quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Notas sobre a beleza (História da Beleza, Humberto Eco)

O Beijo, Francesco Hayez
                “Quem é belo é caro. Quem não é belo não é caro” cantaram as musas nas núpcias de Cadmo e Harmonia, em Tebas, segundo narração de Hesíodo. Será que a beleza é tão cara assim?
                Em sua obra História da Beleza o pensador italiano Umberto Eco trabalha a variação e evolução da beleza no Ocidente a iniciar pela Grécia Antiga até os dias atuais. Começamos com estátuas gregas e terminamos com atores e atrizes de Hollywood. Se a beleza em Hollywood dos anos 40 para os dias de hoje se modificou tão severamente, o que ocorreu nesses milhares de anos de história?
                De acordo com a obra de Umberto Eco, ao ser interrogado sobre qual critério utilizar para avaliar a beleza, o Oráculo de Delfos respondeu que “o mais justo é o mais belo”. Em toda a nossa história perseguimos o fenômeno da beleza e tentamos descobrir normas que regulem esse universo. Contudo, não existem tais normas universais, a beleza se manifesta de variadas formas e o que nos resta é compreender suas manifestações conforme o próprio homem evolui as engrenagens da cultura. A beleza vai mudando e nós vamos mudando junto com ela.
Romeu e Julieta, Sir. Frank Dicksee
                Sou um admirador da beleza. Admiro-a com cuidado, pacatamente, à distância, para que não me fure os espinhos da rosa. Nem todas as belezas do mundo estão expostas como esculturas e pinturas em museus, ou são exibíveis como filmes em salas de cinema. Algumas belezas, como as das pessoas belas, estão por aí se movimentando pelo mundo. E possuem sonhos, ambições, pensam, vivem, desejam. Essas pessoas que nos dignificamos a chamar de belas podem não ser justas, como exige o Oráculo, e muitas vezes não são. Algumas paixões são construídas exclusivamente ao redor dessa admiração cega de beleza. Essas paixões tendem ao desequilíbrio e ao sofrimento do que ama e admira cegamente a beleza do outro.
                A beleza  não está presente apenas em Romeu e Julieta, ela rodeia todo casal de enamorados simplesmente porque é impossível amar aquilo que não consideramos belo. Para se destacar, como disse o Oráculo de Delfos, a beleza precisa se aproximar do justo e não é à toa que a nossa cultura normalmente relaciona a beleza com outro sentimentos nobres, como a justiça, bondade e heroísmo.
                Comecei a postagem falando do valor que a beleza pode ter. De fato, ela pode ter valor incomensurável. Sem a beleza a vida seria sem graça, o que falar de a Garota de Ipanema, música composta a uma jovem anônima que passava na rua e que, conta a tradição, Tom Jobim e Vinicius de Moraes seguiram por metros em Ipanema? A beleza (não apenas a física e humana) é o motriz das artes e inspira produções do período clássico ao caos da arte pós-moderna. O que seria da poesia, da música e do amor, sem a beleza?     
                Inescapável como ela é, a beleza estará presente na vida de todos nós. Haverá os que venderão a alma por um minuto de sua presença, sem jamais a possuir, e haverá os que saberão estar próximos a ela todos os minutos da vida sem jamais se deixar ferir. Basta escolher de qual lado você estará.                   

Brigitte Bardot, ícone do cinema.
James Dean, ícone do cinema.

sábado, 15 de janeiro de 2011

PROCURANDO A ESPADA DO MEU SALVADOR

Livro em Branco

                O texto deveria ser sobre política, mas não há nada de importante a acrescentar. Dilma segue com os seus primeiros cem dias de governo nomeando e mantendo ministros que indicam uma continuidade das diretrizes políticas do governo Lula. Espera-se que ela enfrente a reforma tributária e da previdência. A mais interessante mudança foi na chefia do Banco Central, com todo respeito ao genial Henrique Meirelles.
                
