sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DO ALTO DO PEDESTAL PETISTA




A invasão de dados sigilosos de membros do PSDB e familiares do candidato à presidência José Serra mostra o quanto o PT se sente protegido pela opinião pública para praticar atos ilegais. O partido passou a abusar da popularidade aderindo a pratica da bisbilhotagem e arapongagem. Blindado pelo povo e dentro da velha máxima de que os fins justificam os meios, o PT não poupa esforços para vencer as eleições e se afirmar no poder.


Além da violação de dados relacionados com a Receita Federal, o PT também se envolveu na confecção de um dossiê do candidato José Serra montando uma quadrilha de espionagem que envolveria até um ex-delegado da polícia federal e um egresso da inteligência da FAB.


Difícil tem sido para José Serra explicar aos eleitores -- em que a maioria nunca sequer declarou imposto de renda na vida -- a gravidade dessas violações. O Presidente da República, cuja principal ocupação deve ser governar o país, tem aparecido diariamente na televisão para incitar seus apoiadores. O presidente disse que Serra partiu para a “baixaria”. Será baixaria demonstrar indignação por ter a vida pessoal de seus parentes revirada pela espionagem petista?


A seu turno, no exílio, em entrevista dada à revista Istoé, FHC revelou estar de malas prontas para a Europa. Na propaganda partidária do PSDB o ex-presidente não apareceu uma única vez ao lado do candidato José Serra. Alguns intelectuais com quem tenho conversado têm dividido comigo a opinião de que o fracasso do PSDB nessas eleições tem uma relação direta com a demonização de FHC, promovida lentamente pelo PT e pela oposição do antigo governo tucano. O governo FHC recebeu como herança dos outros governos a mesma oposição charlatã, ingênua e dada a factóides que se contrapunha aos presidentes brasileiros os acusando, como só sabem fazer, de serem elitistas.


O governo FHC foi o primeiro governo da redemocratização a não experimentar um caos econômico generalizado e escândalos de corrupção capazes de desconstituir as bases da melhor democracia. Não resta dúvida de que o governo FHC foi crucial para a retomada do crescimento econômico e amadurecimento das instituições. O maior erro do PSDB é, sem dúvida, não ter combatido os factóides movidos pela sua oposição, revelando a importância e qualidade do governo FHC. O ex-presidente disse à Istoé que será redimido pela história, espero que o Brasil não seja tão ingênuo ao ponto de esperar que o “oba-oba” petista chegue ao fim para acertar os créditos com o seu passado.


Ao eleger o PT pela primeira vez, o povo brasileiro achava estar optando por uma moralização que o partido traria à política brasileira, em contraponto a uma política corrupta e ineficiente que eles identificavam, erradamente, como tendo sido continuada no governo FHC. O povo não votou só contra FHC, votou contra a política em sua generalidade imaginando que o PT fosse capaz de remover todos os vícios da política brasileira, vícios que demoraram séculos para se constituírem, e como mostraram os fatos, mantiveram-se no governo petista.


Agora, o PT insiste em números e dados que revelam o crescimento econômico e desenvolvimento social da era Lula. A propaganda partidária petista incita o povo a um verdadeiro “oba-oba” em torno de suas realizações, o que não passa de uma ilusão propagandista. Desleal, Lula desponta ao povo como único responsável pelas benesses que o Brasil experimenta. Inebriado pelo apoio da opinião pública, Lula se mostra como ícone, como salvador da pátria. O fascínio que as camadas mais pobres da população têm demonstrado pelo lulismo tem se mostrado mais forte que qualquer artifício usado pelas antigas elites do Brasil para dominar os pobres e se manter no poder. Agora nos resta tentar prever por mais quantos anos o povo brasileiro se permitirá contaminar pelas falácias petistas.


Em meio a tudo isso, uma pergunta fica no ar: que momento será esse em que o povo brasileiro derrubará Lula (ou Dilma) do salto?



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quarta-feira, 25 de agosto de 2010 (And all that jazz)

Se eu pudesse comparar os meus dias a uma ópera, seria como um ato onde o protagonista, sufocado com seus pensamentos, reflete sozinho sobre os eventos da sua vida, aprisionado em suas próprias desgraças. Pela minha cabeça surgiriam todas as personagens da história, as principais falas, os principais acontecimentos, em uma progressão doentia, fazendo-me cair em um buraco negro, como se o chão faltasse aos meus pés. Aos gritos, eu desabaria ao som da ópera através do vazio escuro da minha consciência enquanto os violinos desesperadamente acompanhariam a minha espiral de loucura.


