quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

texto do meu diário (comparações com a obra Confissões de uma Máscara, Mishima)



Escrito em maio de 2004, tem como tema as impressões de colegial.

Ao contrário do personagem de Mishima, a que roubo o nome dessas confissões, não me lembro de ter fantasiado uma única vez, quando criança, as coisas que ele confessa ter fantasiado. Contudo, senti no peso do colegial as mesmas paixões disfarçadas em amizade que ele relata com tanto vigor no livro, daí a homenagem. Minha mais marcante imagem, da minha inebriante descoberta, a descoberta do erotismo, não fora uma imagem clássica, como São Sebastião de Guido Reni, mas a mesma confecção vulgar de pornografia que circulava pelos corredores da escola. O peso enorme de um estranho fascínio pesava sob minha cabeça; enganava-os fingindo participar do mesmo universo de descoberta sexual que eles (os outros garotos), e, como a personagem de Mishima, fui me tornando especial na arte de dissimular e fingir. Um senso de preservação e uma maldade desde aqueles anos passou a dominar minhas relações sociais. Nunca fui verdadeiramente bom, era muito marcado por um sentimento de autopreservação que me obrigava a ser ruim.



Amava os fortes e me aproximava deles a todo custo. Fui com os tempos marcando minhas relações de amizade com meninos frustrados, quase sempre agressivos. Mesmo os de beleza serena e angelical -- mais a frente falarei das minhas experiências com esses tipos -- conseguiam vencer o anarquismo e as expressões gratuitas de violência. Não gostava, nunca gostei do vigor físico exagerado, gostava dos pontapés e socos que viam de um corpo frágil, ágil, mais “ágil que forte”. Até as personagens ágeis dos desenhos animados eu amava. Essas experiências colegiais abriam aos poucos espaço para o começo da minha difícil relação com a autoridade e com o costume. Aprendi a odiar as autoridades, e os costumes, subvertia-os. Meus amigos de colegial, todos eu influenciava com minha atípica visão de mundo, e passavam todos a multiplicar o universo maravilhoso de literatura que eu fazia ser tudo o que estava ao meu redor, como o rei Midas convertia tudo em ouro, eu convertia tudo em mágica. São as pessoas criativas que deus pôs nele, as que eu disciplinei.



Mantinha contato excessivo com eles e a eles voltava minha atração sexual, por isso havia em mim mais intensidade na percepção do desejo e mais freqüentes momentos de descontrole, uma vez que não vivia distante do objeto admirado sexualmente, não havia separação entre o meu mundo e o mundo do meu objeto de desejo, como havia entre o deles e o das garotas a quem voltavam sua atração sexual. E nesse ponto aprendi a odiar e a afastar-me ainda mais do meio das meninas, nunca gostei nem do que lhes fazia referência, como roupas e sua fragilidade. Na infância a separação boba de papéis a que nos educam afastam-nos em pólos diversos, eu não tinha porque buscar reconstruir esses pólos, religá-los, se deixassem a mim em um internato como o Ateneu eu acharia ali meu verdadeiro lar. Ainda não deixei de as perceber (as mulheres) como seres deslocados do mundo, como alienígenas, observo-as com profunda admiração e sem saber de onde vieram e que propósitos possam ter nesta vida.

O que me deixava ainda mais deslocado era também a criatividade incomum voltada à objetos de arte, como literatura e a música. Havia dificuldade em comunicar o mundo apreendido na admirável literatura a que tinha contato e as experiências banalizadas de vida que os outros na escola adquiriam com os recursos que a educação de pouca qualidade lhes trazia. Eu queria fugir para um lugar parecido com o lugar que meus livros retratavam, com aquelas pessoas criativas e capazes de propagar literatura.

continua

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Crítica ao FILME CONDUTA DE RISCO



Já nos aproximamos do OSCAR 2009 e discutir esse filme talvez esteja fora de ocasião. Conduta de Risco foi indicado a sete OSCAR no ano de 2008 levando o de melhor atriz coadjuvante com Tilda Swinton (Karen Crowder). Na época das indicações ocorreu uma divisão na crítica que em parte o enalteceu e em parte o criticou severamente. Eu pertenço ao grupo do meio termo e estou aqui para ajustar, agora longe do calor daquele OSCAR, as reais proporções da qualidade do longa-metragem. Analisá-lo é também uma maneira de revermos o que ocorreu naquele ano, um dos mais confusos de Hollywood nos últimos dez. Fora de ocasião ou não, vamos à crítica do filme.


