sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A via da inocência

Marina Silva (PV) conquistou um número expressivo de votos no primeiro turno das eleições presidenciais e foi a responsável pela existência do segundo turno. Agora os dois candidatos se preocupam em seduzir o Partido Verde. Mas o que está por detrás desse fenômeno que fez de Marina Silva a galinha dos ovos de ouro?
                A resposta só pode ser uma: inocência. Inocência do eleitorado e não de Marina Silva. Desde o começo da eleição ela soube como atrair os eleitores desencantados com o PT e sem coragem de assumir o voto no PSDB. Vendendo uma “terceira via”, que teria como objetivo “quebrar o plebiscito no país” a candidata atraiu toda sorte de desavisados com o seu discurso excessivamente ideológico, do mundo da fantasia.
Marina Silva despertou no coração dos “marineiros” aquela velha centelha infantil que trazemos dentro de nós desde crianças, quando vivemos no mundo dos contos de fadas. No Brasil inteiro gente de todas as classes sociais se identificou com o ato cristalino, puríssimo, que seria o voto na candidata. E foram levar seu inexpressivo partido às urnas quebrando a dicotomia PT-PSDB.
Nem o PT dos escândalos revelados pela imprensa, nem o PSDB de Serra aliado a antigos grupos políticos que já governaram o país. “Tudo menos um candidato que cheire a política como ela é, tudo menos a dura realidade” era o mantra que os eleitores levaram às urnas para votar no Partido Verde. Mas porque votaram se a Marina Silva nunca teria sido eleita? Porque é assim mesmo com as coisas divinas e intangíveis, elas nunca se materializam na realidade. Marina Silva pertence o mundo das idéias, onde segundo Platão, os seres encontram sua perfeição ontológica, ela não é daqui. Ela é um verde alienígena.
Alfabetizada tardiamente, antiga doméstica, vítima de doenças e perversidades da floresta que tanto defende, Marina Silva tem todas as características necessárias para atrair essa parte do eleitorado que anseia por uma alternativa ao duro mundo da politicagem brasileira. Ela lembra um pouco o Lula sertanejo celebrado pelo PT hodiernamente e representado em filme.  
Um choque de realismo, contudo, foi a dado a ex-presidenciável agora que o Partido Verde ameaça uma revolta. Marina Silva está tendo problemas para acalmar a fúria do partido por cargos, ministérios e negociatas. Ela deseja debater de maneira limpa os programas de governo e não fazer coligação oportunista. Ontem ela cancelou uma reunião com a direção do PV.
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E agora, Marina Silva, você vai apoiar o PT ou PSDB e condicionar seu discurso ideológico ao realismo do factível, desapontando seus eleitores ao verem pela primeira vez uma Marina real? É esperar para ver.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O PT e a Imprensa


           A última aventura petista foi contra a imprensa livre. De José Dirceu a Lula, vários petistas foram demonstrando sua inclinação autoritária. Estão inconformados com a imprensa porque ela não está ocupada em participar do “oba-oba” que o partido pretende fazer valer nessas eleições. Queriam uma imprensa que louvasse os supostos acertos do governo, assim como eles fazem na propaganda eleitoral e na propaganda governamental – nesta última de maneira mais sutil. Como a imprensa não concorda que o governo foi o maior acontecimento da história desse país, só pode estar alucinada. É assim que o problema é visto do ponto de vista do PT.

Houve quem acusasse a imprensa de “golpista”. Estaria a imprensa movimentando interesses partidários quando na verdade ela apenas cumpre com o seu papel em uma democracia: o de fiscalizar o governo. Quanto ao escândalo Erenice Guerra, talvez a imprensa tenha prestado um favor a Dilma Rousseff. Quem imagina qual função a protegida da candidata petista viria a ocupar em um possível governo? Quem sabe tenha sido melhor a bomba explodir agora no que nas mãos de Dilma.
       