Minhas leituras estão atrasadas, o estudo de Direito também. Os sentimentos, contudo, não atrasam. O coração nunca para de bater. Ultimamente ele tem andando bem tranqüilo e a passos estáveis e equilibrados, com a velocidade de quem não está amando ou de quem vive um amor delicado e monástico por si mesmo.
                Ele irá acelerar sem dúvida nenhuma. Essa pausa não é uma pausa melancólica, é um momento de aprendizado, estou adquirindo maturidade e irei usá-la com eficiência quando o momento chegar. O meu coração dança calmamente ao som da bossa-nova que ainda inspira meus dias, também dá solavancos contidos ao som de bons sambas. Ah, e também suspira com os saxofones do jazz


The world has gone mad today
And good's bad today,
And black's white today,
And day's night today,
And that gent today
You gave a cent today
Once had several chateaux.


(ANYTHING GOES, COLE PORTER)
         
                Estou amando a música? Não, estou cantando ao amor. Não a nenhum amor que eu tenha tido, mas aos amores que virão. Cantando ao rosto ainda sem identidade dessa pessoa que me fita ao longe, o rosto do meu futuro amor. Como ele será?
              Não rezo para ele, contudo, canto para ele todos os dias, Deus há de entender isso como uma prece. Como as mocinhas castas de antigamente sonhavam com seus futuros esposos, único homem de suas vidas, eu sonho com ele. Sem identidade, sim, ainda. Será alto, baixo, branco, negro, como será a cor dos seus olhos?
             Em um texto antigo, eu falo do meu messias, do meu salvador. Existem sinais que percorreram o tempo e que me permitirão identificá-lo quando a hora inevitável chegar. Mas nenhum desses sinais me permitiriam reconhecê-lo na multidão. O messias é esquivo e etéreo, como uma fumaça de charuto percorrendo a escuridão da noite. Sua presença se fará notar, será visível e palatável, apenas não sei como.
             

Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes, nos ensina a não ir atrás de cultivar tristezas de amores passados. É justamente isso que estou fazendo, virando a página do passado e observando as folhas em branco que serão escritas. Não faltará nessas páginas nenhum elemento dos dramas gregos e dos melhores romances do período do romantismo, sem perder toda a brasilidade dos pandeiros e sem perder o charme do samba.
             Será uma bela história de amor e como será!

O poetinha da Bossa: Vinicius de Moraes






sábado, 8 de janeiro de 2011

Pequenas notas sobre o vestido da posse

Decente taier branco, quase transparente, com relevo acentuado.
                    A capa da Veja desta semana (02/01) trás a presidente Dilma Rousseff desfilando um vestido branco com a faixa presidencial verde e amarela nos ombros. A escolhida para desenhar o vestido da posse foi a gaúcha Luisa Stadtlander que veste os Rousseff há alguns anos e que também desenhou o vestido de casamento da filha da presidente. Escolha feita ao gosto da presidente que não abandonou as preferências da família mesmo na hora de escolher o vestido mais importante da sua vida. Esperemos para ver se no futuro a presidente também terá personalidade na hora de optar novamente entre o velho e o novo. Na história da política nacional, Lula e ela foram os políticos a terem a personalidade e aparência mais maquiadas. 
                    Em uma mulher, elegância e estilo são atributos que não podem faltar, escolhas políticas importantes da presidente serão os seus vestidos e o penteado. Dilma não precisa se apresentar impecável, em uma mulher até as gafes podem ter estilo. O vestido da posse, por exemplo, a engordou razoavelmente, mas demonstrou uma Dilma humana. E convenhamos, pelo menos a presidente decidiu que um vestido vermelho seria overdose de petismo justo no primeiro dia de trabalho. Branco é melhor. É sinal de esperança.