O filme se passa em meio a um grupo de advogados e mesmo não tendo muitas cenas com audiências ou inquirição de testemunhas é um filme do gênero dos que envolve o universo do Direito e terminam sendo assistidos por esses profissionais (como eu) com grande entusiasmo no mundo todo. Existem muitos bons filmes com tema voltado ao meio jurídico na biblioteca universal de filmes. Algum deles, como O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird, 1962), Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men 1957), Julgamento em Nuremberg (Judgment in Nuremberg 1961), Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, 1959) são clássicos do cinema de todos os tempos.


O longa-metragem é o filme de estréia de Tony Gilroy como diretor. Segundo afirmam, Gilroy tirou inspiração para o filme enquanto freqüentava escritórios de advocacia para escrever o roteiro de Advogado do Diabo (Devil’s Advocate 1997). Outro grande trabalho do roteirista é a trilogia Bourne estrelada por Matt Damon e que angariou fãs no mundo todo. Tony Gilroy é um nome que será citado futuramente no cinema, com absoluta certeza. Para um filme de estréia conseguiu um sucesso bem acima do esperado, mas não completamente inesperado tendo em face o elenco e o dinheiro investido.


O filme se inicia com um monólogo do personagem Arthur Edens (Tom Wilkinson) que corre em segundo plano enquanto vemos cenas do escritório de advocacia em uma noite de trabalho difícil. A linguagem de Arthur será um dos grandes pontos do filme, ele escolhe os adjetivos perfeitamente e revela a qualidade do roteiro. No monólogo, Arthur compara a sua saída pela porta do escritório ao rompimento de uma “película” ou “líquido embrionário.”


O escritório seria uma “placenta” e Arthur rompia esse “casulo” libertando-se da sujeira que havia dentro dele. “Eu renasci” diz o personagem e continua “o escritório é o ânus de um organismo cuja única função é expelir veneno”, “estive coberto dessa merda toda a vida”. São as declarações que faz ao seu amigo e protagonista do filme Michael Clayton (George Clooney) quanto este o visita na delegacia por causa do surto de Arthur durante uma audiência.


A história do filme envolve uma companhia ligada ao agronegócio, a U/NORTH, com. um total de 70.000 funcionários espalhados em mais de 65 países. Um herbicida produzido pela mesma seria agressivo ao organismo humano e teria provocado a morte de diversas pessoas (e doença de uns outros tantos) em uma pequena comunidade nos EUA. O resultado da tragédia é uma ação coletiva por indenizações no valor de 3 bilhões de doláres. O escritório de Arthur, Michael e Marty Bach (Sydney Pollock) é o responsável pela defesa da empresa de agrotóxicos. Ocorre que o advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson), maníaco-depressivo com problemas pessoais, enlouquece durante uma audiência e revela informações em desfavor de seu cliente. Além disso, Arthur também começa a juntar provas contra o seu cliente (U/NORTH), pondo em risco a sua vida e os rumos do processo. Por envolver o tema de capitalismo selvagem e indústrias carniceiras o filme foi comparado a Erin Brockovich (2000) e O Informante (The Insider, 1999). O processo é carregado pelo escritório há sete anos com protelações para cansar os querelantes e promover um acordo de baixo custo à empresa.


A trama central do filme é intercalada por cenas da vida particular de Michael Clayton, sua separação difícil e a relação com o seu filho de oito anos. A intenção é desenvolver o personagem, que é de fato complexo e guiado com maestria por George Clooney. Michael Clayton é também viciado em poker e deve dinheiro a agiotas por causa de um negócio mal sucedido no ramo de bares. Ele é longe de ser um herói, talvez não chegue a ser um anti-herói, é somente uma pessoa ocupada demais com seus próprios problemas e sem tempo para heroísmo. Não se importa se a causa envolvendo a U/NORTH é suja ou não, apenas quer resolver seus problemas financeiros e pessoais. Refere-se a si mesmo como "faxineiro" que limpa a sujeira dos seus clientes "donas de casa assaltantes e políticos pervertidos". Arthur começa a inserir na ocupada consciência de Michael preocupações de natureza ética que terminam por influenciar um discurso que faz ao seu filho sobre caráter. Contudo, ao ouvir o primeiro discurso de Arthur sobre a sujeira do caso U/NORTH, Michael surpreende-se dando a mínimo interesse para questões morais relacionadas com o seu trabalho e considerando toda a confusão criada por Arthur como um resultado da doença mental do mesmo, como se fosse um devaneio questionar-se sobre a ética em assumir ou não determinada causa e a responsabilidade decorrente disso. Michael Clayton é um advogado sóbrio que conhece o seu papel em um processo e na vida, com realismo. O enrendo é não-linear como muito tem se visto, sem contudo se basear no recurso fortemente.