            Na Bahia, José Dirceu acreditava estar longe dos reportares em uma palestra para sindicalistas. Era Dirceu em mais um dia de suas vastas ocupações partidárias pós-escândalo do mensalão. O PT não baniu nenhum dos envolvidos no caso (o companheirismo é algo sem fim no PT), e não seria diferente com o companheiro José Dirceu, antigo segundo homem do governo Lula. Então, falando para essa platéia e para as futuras prateias que o petismo ainda lhe proporcionará, Dirceu explanou suas opiniões sobre a imprensa no Brasil. Existiria um “excesso de liberdade” e concluiu "o problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa.". As falas de Dirceu falam por si só. Derrubado por um escândalo que nasceu no Congresso e que a imprensa só fez divulgar, ele agora declara suas mágoas.

Porém, o que pensa Dirceu é mais do que o que pensa Dirceu. É o que pensa o PT e é o que pensa o presidente Lula. No background, apagado, mas não morto, Dirceu ainda participa de atividades partidárias e freqüenta o governo na intimidade da amizade que possui com os seus principais protagonistas. Se ele pensa assim é porque a nata do petismo pensa igual e se o presidente não está com eles é capaz que José Dirceu o convença do contrário.

Mas assustador que Dirceu, contudo, foi o Sindicato de Jornalistas de São Paulo ter organizado uma manifestação contra o “golpismo midiático”. A manifestação atraiu a presença de Luiza Erundina (deputada federal PSB/SP). Foi uma panfletagem organizada pelo PT, CUT, MST e UNE. Isso mostra o quanto alguns movimentos sociais e sindicatos ainda mantêm afinidade com o governo. O objetivo do encontro era “redigir um documento, assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras”. O movimento chegou a sugerir uma auditoria nas contas da Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo. E disse “sugerimos que todos assinemos publicações comprometidas com a democracia e os movimentos sociais, como a Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Revista do Brasil, jornal Brasil de Fato, jornal Hora do Povo”.

O grupo organizado em torno do Sindicato de Jornalistas de São Paulo deu nome aos bois. O que eles chamam de “grande mídia” é certamente a Editora Abril, o Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo, mesmo nomes em que foi sugerida a auditoria nas contas. O movimento tem o direito de manifestar sua opinião e de se organizar para redigir documentos, levantar assinaturas e todo o resto. Eles podem até demonstrar apreço por um ou outro jornal e revista, conforme a linha editorial dos mesmos. O que não podem é querer impedir qualquer jornal de manifestar livremente a sua opinião.

No Clube Militar do Rio de Janeiro jornalistas participaram de uma discussão sobre os riscos de censura à imprensa. O tema do encontro era “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão." É isso mesmo o que o senhor ou senhora leu, são jornalistas ameaçando a imprensa  em São Paulo e militares ocupados de defendê-la no Rio de Janeiro.

PS: O que é mais perigoso, uma imprensa que critica o governo ou uma imprensa submissa aos interesses dele?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

(PRIMAVERA)


Primavera, Carl Larsson
               As nuvens começam a se dissipar e os primeiros raios de sol surgem anunciando o fim da tempestade. O calor volta a abraçar os espectadores que admiram da janela o retorno da esperança. É a volta da vida após o susto.
             
            Abro a janela e o vento, ainda forte, penetra no meu corpo. Ele carrega um pouco do calor do sol. Os traços do céu ainda são pesados, mas existe um prenúncio de alegria. Contagiado pelos anúncios de sol, já sinto o dia claro, azulado e acompanhado de uma orquestra de pássaros. É primavera no meu coração.
    
             O amor não deve ser outra coisa senão uma primavera. O amor é o cuidado com o outro e o cultivo da inocência. Não pode haver amor onde não houver pureza. O amor há de ser nobre, o mais nobre dos sentimentos. O sangue dos amantes deve ser azul, principesco, jovial e corajoso.  O amor deve se aproximar de Apolo, com forma muscular bem cultivada e harmônica, além de intelectualmente criativo e poético. A perfeição da mente e do corpo, esse deve ser o retrato mais aproximado do amor. O amor de dois verdadeiros amantes, ao se materializar, deve se materializar como Apolo.
        