Para sair bem nas futuras capas de Veja, a presidente terá que fazer
um bom governo e escolher apropriadamente os vestidos.

domingo, 7 de novembro de 2010

Mais um post sobre sexo (e inevitavelmente sobre amor)



Cena clássica de a Dama e o Vagabundo
O que podemos fazer em um sábado a noite? Encontrar pessoas desconhecidas, abusar do álcool, fumar cigarros, transar por pura diversão. Transar por pura diversão? Confesso que poucas coisas podem ser tão instigantes quanto conhecer a intimidade sexual de uma pessoa, se você se viciar nisso pode sair por aí encontrando pessoas novas e descobrindo o que elas guardam de mais íntimo. Nada como vivenciar aventuras sexuais.
Não vivemos nenhum movimento social revolucionário dos hábitos sexuais, todas as transformações sociais que permitiram nossa sexualidade inusitada já acabaram. O sexo não é mais revolucionário e sentimos um vazio imenso por isso. O grande boom da sexualidade começou nos anos sessenta regado a muita música, inspirado em muito rock. O rock agora não é mais nenhuma novidade, ele vive a sua velhice. O sexo livre é praticado por pessoas em todas as camadas sociais, os antigos ideais que movimentaram a luta da contracultura se separaram do sexo livre. A liberdade sexual agora é um fato inegável para a maioria das pessoas e principalmente para os jovens.
Se antes o sexo era um meio de fazer revolução social, agora o sexo está institucionalizado e incentivado fortemente com apelo na imagem. Porém, nenhum sexo de fim de balada se compara ao sexo que fazemos com a pessoa que amamos. Em uma sociedade que apela excessivamente para a imagem, para a virilidade e para o prazer, algo inevitável ocorreu: o amor romântico foi deixado de lado nessas aventuras de virilidade. Perseguimos a beleza enquanto observamos belos mal resolvidos rechearem nossas cabeças com problemas e confusões. Por que são infelizes se a infelicidade, agora, é uma regalia dos feios e dos mal amados? É que a felicidade e o amor têm forte relação com a beleza, mas essa relação quando corretamente vivenciada sempre identificará beleza na pessoa em que amamos.   
Carrie Bradshaw de Sex and the City sempre faz uma pergunta nas suas colunas sobre sexo que assina em um jornal. A minha vai ser: já se sentiu, ao final de uma relação sexual, como se tivesse faltado alguma coisa, algo mais importante do que prazer?
A maioria de nós já passou por situações assim e isso nos incomoda muito. Não quero ser Arnaldo Jabor e repetir suas tolices de best-seller, mas concordando com ele, em um texto de sua autoria largamente difundido na internet: ESTAMOS COM FOME DE AMOR. Estamos com fome de ser amados da maneira mais démodé. O que queremos mesmo é comer macarrão como os personagens da animação A dama e o Vagabundo e sermos surpreendidos em um beijo. O que buscamos mesmo é o amor idealizado, romantizado, que se manifesta nas coisas mais simples. E não o sexo perfeito que vendem por aí.
Arnaldo Jabor encerra o seu texto denunciando uma verdade: antes ser idiota para os outros do que infeliz para si mesmo! Evite as tentações artificiais que vendem fartamente por aí. Persiga o amor, tenha ele como o seu farol, como seu guia. Faça do amor a estrela  guia que orienta a sua navegação. Se você perseguir o amor, não haverá erro, mesmo perdido no Triângulo das Bermudas.

ARNALDO JABOR. Afinal de contas, o que ele entende de sexo?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

DEPOIS DO RESULTADO FINAL (eleições presidenciais)

Como já se esperava, Dilma Rousseff foi eleita a primeira presidenta do Brasil. Não comentarei aqui as conseqüências de ter uma mulher na chefia do executivo porque no momento histórico em que vivemos isso é mais do que natural. Era um dia que haveria de chegar. Já há alguns anos as mulheres venceram todas as adversidades que as separavam da política. Fica a Dilma como uma alegoria apenas.

O que temos pela frente é a nítida possibilidade da candidata eleita realizar um governo melhor que o do seu predecessor se internacionalmente encontrarmos as mesmas características favoráveis que o governo Lula encontrou. E caso ocorram turbulências fora do Brasil, não é de se esperar que o país reaja com a mesma fragilidade que reagia no governo FHC e nos governos anteriores a ele.  É preciso algo muito mais grave para complicar o país. A crise econômica  mundial trouxe para Lula o ano de menor crescimento econômico de seus oito anos de mandato, mas sem desestabilizar o Brasil. Crises semelhantes ou mais localizadas ainda, em países emergentes como se assistia antes, não deverão causar abalos maiores do que a crise gerada pelos subprimes americanos.