O que me salva desses dias sufocantes é o som da música. Tenho vivido na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong todos os amores que deixei de viver. A música me desloca dos meus desesperos e abre para mim a porta dos amores, sonhos e sentimentos alheios. Um momento em que saio de mim e alcanço o universo dos outros. Um novo amor para cada composição, “dream a little dream of me”. Posso beijar o meu amor e lhe dizer coisas doces por quantas horas quiser, podemos dançar lentamente ao compasso da melodia de um jazz sensacional. Mesmo que esse amor não exista, mesmo que ele tenha me abandonado.


“Doces sonhos até os raios de sol te encontrar/ doces sonhos que deixam todas as preocupações para trás/ mas em seus sonhos quaisquer que eles sejam/ sonhe um pequeno sonho comigo”. Sweet dreams till sunbeams find you/ Sweet dreams that leave all worries far behind you/ But in your dreams, whatever they be/ Dream a little dream of me”.


Nem a sombra mais vertical e febril dos meus amores mal resolvidos poderá vencer a alegria regozijante dos amores que virão. Mesmo com todo o desamor, mesmo com todo o descaso, mesmo com o desprezo, essa sombra ultrapassada não projetará sua força sobre os meus sonhos e meu futuro. Nenhuma vez essa sombra agrediu a minha inocência: vou amar sempre sem nenhum cuidado e com toda as minhas forças. A minha vida ainda será como uma bela música de jazz, para belos e felizes amantes. E cada vez mais ela se distanciará de uma ópera dramática. Será um ato com dois personagens, dançando nas nuvens a imensidão da paixão e do jazz.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Os mitos das eleições 2010


A corrida eleitoral para presidente está iniciada. É hora de começarmos a refletir sobre o nosso voto. Uma boa maneira de iniciar essa reflexão é eliminando alguns preconceitos, sofismas, que andam sendo ditos por aí nas rodas de discussão de política. Falarei aqui de alguns mitos sobre o PSDB e o governo Fernando Henrique Cardoso.

O primeiro dos mitos é o de que o Brasil está em uma fase áurea e que correria riscos caso sofresse uma transição para um governo do PSDB. Ledo engano. A política econômica estará segura mesmo porque os seus grandes idealizadores saíram do grupo tucano. Quando Lula assumiu o governo o fez sobre forte pressão internacional que elevou o dólar ao patamar de R$ 4,00. Uma das primeiras medidas de Lula foi indicar um nome tucano para a presidência do Banco Central – Henrique Meireles. A indicação acalmou os ânimos internacionais e provou que o PT não estava no governo para cometer burrices.

A queda do câmbio, do risco Brasil e das taxas de juros ocorreram graças a manutenção de uma política econômica inaugurada no governo FHC e demonizada pela oposição da época. O governo Lula manteve juros altos e forte superávit primário enquanto sentiu que os dois eram necessários ao Brasil. Pagar a conta do FMI, baixar os juros, feito por Lula, só foi possível graças a uma política econômica desenvolvida lentamente nos mandatos tucanos.

Outro mito é acreditar que os programas sociais do governo podem diminuir a expansão. O atual programa Bolsa Família é semelhante aos criados por FHC, a Bolsa Escola e a Bolsa Alimentação. Durante o seu governo o gasto em programas de assistência social duplicou de R$15 bilhões para R$ 30 bilhões de reais Houve evolução na saúde trazida pelos remédios genéricos e pelo nosso programa de combate à AIDS reconhecido mundialmente.

É também imaginado por alguns que o governo FHC vendeu o país. As privatizações, contudo, foram benéficas aos brasileiros, trazendo modernidade para a área de telecomunicações e reativando a Vale que se encontrava sucateada. O estado deixou de se ocupar de atividades que não são da sua alçada para que a iniciativa privada realize com a eficiência necessária.

O governo FHC enfrentou sérias crises mundiais (crise do México, crise asiática, crise russa e argentina) além de um caos energético causado pelo apagão. Lula enfrentou uma das maiores crises mundiais só que com a sorte de ter economizado por tempo suficiente para ajustar as contas. No saldo total, o cenário internacional termina por ser mais confortável nos últimos oito anos do que na era FHC.