A câmera do filme costuma focar os personagens bem de perto, muitas vezes escondendo o cenário, acompanhando as expressões faciais dos mesmos, que parecem não interpretar em busca de um fim. O uso máximo do recurso é na cena final em que a câmera acompanha Michael Clayton ao longo de um passeio de táxi. A trilha sonora é suave, com sons gerados eletronicamente ou fortemente mixados. Quanto às cores, nas cenas com Michael Clayton, costumam predominar cores frias, azuis. Em outras cenas predominam cores esverdeadas, em algumas temos cores mais quentes, talvez nas de Karen Crowder (Tilda Swinton)


Comentando a interpretação de Tilda Swinton que levou o OSCAR, de fato ela é foi competente e deu vida a essa executiva exausta, desequilibrada, relacionada demais com o trabalho e que toma decisões que não são capazes de conviver com sua personalidade, decisões de crime. É um pouco parecida com Michael na questão mesma do realismo e por seus problemas pessoais causarem frieza nas suas decisões de executiva. É uma personagem frágil, apesar de se apresentar no filme no papel mais próximo de uma vilã.


As críticas mais severas disseram que o filme é tedioso e que a trama é pouco explícita exigindo demais do espectador que pode se perder e até retirar a atenção do filme, que possui pouca ação real, focando-se basicamente em seu roteiro. De fato é possível que isso, um verdadeiro desastre, aconteça em Conduta de Risco. A trama realmente requer muito cuidado por parte do espectador e o roteiro e sua execução, nesse sentido, sofreu problemas graves. A trama central perde-se durante a trama secundária, as vezes nos tornamos insensíveis a recursos do filmes, por ele apelar pouco, como na cena poética em que Arthur caminha pelas ruas da cidade perdido com seus devaneios diante de publicidades imensas da empresa U/NORTH. Contudo, o ideal é que aqui tenhamos um espectador capaz de compreender a trama sem que o filme necessite explicitar, reforçar, dizer a mesma coisa duas vezes.


O que vi nesse filme foram pontos de grande qualidade intercalados com problemas graves, mas que, quando acerta o faz com maestria sendo espelho para muitos outros filmes que pretendam criar personagens realistas e passar a impressão real de humanos que se perde diante das situações "heróicas" demais que os filmes apresentam e que de fato exigem.


Próximo ao fim, na cena ápice, Michal Clayton fala para Karen Crowder (Tilda Swinton) "você tentou me matar, sou o cara que você deveria comprar e você me mata?". E então, Michael realmente se venderia? Pensa o espectador. É possível, ele é tão anti-herói que talvez fizesse isso. É quando então Michael se despede, depois de revelar-se um herói, respondendo a um homem que pergunta quem ele é: "Sou Shiva, Deus da Morte".


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

texto do meu diário


TRILHAS SONORAS E RETORNO
Chopin foi a trilha sonora dos meus 17 anos e atualmente quando o escuto volto no tempo. Era esplêndido, os noturnos ganhavam a noite levando-me com eles. Em linguagem de informática podemos dizer que Chopin é um ponto de restauração do meu sistema, uma ação que motiva um retorno do meu ser a um lugar aonde ele já esteve, permitindo que eu volte a "ser" o que já fui, ocupando por alguns segundos uma inteira condição psíquica passada. É muito provável que Tom Jobim termine sendo outro desses pontos de restauração e no futuro faça-me retornar para a atualidade com as suas músicas instrumentais.

Começa a execução do piano dos noturnos e volto à mesma janela, ao mesmo quarto, com um cigarro e xícaras de café, uma sensação impressionante que acho só ser possível ocorrer em mim. Eu sinto o gosto do café na minha boca novamente, o cheiro da canela que adicionava a mais nos cappuccinos. Nessa época tinha deixado de freqüentar escolas e atingido o ápice do meu comportamento anti-social. Vivia para mim mesmo como um animal livre e soberano, lia meus livros solitário e vivia meu mundo, um selvagem que nutria paixões puríssimas, obcecado como era com a nobreza dos próprios sentimentos. Nesta idade feri propositadamente o antebraço duas vezes causando queimaduras irreparáveis de terceiro grau; pequenas cicatrizes de 4cm de diámetro que meus amigos rockeiros de Teresina chamavam de scars. O abuso de entorpecentes era constante, gritava ouvindo Sex Pistols: no fun, my baby, no fun! Ou ainda: no future, no future, for YOU! Passava-se "nada" na minha cabeça como dizia mamãe.