O processo de desenvolvimento pelo qual passamos não foi de oito anos de governo Lula por mais que o PT insista em apostar no fato dos brasileiros terem pouca memória. O processo pelo qual passamos é de dezesseis anos, ou mais tempo ainda, abarcando as conquistas do governo FHC e até conquistas mais antigas em governos anteriores. O PT pretendeu comparar o governo Lula ao governo FHC com a frieza de números que analisados sem nenhum critério maior só servem para endossar o discurso “nunca antes na história deste paiz”. Os governos FHC e LULA enfrentaram dificuldades e momentos distintos para que a análise dos dois seja feita com medidas mecânicas dignas das ciências naturais e não das ciências sociais. O governo Lula só teria sido pior que o governo FHC se tivesse provocado no Brasil um retrocesso digno dos governos mais atrapalhados. As condições dadas a Lula são de longe melhores que as dadas a FHC e a resposta foi mesmo a do progresso natural. Agora, se espera que o PT continue progredindo como demonstrou no governo Lula. O que jamais saberemos, pois ficará no plano da especulação, é qual resultado o PSDB traria ao país quando governasse, em tese, em condições menos ardilosas que as encontradas oito anos atrás.


Em entrevista à Folha de S. Paulo, o cientista político de reputação internacional Joseph Nye foi claro em afirmar que o Brasil evoluiu dramaticamente nos últimos vinte anos. “Vinte anos atrás ninguém levava o Brasil a sério. Era a terra da inflação, nada funcionava. Depois que você passou a ter um real sólido e uma política fiscal sólida, a base do Brasil, com seus recursos naturais, seu potencial, aflorou. Claro que eu dou crédito para Lula, mas eu dou o grande crédito para Cardoso”, afirmou o cientista.

O mais importante agora é que o PT, mesmo narcisista, seja capaz de absorver as críticas que o governo Lula sofreu, pois caso faça isso, poderá governar com resultados ainda melhores. Mas assumir que errou não é uma qualidade petista e não espero que eles sejam capazes de fazer isso agora. O que se publicou nos jornais ontem e hoje anunciam a volta de Palocci e a manutenção de Mantega e Meirelles. Bis in idem é o que todos cogitam, porém, o PT é capaz de muito mais e já nos surpreendeu outras vezes. A política econômica deverá continuar sendo a mesma, a manutenção do tripé básico formulado no governo FHC e que revolucionou o país será mantida (as metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário que foi implantado ainda em 1999), mas nada impede que Dilma Rousseff venha a colocar em prática novas medidas.

Termino o artigo desejando boa sorte à nova presidente e também à oposição para que ela auxilie o país a encontrar o meio termo no debate político para que consigamos, petistas no governo ou não, continuar progredindo. Independente de qual lado político se esteja, o país e os brasileiros são mais importantes que disputas eleitorais e debates ideológicos. Minha parte será feita. Continuarei com o mesmo hobby de escrever sobre política neste espaço e de debater com os amigos as minhas opiniões. Boa sorte, Brasil!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tempestade no meu coração