Combatidos alguns desses mitos, está o eleitor mais preparado para saber em quem irá votar nessas eleições. Essa é a intenção do artigo. O importante, por hora, é entender que os créditos pelo período de bonança precisam ser justamente divididos.

domingo, 4 de julho de 2010

Uma pausa para a MÙSICA


Fui ao Festival de Inverno de Pedro II. Como o festival é conhecido pela música de qualidade, fiquei inspirado para escrever um pouco do pouco que sei sobre música.

Minha relação com a música começou com a experiência do rock. Aos poucos migrei do rock para outros gêneros. Como Cazuza, fui para a MPB. Da MPB progredi para a música clássica, para o jazz e para o blues. Até hoje esses gêneros são os pilares do meu templo musical.

.

Com a passar do tempo meu ouvido se tornou um verdadeiro pandemônio. Com os recursos que a internet disponibiliza ficou fácil garimpar qualquer raridade. Sou da nova geração e mesmo assim ainda lembro a dificuldade com que se conseguia achar CDs em lojas especializadas ou emprestado com os amigos.


A título de exemplo, é graças a internet que descobri alguns artistas africanos. Esses africanos são excelentes na percussão e no saxofone. Recomendo a todos que escutem um pouco de afrobeat, uma batida meio pro lado do jazz, das músicas de raízes tribais africanas e do funk. Manu Dibango (um saxofonista do Camarões) é o meu preferido no gênero. O grande astro do gênero, contudo, é Fela Kuti um instrumentalista nigeriano que fez sucesso nos anos 70 com seu grupo AFRICA 70. Os negros estão envolvidos nas melhores músicas produzidas no século XX, no EUA eles estão relacionados com o jazz e o blues, no Brasil, com

o samba. Na África, casa dos negros, a criatividade não fica atrás. E Atualmente é impossível rejeitar o hip-hop e a soul music americana.


Com os recursos tecnológicos que possuímos a música produzida em qualquer tempo é acessível a qualquer um e graças a facilidade de reprodução posso fazer uma orquestra inteira tocar na minha sala As Quatro Estações de Vivaldi ou Fuel de Metallica. Em meu musical maluco todos podem dançar na chuva.


Houve uma época, motivado pelo estudo dos compositores clássicos, em que pensei que talvez devesse me afastar da realidade por uns tempos e cultivar os valores musicais do passado. Ledo engano. Nada pode ser mais infeliz do que deixar passar a sua própria época, do que deixar de observar como os seus vão adicionando novas páginas na história da arte. Não é inconciliável Wagner e Bach, nem tampouco o rock e a música clássica. A própria música erudita evoluiu graças a quebra de paradigmas.


E o difícil e divertido é conciliar gêneros musicais antagônicos. As misturas e possibilidades com que se pode trabalhar assustam os mais ortodoxos. Só que ortodoxia é o oposto da heterodoxia que se tornou a complexa música do nosso tempo, que é, quem sabe, a música de qualquer tempo. A qualquer música.


O meu começo com o rock não guardou nada de muito especial, é como geralmente acontece aos adolescentes. Meus amigos começaram a fazer bandas e a ouvir os rockeiros e logo todos estávamos vivenciando o rock como estilo de vida. Como a mãe do Cazuza disse em uma entrevista: "queria que fosse apenas o rock, mas o rock não existe sem o sexo e as drogas". Na minha vida não foi diferente e o meu corpo guarda as seqüelas do que esse trio é capaz de fazer.

.

Muitos grandes nomes da música brasileira dos anos sessenta em diante surgiram enquanto o rock explodia ao redor do mundo. Apesar de distantes dos instrumentos elétricos e do som pesado, os nacionais sempre tiveram semelhança, ao menos no espírito, com os rockeiros americanos e europeus. O ambiente libertino, de contracultura, atraiu a mim com um fascínio tão grande quanto fizeram os rockeiros. Ouvir Elis Regina tocar Aldir Blanc e João Bosco é uma memória muito viva do meu passado e um hábito vivo ainda no meu presente.


A música que embala nossas vidas é como a trilha sonora dos filmes, ela reflete nossos sentimentos e lhes agrega carga dramática. Assim, ela é importantíssima e demonstra a forma como percebemos o mundo. Como nos musicais, as letras e as melodias são atos que vão descortinando os acontecimentos da nossa vida.


Ouvir música de qualidade tem valor inestimável. Dançar ao compasso da má música vulgariza nosso espiríto e diminui a complexidade dos nossos sentimentos. A música de qualidade é como um aroma complexo feito da nota de diversos outros aromas que vai mudando ao longo do tempo conforme envelhece, a música simples é como um aroma único, repetitivo, entediante, que não muda com o tempo nem se agrega complexidade. Gosto se discute sim, o importante, porém, é saber que gosto se desenvolve e se aprende. Como uma criança mal educada só come doces, o espírito simples só ouve a má música porque nunca foi guiado por um adulto a testar o gosto dos outros sabores e a aproveitar a variedade dos temperos.

