso não me torne mais criativo e não irei. O que faço agora é ferir de morte a consciência daquele garoto que já fui. Ele jamais toleraria que eu abandonasse o curso de filosofia, pouco importa com o uso de qual argumento. Na certa entraria em um acordo quanto ao abandono do nosso antigo estilo de vida, jamais concordando, porém, com os resultados medianos e conseguintemente medíocres do curso de Direito, porque ele odiava o comum, o homo medius e perceberia que me condeno a isso. Ele sofria da síndrome de Erostrato e havia de se tornar grande nem se fosse como incendiário ou assassino, esse era o seu espírito.
Nunca fui tão inteligente quanto naquela época. Não porque tivesse conhecimento acumulado pelo estudo, mas porque desenvolvia com mais facilidade os dramas que apreendia nos romances. Podia compreender uma situação apresentada por um romance com grande nitidez e transferí-la para mim, sentindo-a em seguida na mesmíssima moeda. Como esquecer a leitura angustiante de Werther? Os contos completos de Virginia Woolf? As biografias de Heidegger (Safranski) e Sartre (Beauvoir)? Eu estava me preparando para viver como um intelectual deveria viver, procuraria os meus pares nas universidades para poder ser, finalmente, feliz. Era isso que se passava na minha cabeça. Era um artista e um filósofo. Iria morrer do mal dos artistas, morreria por ter o coração muito sensível à arte, à vida e à luta.E agora aos 20 anos quando entro para a faculdade de filosofia e descubro formas de dividir minhas experiências, abandono-a tentado como estou pelos valores artificiais adotados por minha família. Tento agora me comportar como um adulto, mesmo porque "a adolescência é o prisma pelo qual os adultos olham os adolescentes e pelo qual os próprios adolescentes se contemplam", como definiu um psicólogo brasileiro na Folha de São Paulo. Como um adulto tento engolir o sentimento profundo de desgosto que é para mim não fazer mais aquele curso e ter fé que terei sorte em arrumar um emprego na capital (como advogado) e puder viver longe da minha cidade natal onde a sociedade acha-se ainda mais barbarizada e distante do modelo que busco para mim.