Rain Storm, Union Square.  Childe Hassam

“Sinto-me como se tivesse sido expelido de um liquidificador, estraçalhado e batido por todos os lados”, foi o que disse a um amigo no telefone recentemente. Os meus sentimentos viraram uma mistura de raiva, dor, frustração e revolta. Não me lembro de quando me vi pautado por sentimentos tão pouco nobres. “Estou andando com dificuldade, por hora preciso da ajuda de uma bengala, não sei quando poderei atirá-la de lado e caminhar por minhas próprias pernas novamente. Estou dormindo com o auxílio de medicação”, falei ao mesmo amigo instantes depois. Passaria todos esses dias embriagado, anestesiado até essa dor passar, mas alguns remédios que tomo não me permitem esses abusos sem pôr em risco a minha saúde.
                Os piores demônios que viviam comigo e que acreditava estarem exorcizados, voltaram à minha companhia, voltaram a ocupar a cabeceira da minha cama. Eles olham para mim com suas faces disformes o tempo inteiro e já não consigo fitar essas aberrações. Não estou em condições de conviver com esses monstros e não tenho crença nenhuma em Deus para rogar em pedido de ajuda.
                Uma constante fúria chuvosa despenca sobre mim. Já verti muitas lágrimas junto a essa chuva morna. A saída somática para minhas dores não são lágrimas, a mais singela representação da dor psíquica, mas sim o vômito. “Como a minha tia fizera quando a sua filha morreu, no velório, ela vomitava para todos os lados”. Sinto inveja de não poder somatizar minhas dores com tanta facilidade. Quem sabe a saída para todo sofrimento humano não seja esse, o vômito? Acho que a minha tia tinha muito que dizer a humanidade com seus reboliços estomacais.
                Que um romance que começou e acabou com a mesma velocidade tenha provocado em mim sensações tão fortes é um sinal do quanto eu preciso amadurecer. O pior mal do idealizador é que quanto mais alto é o sonho, maior é a queda. A realidade não é tão bela quanto aquilo que imaginamos, idealizamos, sonhamos e construímos, diuturnamente quando estamos apaixonados.
                Todas essas angustias acontem porque eu o amo? Disso não tenho certeza. Refazendo meus cálculos, eu descobri que só me apaixonei uma única vez na vida. Esses eventos me fizeram descobrir que o que eu pensava ser o meu segundo amor é na verdade uma invenção causada pela necessidade. Na soma antiga, o D. seria o meu terceiro amor. Contudo, quando releio o meu segundo amor, descubro defeitos gritantes que o jogam na vala comum dos espíritos paupérrimos. O D. é completamente diferente, sua personalidade é uma construção complexa de sentimentos dignos de respeito, ao contrário do outro, ele está no lugar especial dos espíritos luxuosos. Mesmo assim não sei dizer ao certo se o amava ou se ainda o amo. Posso descobrir no futuro que em relação ao meu primeiro amor tudo isso não passou de carinho ou outro afeto menor e menos significativo.
                Dolorosamente, vou caminhando esse labirinto de cercas vivas porque sou obrigado a percorrê-lo em busca de uma saída. Se eu não tenho sorte no amor, serei um jogador falido e compulsivo. Mas sempre rolarei meus dados. Sempre estarei pronto e a espera da hora da sorte, chegue ela um dia ou não.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Antes do resultado final (eleições presidenciais)

Existem algumas coisas que eu pretendo escrever aqui aintes do resultado final das eleições. Vamos a elas.
...
Estamos caminhando para o fim de mais um teste a nossa jovem democracia. O Brasil se redemocratizou recentemente e superamos momentos difíceis em busca do amadurecimento de nossas instituições políticas. Um presidente foi deposto, a imprensa, seja no governo Itamar, Collor, FHC e Lula, nos trouxe escândalos de corrupção que nos fizeram cogitar a descrença na política e na capacidade de nós, brasileiros, governarmos a  nós mesmos. A corrupção, como disse The Economist na sua última publicação, não é particularidade de nenhum partido político no Brasil, mas sim uma característica da política brasileira. Precisamos ser capazes de identificar em cada um dos partidos aqueles que fazem política com seriedade e que trabalham pelo fortalecimento do Brasil.


Sobre as eleições presidenciais, vivemos momentos que mais uma vez nos levaram a desacreditar no futuro. Os partidários do candidato de oposição utilizaram do recurso à religião para conquistar votos de conservadores ligados às igrejas. Isso dividiu as próprias igrejas e os fiéis. Sofremos a possibilidade de ver a campanha presidencial dividir o país em conservadores e liberais como ocorre sempre nas eleições americanas. Não estamos preparados para essas novidades e a população brasileira reagiu chocada a essa divisão. Em contrapartida, os partidários da candidata governista revelaram publicamente detalhes da vida pessoal da mulher de José Serra acusando-a de ter praticado aborto, vilipendiando a intimidade do candidato e indo além daquilo que a imprensa e a política está autorizada a fazer. 