Pois eh! Salve a boa música!

domingo, 4 de abril de 2010

Reflexões para a política nacional em 2010



Estamos em ano eleitoral e mais uma vez diante da chance de alterar os rumos do país. O atual Presidente foi eleito - na primeira eleição - em uma euforia por moralidade, a promessa era a de que o Partido dos Trabalhadores moralizaria a política, coisa que nenhum grupo foi capaz de fazer desde os primórdios da República.


A pergunta é: o Presidente Lula moralizou a política do país? A resposta é não. O escândalo em que o grupo petista se envolveu (o mensalão) foi tão repugnante quanto outros do governo Collor, Itamar e FHC. O país observou a compra de parlamentares para garantir a maioria dos votos no parlamento. Para conquistar governabilidade o grupo governista se aproximou de parlamentares oportunistas, sem ideologia política e os seduziu promiscuamente. Os ministérios foram divididos junto com os cargos da mesmíssima forma como se fazia antes. E fala-se até em um fisiologismo ainda mais amplo que o dos presidentes anteriores. As estatais foram dominadas pela corrupção, com destaque especial para os Correios e a Petrobrás que terminaram em CPIs.


A área social do governo teve como carro chefe o Bolsa Família um projeto de ampliação de renda das camadas mais pobres da população através de um sistema de condições. O programa teve elogios internacionais e não será abandonado por nenhum governo sucessor apesar do presidente ameaçar os beneficiários dizendo que pretende transformar os projetos sociais em lei para evitar que sucessores os abandonem. Lula faz do programa um meio de conquistar votos.


A política externa do governo teve sérias falhas na gestão dos problemas sul-americanos, não que o governo devesse ter atuado ativamente contra um ou outro caudilho (o papel do Brasil não é o de enfrentamento e se baseia na não-intervenção), mas sim por ter desfilado apoio e integração com esses mesmos caudilhos incentivando a imaturidade política dos vizinhos. O Brasil não deve criar inimizades com governos sul-americanos, igualmente errado, porém, é se aproximar justamente dos piores governos quando ainda temos ao nosso lado bons exemplos.


A política econômica foi conservadora, conquistou estabilidade e será exemplo para todos os governantes do futuro. Temos uma receita mais ou menos pronta, agora basta aprimorá-la, coisa que o continuísmo pode não fazer. Os acertos da política econômica iniciaram com a indicação de um nome do PSDB para o Banco Central, o Henrique Meireles. Será que preciso completar o raciocínio desse tópico?

.

Seja em quem forem votar, observem as coisas com cautela. A campanha eleitoral televisiva será a grande cartada para convencer os eleitores, e o objetivo será alcançado manipulando dados e aplicando sofismas. Fala-se na possibilidade de Ciro Gomes fazer o ataque de Serra enquanto Dilma Rousseff aparecerá ao lado de Lula na política paz e amor.

.

O PT aprendeu a brincar com o imaginário dos pobres, o ápice desse populismo foi o longa-metragem “Lula, o Filho do Brasil”. O filme chegará à casa dos brasileiros para causar ainda mais simpatia. Lula quer deixar de ser filho da mãe dele, a senhora dona Lindu, para se batizar filho do Brasil. È puro narcisismo: “espelho, espelho meu, existe alguém mais parecido com os pobres do que eu?”.


sábado, 3 de abril de 2010

Caros leitores,


O blog deixou de receber atualizações há mais de três meses. Peço desculpas por essa temporada sem postagens e prometo voltar a postar com regularidade assim que superar os contratempos.

Até lá sugiro aos leitores que naveguem pelo conteúdo do blog, em especial o menu que cataloga as postagens por tema. É uma ótima maneira de conhecer a diversidade dos temas postados e selecionar um texto que agrade ao seu perfil pessoal.