Como será quando Tom Jobim fizer-me voltar aos meus 21 anos de idade? Eu tenho neste momento metade da complexidade que tive antes e teminarei com meu retorno não honrando ao maestro caso não me torne mais criativo e não irei. O que faço agora é ferir de morte a consciência daquele garoto que já fui. Ele jamais toleraria que eu abandonasse o curso de filosofia, pouco importa com o uso de qual argumento. Na certa entraria em um acordo quanto ao abandono do nosso antigo estilo de vida, jamais concordando, porém, com os resultados medianos e conseguintemente medíocres do curso de Direito, porque ele odiava o comum, o homo medius e perceberia que me condeno a isso. Ele sofria da síndrome de Erostrato e havia de se tornar grande nem se fosse como incendiário ou assassino, esse era o seu espírito.
Nunca fui tão inteligente quanto naquela época. Não porque tivesse conhecimento acumulado pelo estudo, mas porque desenvolvia com mais facilidade os dramas que apreendia nos romances. Podia compreender uma situação apresentada por um romance com grande nitidez e transferí-la para mim, sentindo-a em seguida na mesmíssima moeda. Como esquecer a leitura angustiante de Werther? Os contos completos de Virginia Woolf? As biografias de Heidegger (Safranski) e Sartre (Beauvoir)? Eu estava me preparando para viver como um intelectual deveria viver, procuraria os meus pares nas universidades para poder ser, finalmente, feliz. Era isso que se passava na minha cabeça. Era um artista e um filósofo. Iria morrer do mal dos artistas, morreria por ter o coração muito sensível à arte, à vida e à luta.E agora aos 20 anos quando entro para a faculdade de filosofia e descubro formas de dividir minhas experiências, abandono-a tentado como estou pelos valores artificiais adotados por minha família. Tento agora me comportar como um adulto, mesmo porque "a adolescência é o prisma pelo qual os adultos olham os adolescentes e pelo qual os próprios adolescentes se contemplam", como definiu um psicólogo brasileiro na Folha de São Paulo. Como um adulto tento engolir o sentimento profundo de desgosto que é para mim não fazer mais aquele curso e ter fé que terei sorte em arrumar um emprego na capital (como advogado) e puder viver longe da minha cidade natal onde a sociedade acha-se ainda mais barbarizada e distante do modelo que busco para mim.


Carta que enviei ao penalista Rogério Greco

Senhor Rogério Greco,


Sou estudante de Direito do segundo ano, chamo-me Patrick Dantas, tenho vinte anos e moro na cidade de Teresina, no estado do Piauí.

O motivo desta carta está relacionado com a citação feita pelo senhor, do autor Muñoz Conde na página 62 do livro Curso de Direito Penal Parte Geral, segue in verbis:

“(...) e, por último, deixando, em princípio, sem castigo as ações meramente imorais, como a homossexualidade e a mentira”.

A citação foi feita pelo senhor como meio explicativo do princípio da fragmentariedade do Direito Penal, levando-nos a concluir que a homossexualidade não deve ser tipificada como crime porque não é uma ofensa grave o bastante a nenhum bem jurídico tutelado, devendo o Direito Penal não cuidar dessa imoralidade, nos termos do autor citado.

Eu sou homossexual desde minha adolescência, quando descobri minha orientação sexual. Desde sempre lutei pelos meus direitos no meio da minha sociedade e da minha família. Sou conhecido pelos meus amigos como uma pessoa ajustada e com uma capacidade exemplar de realizar juízos de natureza moral.

Pessoas como o senhor chegam a conclusões sem o correto cuidado, sem atentar, por exemplo, aos motivos pelos quais a homossexualidade é uma constante no comportamento sexual humano. Dados revelam que entorno de 10% das pessoas tenham algum grau de desejo sexual pelo mesmo sexo. Atualmente as pessoas estão evoluindo os seus conceitos e a sua moral para compreender que os que desejam o mesmo sexo não são doentes, nem imorais, fazem parte de uma manifestação natural da sexualidade humana, comum a sua existência. É uma questão de Direitos Humanos, inclusive. O CID-10 das Nações Unidas não mais considera a homossexualidade como doença. No Brasil desde 1985 o Conselho Federal de Medicina não considera homossexualidade como desvio sexual.