Outro traço das eleições foi a constante presença do Presidente da República nos comícios, nas passeatas e no horário eleitoral. Os esquerdistas críticos do PSDB esqueceram autocrítica na hora de avaliar as conseqüências de uma exposição excessiva como esta que transformou o presidente em um cabo eleitoral. A campanha do PT também se pautou em mentiras deslavadas praticando populismo nacionalista ao ameaçar a população com privatizações que o PSDB jamais cogitou.


 É difícil saber qual dos dois lados errou em grau mais severo, resta-nos assistir a tudo isto estarrecidos.
             
A imprensa está dividida e foi muitas vezes partidária. Em uma clara alegoria disso, tivemos as capas da revista Veja e da revista Istoé, cada qual apontando a contradição de um dos candidatos. Isso demonstrou o embate entre os dois meios de comunicação. Conheço de Estadão e Carta Capital terem assumido o seu voto.
 
 Por um lado esse embate sofrido pela imprensa foi um dos bons acontecimentos dessas eleições. Um jornal e uma revista não devem sempre ser imparciais porque isso coloca em risco o comprometimento do veículo com a verdade. Verdade, como sabemos, é um conceito difícil e fugidio, como sempre ensinou a filosofia. É perfeitamente possível que dois lados acreditem fielmente em suas idéias e as defendam com a força de quem crer estar em defesa da verdade. Algo saudável. Errado seria se os meios de comunicação tivessem formado sua linha editorial com base em interesses políticos ou econômicos o que até agora não foi demonstrado.

O ruim não foi a imprensa ter ido à luta por votos, mas sim o fato dela ter se envolvido em denuncismo e sensacionalismo ao invés de divulgar a proposta dos candidatos e mover as discussões em torno delas. O fato da eleição ter virado uma guerra em que um enfia o dedo no olho do outro é em parte culpa da cobertura da imprensa.


Enfim, eleições para o parlamento e para a chefia do executivo jamais serão perfeitas, porque a imperfeição é inerente aos homens e na hora de tomar decisões tão cruciais para o rumo do país é mais do que normal que nos exaltemos. A questão é saber se evoluímos ou se retrocedemos. Sem fazer um julgamento que valorize um ou outro candidato, respondo a esse questionamento afirmando que sim. Evoluímos, vagarosamente, mas evoluímos. Uma evolução à brasileira.

sábado, 23 de outubro de 2010

Roleta: VERMELHO, 27.

 Nada, a não ser uma noite atípica, fria, próxima ao chuvoso, como uma noite de outubro em Teresina jamais deveria ser. “Assemelha-se ao prenúncio de uma passageira tempestade”, pensei várias vezes. Era esse clima absurdo o que me preocupava até chegar em casa e me envolver em um estranho telefonema. Mal podia saber que o céu despencaria e seria sobre a minha cabeça.
Eu lhe liguei como ligava costumeiramente antes de dormir. Mas dessa vez ele não teve a mesma conversa amável de sempre, ao invés disso, começou a falar coisas estranhas que eu nunca tinha ouvido antes. Ele me disse que não tem certeza se me ama, não sabe se deve ficar comigo, ele acha que precisa conhecer o  mundo, acha que se envolver comigo seria prematuro porque eu sou a primeira pessoa com quem ele teve tanta proximidade. Que azar o meu, que azar. Se eu fosse a terceira, quarta, ou quinta pessoa, talvez ele agora estivesse comigo e tivesse certeza de que me ama. Mas eu tive o azar de ser o primeiro, como me perdoar, como perdoar o destino?
Sorte no amor ou sorte no jogo? Acho que deveria me mudar para Las Vegas. Lá é meu lugar, entre os jogadores, não nesse mundo, entre os amantes. O amor só tem me causado transtornos, sem nenhum ressentimento, impiedosamente, o amor tem sido para mim como um predador. “O amor adora consumir a minha carne e esbaforido deixar os restos para as hienas e para os abutres”.
         Depois do estranho telefonema, decidi ir beber. É o que faço sempre que me sinto chocado, de felicidade ou não. Comecei com algumas cervejas em um bar e terminei com um litro de cachaça em minha casa. Será que eu o amo? Sem dúvida nenhuma, eu o amo. Amo cada pequeno pedaço do corpo dele que eu possuí. Amo cada pequena fragilidade que eu percebi na sua nudez, na sua personalidade. Amo cada defeito que eu conheci e que pretendia aprimorar. “Ele está melhor agora, aprendeu muita coisa comigo e vai treinar seu aprendizado com os amantes que reclama de nunca ter possuído”.
         Depois que ele me falou ao telefone tudo aquilo que tinha para me dizer, senti-me arrasado. “Estou arrasado, graças a deus”. Levei as mãos à cabeça compulsivamente, puxando os cabelos para trás, como as pessoas desesperadas fazem. Isso é uma prova que mesmo com o desastre que foram alguns dos meus romances, eu ainda estou preparado para amar, ainda estou preparado para sofrer de amor. Ele, o amor, não me deixou insensível e indiferente. Ele não consumiu a minha inocência.
“Estou arrasado. Estou arrasado, graças a deus!”.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A via da inocência