           Nos concertos as Quatro Estações de Vivaldi a primavera se apresenta rica em sons, em variações, aflorada e transmissora de vida, ao oposto do verão que a segue grave e imperioso.  É convidativa, como deve ser convidativo aos amantes aproveitar a beleza das cores que ganham especial destaque nessa época do ano. As quatro estações estão perfeitamente representadas na obra de Vivaldi. Junto com os poemas que a acompanham, percebemos um cuidado em expressar em sons as sensações despertadas pelas estações. Mais do que uma estação do ano,  porém, a primavera, verão, outono e inverno são sentimentos, estados psicológicos, que podem ser perfeitamente internalizados. O que eu internalizo agora é a primavera.  
       
           Como em La vie en rose (Edith Piaf) vejo a vida em cor-de-rosa. Como diz a música, “entrou no meu coração um pouco de felicidade e conheço a causa”. É a presença do amor. Ele me trouxe a estrela da manhã, que impera a sua luz mesmo com o fim da noite. Solitária apenas no céu, a estrela da manhã vive a graciosa companhia do meu olhar atento a fitá-la. Somos amantes, e não à distância, o mesmo céu que ela brilha é o céu dos meus sentimentos.     

Estou realmente experimentando uma primavera no meu coração? Não sei. Entretanto, nunca vi um anúncio de fim de tempestade como esse. Ao que tudo indica há de se seguir o azul e aguardo impaciente que o azul siga.
   
           Independente de como o tempo vá se comportar, uma coisa posso garantir: sei como o amor deve se representar. Ele virá acompanhado de um concerto de Vivaldi, tingindo o céu com seus matizes coloridos e me transmitindo, antes de tudo, esperança.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lamaçal na Casa Civil



Cinco dias de desgaste até a ministra da Casa Civil Erenice Guerra pedir demissão. O pedido de demissão na verdade esconde uma exoneração do Presidente. Até a publicação da reportagem desta semana na revista Veja, tudo indicava que a ex-ministra continuaria no cargo. Porém, as denúncias feitas por Folha de São Paulo fizeram transbordar o copo, foram a gota d’água. A ministra caiu.
Amigada da candidata Dilma Rousseff, a ex-ministra ocupou cargos relacionados com o Ministério de Minas e Energia e depois que Dilma foi alçada, pós-escândalo do mensalão, à condição de Ministra da Casa Civil, acompanhou a colega e passou a ser secretária-executiva do ministério. Para onde fosse Dilma, era levada a colega Erenice. Será que Dilma desconhecia as práticas dos filhos de Erenice, tendenciosos a fazer lobby em contratos volumosos com o governo, tudo com o consentimento e participação da mãe? Bom, isso a candidata nega, mas o bom senso só pode nos levar a imaginar o contrário.
O filho de Erenice, Israel Guerra, além de lobista, ocupava um cargo na Terracap, vinculado ao Distrito Federal. Recebia R$ 6.800 sem pisar no serviço. Funcionário fantasma, portanto. Israel Guerra também ocupou cargos na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).
A empresa do filho de Erenice Guerra prometeu a empresários intermediar com a sua mãe um financiamento com o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Social). Em troca, a empresa de Israel Guerra embolsaria seis parcelas de 40 mil e 5% do valor total do contrato. Os empresários se negaram a  propina. Em reportagem da revista Veja, ficou demonstrada a participação da mesma empresa na facilitação de um negócio entre um grupo do setor aéreo e os Correios. Tudo com a participação da ex-ministra, que inclusive teria se reunido com os empresários. Partes das falcatruas ocorreram ainda na era Dilma na Casa Civil.
A ex-ministra prometeu contra-atacar a revista Veja por meios legais. “Sinto-me atacada em minha honra pessoal e ultrajada pelas mentiras publicadas sem a menor base em provas ou em sustentação na verdade dos fatos, cabendo-me tomar medidas judiciais para a reparação necessária. E assim o farei. Não permitirei que a revista 'Veja', contumaz no enxovalho da honra alheia, o faça comigo sem que seja acionada tanto por danos morais quanto para que me garanta o direito de resposta"

O impacto das denúncias sobre as eleições é incerto. Pesquisa divulgada recentemente demonstrou que apenas 1 em cada 10 eleitores se sente bem informados sobre as quebras de sigilo de pessoas ligadas à Serra. Não duvido que grupo ainda menor se demonstre informado sobre as denúncias na Casa Civil que revelam ter o principal ministério do governo se transformado em palco de negociatas e corrupção.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lula: o extirpador