Conheço a relação ideológica que o senhor possui com a religião cristã, especialmente a protestante. Tinha o senhor como meu jurista favorito na área de Direito Penal mesmo não estando de acordo com a sua convicção religiosa e com as invasões que ela faz no seu texto. Para mim a religião como fonte de conhecimento ou de moral foi banida há séculos pela consciência de real ciência e independência dos valores. Espero que o fato de o senhor considerar a homossexualidade uma imoralidade não esteja relacionado com a sua fé, isso seria grave demais.

Este seu livro é do ano de 2008, a mais recente edição. Decidi cortar com o senhor e não mais adquirir nenhum livro seu desde que li a citação, pois temo que ao longo da coleção encontre algo ainda mais chocante. O Brasil tem excelentes penalistas e eu não preciso me sujeitar a isso. É um absurdo e contrasta seriamente com a atualidade um comentário dessa natureza. Sugiro ao senhor que diversifique as suas fontes, que procure se desmembrar de qualquer preconceito e descubra o que é a homossexualidade para o gênero humano e passe a tratar os homossexuais ao menos com respeito.

Patrick Dantas Lima

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O curso de filosofia


O nome do blog ainda é filosófico, mas um marco na minha vida faz-se agora quando abandono o curso de filosofia da UFPI, que sonhei em fazer, e continuo somente com o de direito.

O meu primeiro contato com a filosofia foi com um livro didático do ensino médio, depois vieram outros livros, O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder, os romances de Sartre, as principais obras de Nietzsche, os textos teóricos dos principais filósofos. políticos. Minhas paixões de adolescente foram vivenciadas lado a lado com a filosofia, meus amigos realçavam isso se deixando influenciar pela mesma volição de desejo e de literatura. A atitude do filósofo de Rembrandt, contudo, faltou em mim: contemplativo, pensativo, submerso, estático, também famosa em Sócrates que teria ficado por horas filosofando às vésperas de uma batalha. Eu gostava era de comunicar a leitura com minhas experiências epicuristas. Tudo era justificativa para uma experiência mais intensa dos sentimentos apreendidos nos romances.

Preparei-me toda uma vida para estudar filosofia e agora me vejo obrigado a adiar mais uma vez porque não acho que seja possível estudar dois cursos e ter condições de ser competitivo em uma área como a de direito em que é exigido muito estudo sistemático, cansativo e uma memória de elefante, principalmente agora com a concorrência alta pela abertura cada vez maior de faculdades. Tenho dúvidas sérias quando me pergunto se sou realmente capaz de destacar-me dos outros, como sempre sonhava, em uma vida acadêmica exemplar. O curso de Direito em que fui enfiado contra a minha vontade aos 19 anos agora já está em metade do seu caminho e nunca fiz nada mais do que ser um aluno regular. As horas de estudo necessárias para um destaque maior ainda me produzem tédio e enfado, quando não me escapa a concentração por qualquer motivo. Atualmente abandonei o sex, drugs and rock, mas a loucura da dedicação compulsiva e incomum aos estudos não veio como conseqüência natural. Já estou buscando o meu lugar na base, acomodando-me a ele, esquecendo qualquer vontade de atingir grandes metas, lançando esse desejo e essa vontade na fogueira de delírios adolescentes que pouco a pouco deixo para trás.

Minha identidade com o Direito é pequena, comparada à identidade que tenho com a filosofia, o contraste a deixa ainda menor. Certamente a Ciência do Direito é uma ciência imensa, uma das mais marcantes características da evolução de nossas sociedades é o nosso Direito. Mas o que se exige dos estudantes de direito e de seus aplicadores é capacidade técnica de levar à diante um complexo grupo de ritos, procedimentos, formalidades e finalidades que caracteriza o ordenamento jurídico e a aplicação efetiva do Direito. Mesmo com os avanços pós-positivistas, uma reabilitação dos valores, da discricionariedade, a maior dificuldade no Direito continua sendo a simples realização da correta subsunção do fato à norma. As normas, estas o aplicador deve conhecer e a única maneira é promovendo a leitura exaustiva das leis. Há pouco o que se fazer a não ser se tornar um excelente burocrata. A questão é: de que serve a alguém conhecer as leis? O conhecimento da Lei aumenta, ele completa? Isso eu não sei, mas quanto ao conhecimento de filosofia, isso eu sei dizer com certeza: filosofar é aquilo que se deve fazer imediatamente após se perceber enquanto vivo.