Marina Silva (PV) conquistou um número expressivo de votos no primeiro turno das eleições presidenciais e foi a responsável pela existência do segundo turno. Agora os dois candidatos se preocupam em seduzir o Partido Verde. Mas o que está por detrás desse fenômeno que fez de Marina Silva a galinha dos ovos de ouro?
                A resposta só pode ser uma: inocência. Inocência do eleitorado e não de Marina Silva. Desde o começo da eleição ela soube como atrair os eleitores desencantados com o PT e sem coragem de assumir o voto no PSDB. Vendendo uma “terceira via”, que teria como objetivo “quebrar o plebiscito no país” a candidata atraiu toda sorte de desavisados com o seu discurso excessivamente ideológico, do mundo da fantasia.
Marina Silva despertou no coração dos “marineiros” aquela velha centelha infantil que trazemos dentro de nós desde crianças, quando vivemos no mundo dos contos de fadas. No Brasil inteiro gente de todas as classes sociais se identificou com o ato cristalino, puríssimo, que seria o voto na candidata. E foram levar seu inexpressivo partido às urnas quebrando a dicotomia PT-PSDB.
Nem o PT dos escândalos revelados pela imprensa, nem o PSDB de Serra aliado a antigos grupos políticos que já governaram o país. “Tudo menos um candidato que cheire a política como ela é, tudo menos a dura realidade” era o mantra que os eleitores levaram às urnas para votar no Partido Verde. Mas porque votaram se a Marina Silva nunca teria sido eleita? Porque é assim mesmo com as coisas divinas e intangíveis, elas nunca se materializam na realidade. Marina Silva pertence o mundo das idéias, onde segundo Platão, os seres encontram sua perfeição ontológica, ela não é daqui. Ela é um verde alienígena.
Alfabetizada tardiamente, antiga doméstica, vítima de doenças e perversidades da floresta que tanto defende, Marina Silva tem todas as características necessárias para atrair essa parte do eleitorado que anseia por uma alternativa ao duro mundo da politicagem brasileira. Ela lembra um pouco o Lula sertanejo celebrado pelo PT hodiernamente e representado em filme.  
Um choque de realismo, contudo, foi a dado a ex-presidenciável agora que o Partido Verde ameaça uma revolta. Marina Silva está tendo problemas para acalmar a fúria do partido por cargos, ministérios e negociatas. Ela deseja debater de maneira limpa os programas de governo e não fazer coligação oportunista. Ontem ela cancelou uma reunião com a direção do PV.
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E agora, Marina Silva, você vai apoiar o PT ou PSDB e condicionar seu discurso ideológico ao realismo do factível, desapontando seus eleitores ao verem pela primeira vez uma Marina real? É esperar para ver.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O PT e a Imprensa


           A última aventura petista foi contra a imprensa livre. De José Dirceu a Lula, vários petistas foram demonstrando sua inclinação autoritária. Estão inconformados com a imprensa porque ela não está ocupada em participar do “oba-oba” que o partido pretende fazer valer nessas eleições. Queriam uma imprensa que louvasse os supostos acertos do governo, assim como eles fazem na propaganda eleitoral e na propaganda governamental – nesta última de maneira mais sutil. Como a imprensa não concorda que o governo foi o maior acontecimento da história desse país, só pode estar alucinada. É assim que o problema é visto do ponto de vista do PT.