Em declarações em um comício em Santa Catarina Lula afirmou “nós precisamos extirpar o DEM da política brasileira”, mais a frente, no mesmo discurso, Lula complementa “nós já aprendemos demais, já sabemos quem são os Bornhausen. Eles não podem vir disfarçados de cordeiros. Já conhecemos as histórias deles”. Além de verbalizar seus planos maliciosos contra o DEM, o Presidente aproveitou para alfinetar os Bornhausen, lideranças de Santa Catarina.

As declarações são chocantes, o maior problema, porém, é saber se Lula realmente se sente em condições de extirpar um partido do cenário político. Será que ele estaria com tanta bola assim? Sabemos que o DEM é o principal aliado do PSDB nessas eleições e eixo da oposição ao petismo, um partido de larga tradição que sempre esteve no centro dos principais acontecimentos políticos do Brasil. A extirpação do DEM só beneficiaria o PT e prejudicaria a democracia instituindo o monopartidarismo no Brasil. Talvez seja este o sonho atual do PT.

O deputado federal e presidente do DEM Rodrigo Maia (DEM/RJ), em rebate às críticas de Lula afirmou que “o discurso mostra que o Lula está desequilibrado. Presidente que fala em extirpar partido político em pleno processo eleitoral revela seus pendores autoritários”. E completou: "o caminho para extirpar o adversário é na linha da Alemanha nazista. O presidente age de forma autoritária ao invés de deixar o eleitor decidir”.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também percebeu o autoritarismo do discurso, "isto extrapola o limite do estado de direito democrático", e continuou "faltou quem freasse o Mussolini. Alguém tem que parar o Lula". Finalizando, afirmou o ex-presidente: "para o equilíbrio dos poderes. O Presidente está extrapolando o poder político." Já o deputado federal Paulo Bornhausen (SC) afirmou que "Lula tentou dividir o Brasil em dois países, de pobres e ricos".

Todos esses acontecimentos só nos revelam o quanto presidente perdeu as estribeiras, a modéstia, e diante da alta popularidade que experimenta – fruto exclusivamente dos sucessos da política econômica que somente seguiu o óbvio da cartilha das regras de economia – se transformou em um super-lider, em um megalomaníaco, em um incitador de massas.

Com o bolso cheio de dinheiro (graças a uma política econômica que não passa de uma excelente continuidade do governo FHC) a classe média não tem do que reclamar e com a origem popular do presidente a classe trabalhadora também se desmancha em afeto por Lula. Agradar a gregos e troianos é perfeitamente possível, comprovou o PT. E diante de tanto êxito o Presidente há muito tempo perdeu a compostura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DO ALTO DO PEDESTAL PETISTA




A invasão de dados sigilosos de membros do PSDB e familiares do candidato à presidência José Serra mostra o quanto o PT se sente protegido pela opinião pública para praticar atos ilegais. O partido passou a abusar da popularidade aderindo a pratica da bisbilhotagem e arapongagem. Blindado pelo povo e dentro da velha máxima de que os fins justificam os meios, o PT não poupa esforços para vencer as eleições e se afirmar no poder.


Além da violação de dados relacionados com a Receita Federal, o PT também se envolveu na confecção de um dossiê do candidato José Serra montando uma quadrilha de espionagem que envolveria até um ex-delegado da polícia federal e um egresso da inteligência da FAB.


Difícil tem sido para José Serra explicar aos eleitores -- em que a maioria nunca sequer declarou imposto de renda na vida -- a gravidade dessas violações. O Presidente da República, cuja principal ocupação deve ser governar o país, tem aparecido diariamente na televisão para incitar seus apoiadores. O presidente disse que Serra partiu para a “baixaria”. Será baixaria demonstrar indignação por ter a vida pessoal de seus parentes revirada pela espionagem petista?