(continua)


domingo, 9 de novembro de 2008

procurando a espada do meu salvador



Este tópico está aqui para que o meu salvador leia. Assim como o messias dos judeus, existem relatos tão antigos quanto o tempo sobre as suas características principais e é preciso que ele se encaixe nessas previsões milenares para que eu possa perceber, ou melhor, para que o destino me possa fazer perceber que Ele chegou. O texto pode provocar esse destino.

Não existe nenhuma previsão sobre a aparência do meu messias. A tradição conta, contudo, que ele será capaz de me fazer perder a dificuldade que tenho para produzir tudo o que meu intelecto é capaz de fazer. Terá gostos semelhantes aos meus, e passaremos dias inteiros juntos discutindo sobre livros, cinema, arte, filosofia, humanidades e direito. Saberá cantar todas as músicas que sei cantar e recitaremos poesia juntos. Ele será inteligente e liberal. Sua presença na minha vida fará com que eu chegue aos meus objetivos maiores: construir uma carreira de intelectual engajado. É possível que Ele queira a mesma coisa para a sua vida, mas a tradição nisso não é certa, afirmando apenas "o destaque absoluto do messias em tudo o que se dedicar".
O meu herói e salvador messiênico está em algum lugar por aí. Basta esperar por sua chegada.



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Ateneu, releitura e capas

O segundo livro que decidi comentar (ver postagem anterior) é uma obra nacional: O Ateneu. Achei-o à venda em uma banca de jornal por cinco reais. Edição simplíssima, de folhas finas, aproveitadas nas margens até as últimas consequências, com uma pintura do artista russo Valentin Alexandrovich Serov como capa. É uma releitura, o romance fez seu marco nos meus 13 anos.

O romance e o começo da minha juventude se confundem. Lendo-o, agora, quase ressuscito o garoto que fui, reativando aquela antiga subjetividade de sonhador, de alienígena, de estrangeiro. Para o protagonista Sérgio o Ateneu é uma crônica de saudades, da mesma maneira o é para mim. Agora releio o livro e sinto as antigas paixões que sentia, o romance acabou por se tornar uma maneira de recordar sentimentos do passado.

Um pouco sobre a capa da minha edição:

A imagem de capa da minha edição é uma pintura que retrata dois meninos na sacada de um prédio a observar a costa. O primeiro garoto admira a paisagem, enquanto o segundo observa o espectador, um pouco de soslaio. A imaginação, personalidade, universo e comportamento infantil acabam por ser centro da pintura. Boa parte da graça está nas personagens em cena, como de costume em Serov que é capaz de manter uma técnica exemplar nos cenários ao mesmo tempo em que cria expressões complexas nos seus personagens. Tanto a observação elegante que o garoto faz, com a mão no queixo, quanto o céu à frente dois mantém o mesmo nível de expressão em complexidade.

Decidi pesquisar e descobri que uma outra edição nacional adotou a gravura de uma edificação escolar. Entre a edificação e o Serov, prefiro o segundo. A gravura de uma edificação escolar à moda do prédio do Ateneu teria deslocado minha atenção dos alunos para a escola, de Sérgio (protagonista do romance) para o Ateneu. Ou seja, teria me atentado menos nas construções psicológicas menores e mais no ambiente microssocial da instituição, e desligado-me ainda mais das crianças e jovens que constroem, com sua criatividade, a realidade interna das instituições de ensino.

Uma outra capa que encontrei traz uma pintura que retrata um grupo de garotos, com idades diferentes, envolvidos na leitura de um bilhete que o mais velho traduz em voz alta. Não reconheço o artista, mas chego a sugerir que é provavelmente do começo século XX e atirando realmente às cegas, notavelmente realista. Seria adequado para a capa de um livro de Dickens. A condição social desses garotos é muito diferente da que temos no Ateneu e as roupas que eles usam revelam que são garotos libertos, soltos no mundo.

(..)

Termino com os comentários sobre as capas do Ateneu por aqui, o tempo que passei longe do blog, por força maior, fez com que me distanciasse demais das anotações que tinha sobre o livro. Minha memória das impressões do mesmo também já fugiram. Quem sabe reabra este tópico no futuro. Com o avanço no estudo de filosofia aos poucos me tornarei ainda mais capaz para criticar literatura, o que pode fazer da pausa uma boa medida.