Houve quem acusasse a imprensa de “golpista”. Estaria a imprensa movimentando interesses partidários quando na verdade ela apenas cumpre com o seu papel em uma democracia: o de fiscalizar o governo. Quanto ao escândalo Erenice Guerra, talvez a imprensa tenha prestado um favor a Dilma Rousseff. Quem imagina qual função a protegida da candidata petista viria a ocupar em um possível governo? Quem sabe tenha sido melhor a bomba explodir agora no que nas mãos de Dilma.
       
            Na Bahia, José Dirceu acreditava estar longe dos reportares em uma palestra para sindicalistas. Era Dirceu em mais um dia de suas vastas ocupações partidárias pós-escândalo do mensalão. O PT não baniu nenhum dos envolvidos no caso (o companheirismo é algo sem fim no PT), e não seria diferente com o companheiro José Dirceu, antigo segundo homem do governo Lula. Então, falando para essa platéia e para as futuras prateias que o petismo ainda lhe proporcionará, Dirceu explanou suas opiniões sobre a imprensa no Brasil. Existiria um “excesso de liberdade” e concluiu "o problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa.". As falas de Dirceu falam por si só. Derrubado por um escândalo que nasceu no Congresso e que a imprensa só fez divulgar, ele agora declara suas mágoas.

Porém, o que pensa Dirceu é mais do que o que pensa Dirceu. É o que pensa o PT e é o que pensa o presidente Lula. No background, apagado, mas não morto, Dirceu ainda participa de atividades partidárias e freqüenta o governo na intimidade da amizade que possui com os seus principais protagonistas. Se ele pensa assim é porque a nata do petismo pensa igual e se o presidente não está com eles é capaz que José Dirceu o convença do contrário.

Mas assustador que Dirceu, contudo, foi o Sindicato de Jornalistas de São Paulo ter organizado uma manifestação contra o “golpismo midiático”. A manifestação atraiu a presença de Luiza Erundina (deputada federal PSB/SP). Foi uma panfletagem organizada pelo PT, CUT, MST e UNE. Isso mostra o quanto alguns movimentos sociais e sindicatos ainda mantêm afinidade com o governo. O objetivo do encontro era “redigir um documento, assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras”. O movimento chegou a sugerir uma auditoria nas contas da Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo. E disse “sugerimos que todos assinemos publicações comprometidas com a democracia e os movimentos sociais, como a Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Revista do Brasil, jornal Brasil de Fato, jornal Hora do Povo”.

O grupo organizado em torno do Sindicato de Jornalistas de São Paulo deu nome aos bois. O que eles chamam de “grande mídia” é certamente a Editora Abril, o Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo, mesmo nomes em que foi sugerida a auditoria nas contas. O movimento tem o direito de manifestar sua opinião e de se organizar para redigir documentos, levantar assinaturas e todo o resto. Eles podem até demonstrar apreço por um ou outro jornal e revista, conforme a linha editorial dos mesmos. O que não podem é querer impedir qualquer jornal de manifestar livremente a sua opinião.

No Clube Militar do Rio de Janeiro jornalistas participaram de uma discussão sobre os riscos de censura à imprensa. O tema do encontro era “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão." É isso mesmo o que o senhor ou senhora leu, são jornalistas ameaçando a imprensa  em São Paulo e militares ocupados de defendê-la no Rio de Janeiro.

PS: O que é mais perigoso, uma imprensa que critica o governo ou uma imprensa submissa aos interesses dele?