A seu turno, no exílio, em entrevista dada à revista Istoé, FHC revelou estar de malas prontas para a Europa. Na propaganda partidária do PSDB o ex-presidente não apareceu uma única vez ao lado do candidato José Serra. Alguns intelectuais com quem tenho conversado têm dividido comigo a opinião de que o fracasso do PSDB nessas eleições tem uma relação direta com a demonização de FHC, promovida lentamente pelo PT e pela oposição do antigo governo tucano. O governo FHC recebeu como herança dos outros governos a mesma oposição charlatã, ingênua e dada a factóides que se contrapunha aos presidentes brasileiros os acusando, como só sabem fazer, de serem elitistas.


O governo FHC foi o primeiro governo da redemocratização a não experimentar um caos econômico generalizado e escândalos de corrupção capazes de desconstituir as bases da melhor democracia. Não resta dúvida de que o governo FHC foi crucial para a retomada do crescimento econômico e amadurecimento das instituições. O maior erro do PSDB é, sem dúvida, não ter combatido os factóides movidos pela sua oposição, revelando a importância e qualidade do governo FHC. O ex-presidente disse à Istoé que será redimido pela história, espero que o Brasil não seja tão ingênuo ao ponto de esperar que o “oba-oba” petista chegue ao fim para acertar os créditos com o seu passado.


Ao eleger o PT pela primeira vez, o povo brasileiro achava estar optando por uma moralização que o partido traria à política brasileira, em contraponto a uma política corrupta e ineficiente que eles identificavam, erradamente, como tendo sido continuada no governo FHC. O povo não votou só contra FHC, votou contra a política em sua generalidade imaginando que o PT fosse capaz de remover todos os vícios da política brasileira, vícios que demoraram séculos para se constituírem, e como mostraram os fatos, mantiveram-se no governo petista.


Agora, o PT insiste em números e dados que revelam o crescimento econômico e desenvolvimento social da era Lula. A propaganda partidária petista incita o povo a um verdadeiro “oba-oba” em torno de suas realizações, o que não passa de uma ilusão propagandista. Desleal, Lula desponta ao povo como único responsável pelas benesses que o Brasil experimenta. Inebriado pelo apoio da opinião pública, Lula se mostra como ícone, como salvador da pátria. O fascínio que as camadas mais pobres da população têm demonstrado pelo lulismo tem se mostrado mais forte que qualquer artifício usado pelas antigas elites do Brasil para dominar os pobres e se manter no poder. Agora nos resta tentar prever por mais quantos anos o povo brasileiro se permitirá contaminar pelas falácias petistas.


Em meio a tudo isso, uma pergunta fica no ar: que momento será esse em que o povo brasileiro derrubará Lula (ou Dilma) do salto?



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quarta-feira, 25 de agosto de 2010 (And all that jazz)

Se eu pudesse comparar os meus dias a uma ópera, seria como um ato onde o protagonista, sufocado com seus pensamentos, reflete sozinho sobre os eventos da sua vida, aprisionado em suas próprias desgraças. Pela minha cabeça surgiriam todas as personagens da história, as principais falas, os principais acontecimentos, em uma progressão doentia, fazendo-me cair em um buraco negro, como se o chão faltasse aos meus pés. Aos gritos, eu desabaria ao som da ópera através do vazio escuro da minha consciência enquanto os violinos desesperadamente acompanhariam a minha espiral de loucura.


O que me salva desses dias sufocantes é o som da música. Tenho vivido na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong todos os amores que deixei de viver. A música me desloca dos meus desesperos e abre para mim a porta dos amores, sonhos e sentimentos alheios. Um momento em que saio de mim e alcanço o universo dos outros. Um novo amor para cada composição, “dream a little dream of me”. Posso beijar o meu amor e lhe dizer coisas doces por quantas horas quiser, podemos dançar lentamente ao compasso da melodia de um jazz sensacional. Mesmo que esse amor não exista, mesmo que ele tenha me abandonado.


“Doces sonhos até os raios de sol te encontrar/ doces sonhos que deixam todas as preocupações para trás/ mas em seus sonhos quaisquer que eles sejam/ sonhe um pequeno sonho comigo”. Sweet dreams till sunbeams find you/ Sweet dreams that leave all worries far behind you/ But in your dreams, whatever they be/ Dream a little dream of me”.