Contudo, posto algumas anotações sobre as personagens que tinha no meu caderno, sondagens não muito profundas, assumo. Com o tempo melhorarei. Invejo os estudantes de psicologia, por exemplo, porque as técnicas de análise permitem um estudo mais apurado de personagens da literatura (assunto que pretendo fazer virar uma postagem em breve), mas como faço sempre nessas horas, repito a mim mesmo que sou filósofo e aí que deve residir a minha graça. A meu favor também conta um princípio vingente desde os idos iniciais da arte moderna: a liberdade cada vez maior do intérprete. Aí vão as anotações:

"Aristarco: imenso pedagogo, hipócrita, autoritário, mantém o jovem Franco em constante humilhação. (...) Na sua aula sobre astros, Sérgio faz uma analogia entre as mãos de Deus e as de Aristarco ao mover os planetários". "moralista, faz longo discurso sobre a moral" "representa a decadência moral da sociedade de então, seu falso moralismo". (...) "lê livros com as notas dos alunos em ritual aterrador" (...) "é representação da pedagogia de então"

"Sanches: que já é púbere, pede beijo a Sérgio" "Sérgio o repreende e termina a amizade, começando um longo declínio em suas notas que dependiam da ajuda de Sanches" (...) Aristarco lê em humilhação pública: "Sr. Sérgio tem degenerado" Sérgio compara Aristarco a Zeus."

Franco: Aristarco o chama de "o porco, o grandíssimo porco"

"filho de Aristarco se nega a apertar a mão da princesa, é republicano como o autor"




(suspenso)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Retorno à literatura, anotações sobre J.Verne


Abandonei a literatura universal por quase dois anos. Agora voltei a ela e decidi novamente cumprir a meta de sempre possuir um romance em mãos e ler tantos quantos forem possíveis entre uma e outra atividade das faculdades. A maior dificuldade será financeira, não sei como comprarei tantos livros. Por isso, não poderei cometer o capricho de os escolher a dedo -- lerei os que a sorte lançar para mim.

Abusarei das bibliotecas das universidades, dos colegas, dos livros eletrônicos, recorrendo raramente às livrarias. Que seja, como disse Júlio César antes de se dirigir à Roma: "alea jacta est". A sorte está lançada!


As anotações:

O primeiro que caiu nas minhas mãos é proveniente de um furto no qual fui partícipe, instigando um amigo a roubar o acervo de sua escola particular de nível médio. Trata-se de A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne.

É uma vergonha, confesso, que este livro tenha caído em minhas mãos somente agora. É dessas leituras básicas que devem ser feitas aos quinze anos.

Vários livros de Júlio Verne foram adaptados para o cinema, desde o começo da sétima arte até recentemente. Muitos de seus romances possuem elementos que são característicos do cinema, como a aventura e a ação. Perseguições, combates à mão e arma de fogo, infiltrações, e outros eventos que requerem descrições voltadas para o desenrolar físico da ação, são presentes em suas obras, e em muitos autores que aparerentemente o influenciaram, como Alexandre Dumas (pai). A literatura americana é mesmo um filho direto da literatura inglesa, quem sabe essa linha de descendencia não chegou até o cinema americano?

Phileas Fogg (protagonista do livro) é muito bem caracterizado por este diálogo, que se passa na Índia inglesa, no meio de uma floresta, quando seu grupo decide resgatar uma moça que seria sacrificada em um ritual de adoradores da deusa Kali:

-Ora, o senhor tem um bom coração! -- disse sir Francis Cromarty

-Às vezes -- respondeu simplesmente Phileas Fogg. -- Quando tenho tempo.

Fogg é um autômato. Um espírito das "ciências exatas", positivista talvez. Cumpre horários regularíssimos, inspirados nas badaladas do imenso relógio da sua sala. É também um misterioso (parte de seu mistério a trama nem soluciona), não se sabe a origem da sua fortuna, como conhece tantos detalhes sobre geografia e navegação, nem tão pouco quais sejam seus familiares. É anti-social. Frequenta um único club londrino, o Reform Club, onde lê os jornais diários, almoça e joga uíste até próximo da meia-noite. Por mais discreto e distinto que seja, é suspeito de ser autor de um furto milionário no banco nacional.

É no Reform Club que se envolve com a aposta, central para a trama de Verne: dar a volta ao mundo em 80 dias, sem um minuto a mais e nem um minuto a menos. O londrino pretende executar o intento fazendo uso dos meios de transponte da época: navios e linhas férreas. Termina por utilizar também infinitos meios alternativos como paquetes, iates, embarcações comerciais, trenós e elefante.