Nem a sombra mais vertical e febril dos meus amores mal resolvidos poderá vencer a alegria regozijante dos amores que virão. Mesmo com todo o desamor, mesmo com todo o descaso, mesmo com o desprezo, essa sombra ultrapassada não projetará sua força sobre os meus sonhos e meu futuro. Nenhuma vez essa sombra agrediu a minha inocência: vou amar sempre sem nenhum cuidado e com toda as minhas forças. A minha vida ainda será como uma bela música de jazz, para belos e felizes amantes. E cada vez mais ela se distanciará de uma ópera dramática. Será um ato com dois personagens, dançando nas nuvens a imensidão da paixão e do jazz.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Os mitos das eleições 2010


A corrida eleitoral para presidente está iniciada. É hora de começarmos a refletir sobre o nosso voto. Uma boa maneira de iniciar essa reflexão é eliminando alguns preconceitos, sofismas, que andam sendo ditos por aí nas rodas de discussão de política. Falarei aqui de alguns mitos sobre o PSDB e o governo Fernando Henrique Cardoso.

O primeiro dos mitos é o de que o Brasil está em uma fase áurea e que correria riscos caso sofresse uma transição para um governo do PSDB. Ledo engano. A política econômica estará segura mesmo porque os seus grandes idealizadores saíram do grupo tucano. Quando Lula assumiu o governo o fez sobre forte pressão internacional que elevou o dólar ao patamar de R$ 4,00. Uma das primeiras medidas de Lula foi indicar um nome tucano para a presidência do Banco Central – Henrique Meireles. A indicação acalmou os ânimos internacionais e provou que o PT não estava no governo para cometer burrices.

A queda do câmbio, do risco Brasil e das taxas de juros ocorreram graças a manutenção de uma política econômica inaugurada no governo FHC e demonizada pela oposição da época. O governo Lula manteve juros altos e forte superávit primário enquanto sentiu que os dois eram necessários ao Brasil. Pagar a conta do FMI, baixar os juros, feito por Lula, só foi possível graças a uma política econômica desenvolvida lentamente nos mandatos tucanos.

Outro mito é acreditar que os programas sociais do governo podem diminuir a expansão. O atual programa Bolsa Família é semelhante aos criados por FHC, a Bolsa Escola e a Bolsa Alimentação. Durante o seu governo o gasto em programas de assistência social duplicou de R$15 bilhões para R$ 30 bilhões de reais Houve evolução na saúde trazida pelos remédios genéricos e pelo nosso programa de combate à AIDS reconhecido mundialmente.

É também imaginado por alguns que o governo FHC vendeu o país. As privatizações, contudo, foram benéficas aos brasileiros, trazendo modernidade para a área de telecomunicações e reativando a Vale que se encontrava sucateada. O estado deixou de se ocupar de atividades que não são da sua alçada para que a iniciativa privada realize com a eficiência necessária.

O governo FHC enfrentou sérias crises mundiais (crise do México, crise asiática, crise russa e argentina) além de um caos energético causado pelo apagão. Lula enfrentou uma das maiores crises mundiais só que com a sorte de ter economizado por tempo suficiente para ajustar as contas. No saldo total, o cenário internacional termina por ser mais confortável nos últimos oito anos do que na era FHC.

Combatidos alguns desses mitos, está o eleitor mais preparado para saber em quem irá votar nessas eleições. Essa é a intenção do artigo. O importante, por hora, é entender que os créditos pelo período de bonança precisam ser justamente divididos.

domingo, 4 de julho de 2010

Uma pausa para a MÙSICA


Fui ao Festival de Inverno de Pedro II. Como o festival é conhecido pela música de qualidade, fiquei inspirado para escrever um pouco do pouco que sei sobre música.

Minha relação com a música começou com a experiência do rock. Aos poucos migrei do rock para outros gêneros. Como Cazuza, fui para a MPB. Da MPB progredi para a música clássica, para o jazz e para o blues. Até hoje esses gêneros são os pilares do meu templo musical.

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Com a passar do tempo meu ouvido se tornou um verdadeiro pandemônio. Com os recursos que a internet disponibiliza ficou fácil garimpar qualquer raridade. Sou da nova geração e mesmo assim ainda lembro a dificuldade com que se conseguia achar CDs em lojas especializadas ou emprestado com os amigos.


A título de exemplo, é graças a internet que descobri alguns artistas africanos. Esses africanos são excelentes na percussão e no saxofone. Recomendo a todos que escutem um pouco de afrobeat, uma batida meio pro lado do jazz, das músicas de raízes tribais africanas e do funk. Manu Dibango (um saxofonista do Camarões) é o meu preferido no gênero. O grande astro do gênero, contudo, é Fela Kuti um instrumentalista nigeriano que fez sucesso nos anos 70 com seu grupo AFRICA 70. Os negros estão envolvidos nas melhores músicas produzidas no século XX, no EUA eles estão relacionados com o jazz e o blues, no Brasil, com

o samba. Na África, casa dos negros, a criatividade não fica atrás. E Atualmente é impossível rejeitar o hip-hop e a soul music americana.


Com os recursos tecnológicos que possuímos a música produzida em qualquer tempo é acessível a qualquer um e graças a facilidade de reprodução posso fazer uma orquestra inteira tocar na minha sala As Quatro Estações de Vivaldi ou Fuel de Metallica. Em meu musical maluco todos podem dançar na chuva.


Houve uma época, motivado pelo estudo dos compositores clássicos, em que pensei que talvez devesse me afastar da realidade por uns tempos e cultivar os valores musicais do passado. Ledo engano. Nada pode ser mais infeliz do que deixar passar a sua própria época, do que deixar de observar como os seus vão adicionando novas páginas na história da arte. Não é inconciliável Wagner e Bach, nem tampouco o rock e a música clássica. A própria música erudita evoluiu graças a quebra de paradigmas.


E o difícil e divertido é conciliar gêneros musicais antagônicos. As misturas e possibilidades com que se pode trabalhar assustam os mais ortodoxos. Só que ortodoxia é o oposto da heterodoxia que se tornou a complexa música do nosso tempo, que é, quem sabe, a música de qualquer tempo. A qualquer música.


O meu começo com o rock não guardou nada de muito especial, é como geralmente acontece aos adolescentes. Meus amigos começaram a fazer bandas e a ouvir os rockeiros e logo todos estávamos vivenciando o rock como estilo de vida. Como a mãe do Cazuza disse em uma entrevista: "queria que fosse apenas o rock, mas o rock não existe sem o sexo e as drogas". Na minha vida não foi diferente e o meu corpo guarda as seqüelas do que esse trio é capaz de fazer.

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Muitos grandes nomes da música brasileira dos anos sessenta em diante surgiram enquanto o rock explodia ao redor do mundo. Apesar de distantes dos instrumentos elétricos e do som pesado, os nacionais sempre tiveram semelhança, ao menos no espírito, com os rockeiros americanos e europeus. O ambiente libertino, de contracultura, atraiu a mim com um fascínio tão grande quanto fizeram os rockeiros. Ouvir Elis Regina tocar Aldir Blanc e João Bosco é uma memória muito viva do meu passado e um hábito vivo ainda no meu presente.


A música que embala nossas vidas é como a trilha sonora dos filmes, ela reflete nossos sentimentos e lhes agrega carga dramática. Assim, ela é importantíssima e demonstra a forma como percebemos o mundo. Como nos musicais, as letras e as melodias são atos que vão descortinando os acontecimentos da nossa vida.


Ouvir música de qualidade tem valor inestimável. Dançar ao compasso da má música vulgariza nosso espiríto e diminui a complexidade dos nossos sentimentos. A música de qualidade é como um aroma complexo feito da nota de diversos outros aromas que vai mudando ao longo do tempo conforme envelhece, a música simples é como um aroma único, repetitivo, entediante, que não muda com o tempo nem se agrega complexidade. Gosto se discute sim, o importante, porém, é saber que gosto se desenvolve e se aprende. Como uma criança mal educada só come doces, o espírito simples só ouve a má música porque nunca foi guiado por um adulto a testar o gosto dos outros sabores e a aproveitar a variedade dos temperos.

Pois eh! Salve a boa música!