Contra o inusitado inglês contam fatores como: concordância milagrosa das horas de partida e chegada, a possibilidade de quebras das máquinas, de tempos ruins, de neves, descarrilhamentos ou imprevistos de qualquer ordem que significariam atrasos capazes de por tudo a perder. Além disso, procurado pela polícia em todos os continentes, o inglês terá que despistar um polícial em seu encalço, o agente da polícia metropolitana "inspector Fix".

Logo no início do livro somos apresentados a Passepartout (traduzindo: pau-para-toda-obra) que será seu criado e ajudante toda a viagem. Antigo malabarista de circo, Passepartout defenderá seu patrão com o uso de seus dotes físicos; é também um desastrado, será parte do fator sorte a contar contra Phileas Fogg em toda a viagem.

Logo percebemos que estamos em uma corrida contra o tempo e que o enredo será curto, ágil, e que as expectativas do leitor voltam-se quase completamente para a incerteza da realização ou não do feito por Phileas Fogg e das peripécias que se envolve no caminho. Os personagens são divertidos, inusitados e os dialógos bens construídos; contudo é bem diferente de romances mais calcados na trama e nas personagens. Verne não é estudioso do psiquismo humano, suas atenções voltam-se para o imaginário e a aventura. Os cenários são importantes, mas o livro não possui descrições alongadas dos mesmos, com grandes detalhes geográficos. Elas existem, mas não são o centro do romance, como se pode acreditar pelo título do livro. Elas cumprem apenas o seu papel. Colônias e ex-colônias britânicas serão cortadas rapidamente, onde se passarão os principais eventos do romance. É um mundo interligado pela indrustrialização, colonialismo e pelas máquinas à vapor.

Indispensável para qualquer pessoa que pretenda conhecer ao menos as bases da literatura universal, Verne e a Volta ao Mundo é uma leitura mais que prazerosa, confiram.

domingo, 17 de agosto de 2008

O ator favorito

O ator favorito não foi uma escolha que fiz através de justificativas extensas, por isso não procurem forte embasamento crítico na minha escolha por Anthony Hopkins, meu favorito desde sempre.

De lá para cá meu senso crítico evoluiu bastante, passei a assistir filmes americanos por puro entretenimento e apego a sua linguagem de fácil compreensão e reprodução, mesmo assim, Hopkins continua a despertar o mesmo fascínio de quando lhe admirava com meus olhos de púbere. É como a primeira paixão.

Os mais eruditos escolhem atores do cinema clássico, do cinema europeu ou ainda do cinema independente. Eu escolho um do cinema popular americano porque nunca deixei de apreciá-lo e de ressaltar a sua qualidade maior: ter como espectador o grande público. É inegável que a linguagem hollywoodiana precisa se reformar da mesma maneira como é inegável que produziu grandes filmes. Minha escolha, Anthony Hopkins, é a escolha de um ator com relativa visibilidade que contagiou as massas e parte dos críticos com os seus trabalhos.


O Oscar para
Anthony Hopkins veio com O Silêncio dos Inocentes. Grandes papéis, claro, foram Picasso, Charles Dickens e Nixon em três filmes biográficos; o mordomo workahollic no filme The Remains of the Day (o mordomo obsessivo era um dos atributos impagáveis do excelente filme de James Ivory) e o médico Frederick Treves no filme O Homem Elefante de David Lynch (1980). Sem falar, claro, das suas inúmeras participações como ator coadjuvante. Dos filmes mais recentes com Hopkins, admiro especialmente Hearts in Atlantis, com roteiro baseado em Stephen King.

Com uma seriedade inconfundível, Hopkins sempre atribui maior profundidade a seus personagens, dando-lhes um pouco do seu natural mistério. Sua voz é fascinante. Seus olhos sempre parecem fitar alguma coisa além no espaço. Estilo inconfundível, inspira admiração, como aquela que temos quando estamos na frente de um grande sábio. Procuro assistir qualquer filme que o tenha escalado no elenco.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O idealismo de Platão e a Beleza


Este trecho de Platão é especial para mim. Observar a beleza fora das formas conhecidas é o sonho de qualquer humanista, como o de qualquer artista ou filósofo.

Eis o trecho:
Simpósio, 211

"que pensar, então, se fosse dado a alguém ver o belo em si, íntegro, puro, sem mescla, e pudesse mirar não uma beleza contaminada de carne humana, de cores humanas e tantas outras frioleiras mortais, mas a própria beleza divina invariável?"


continua:
"não compreendes que somente nessa altura lhe será dado, mirando a Beleza pelo meio certo de mirá-la, dar a luz não simulacros de virtude, visto que não está em contato com um simulacro, mas virtude verdadeira, pois está em contato com a Verdade?"