Grato e boa leitura,

P. Dantas Lima

domingo, 24 de janeiro de 2010

“CARRIE BRADSHAW SABE O QUE É SEXO BOM E NÃO TEM VERGONHA DE PERGUNTAR"




Antes de limpar a cozinha do apartamento e lavar o a louça (tarefas domésticas de domingo) assisti dois episódios do seriado Sex and the City. Foi quando tive a idéia de escrever a minha primeira postagem sobre sexo. É um tema que abordei apenas superficialmente no blog, ao contrário da protagonista da série que escreve exclusivamente sobre sexo em uma coluna de jornal. Vestirei a pele de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) por pelo menos uma postagem.
.
Para ter uma boa noite de sexo não é preciso ter um corpo perfeito. Quando duas pessoas estão nuas não estão se exibindo como se fossem modelos da Vogue ou de uma revista erótica. É normal sentir vergonha de sua nudez, e a televisão, os filmes, acostumaram a nossa geração ao exibicionismo. A vergonha, a timidez, é o que nos aproxima de verdade dos nossos parceiros sexuais, são esses sentimentos que os convidam a experimentar nossas fraquezas e confiança. Como comparar a nudez envergonhada do quadro “Puberdade” de Munch com a nudez fashionista de Madona? Longe de afirmar que a beleza não deva ser vivenciada (ou mesmo que não exista beleza no mundo fashion e do cinema), o que tento é chamar a atenção dos jovens que estão agindo precipitadamente fazendo o possível para simular esses universos. A união sexual é um ato de amor, de troca mútua e de fragilidade, e não somente de prazer.
.
Eu tive um interessante número de parceiros sexuais e nunca me envolvi em um relacionamento sério e estável que durasse por mais de um ano. Não que eu seja autosuficiente, simplesmente as pessoas certas que apareceram não quiseram ficar comigo. Encontrei todos os defeitos possíveis em cada affair pelo qual passei, meus casos revelam o mesmo universo de dificuldades sentimentais que passamos a coligar no mundo de hoje. Mas não tenho problema em assumir: eu tenho, sim, medo de relacionamentos.
.
Os jovens estão começando a vida sexual cada vez mais cedo, alguns falam que vivemos a "ditadura do sexo", se antes era proibido e evitado, agora é obrigatório e precisa ser feito. Disseram-me que a Susan Boyle tinha o charme do "sexo-zero", daquelas pessoas que vivem enclausuradas sem companhia sexual com desejos reprimidos. Agora o pior pesadelo dos amantes é a solidão dos feios, dos mal amados, enquanto se tornam belos fascinados por falsidades e tão mal amados quanto.
.
Em todos os artigos a Carrie Bradshaw faz uma pergunta. A minha não pode faltar: "será que o que precisamos fazer, sexualmente, é assumir que sentimos vergonha?".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O primeiro artigo que publiquei em jornal










Uma Autobiografia e uma história confusa (ano: 2006)





FHC publi­cou a sua autobiografia este ano com o nome Arte da Política: A História que Vivi. O livro é uma narração dos eventos que ocorreram durante o seu mandato e uma dissertação sobre o seu modelo para desenvolvimento do Brasil, onde FHC explica os motivos de ter tomado as decisões que tomou e tenta resolver os mal-entendidos. No que trata dos seus próprios erros, a sua autobiografia se depara com a realidade de qualquer autobiografia escrita por político: é uma defesa pessoal, FHC confunde discurso livre com ativismo político.

.


FHC teve uma carreira intelectual invejável, dedicando-se a universidade e a política de forma semelhante. Foi professor por trinta e sete anos, passando por Sorbonne e pela Universidade de Berkeley. A carreira política lhe aconteceu meio ao acaso onde foi fundamental o mandato de senador que herdou como suplente. Fundador do PSDB, foi ao lado de Mario Covas e Franco Montoro que iniciou um reduto no estado de São Paulo, começando uma nova história na política brasileira. Através dele e de seu partido um novo grupo de democratas, com uma nova visão política, chega ao poder. Um movimento antagônico leva o PT a uma posição de destaque. Chega então a vez do PT e do PSDB, pertencentes a dois caminhos distintos, mas que possuem em comum o fato de terem nascido do embates que movimentaram a refundada democracia brasileira.

A estrutura do Parlamento brasileiro passou a ter uma nova figura durante os seus dois mandatos, junto com o crescimento da esquerda e dos partidos menores. A aliança com partidos fortes, de base parlamentar sólida, caracterizou o seu governo, viciando o Congresso e dando inicio a uma tradição. Uma espécie de relação partidária fundamentada na coligação, na divisão das pastas dos ministérios e no favorecimento político, se consagrou com FHC e passou a ser o princípio do presidencialismo brasileiro.


O ano da publicação da sua autobiografia não foi o ano da volta do PSDB ao Palácio da Alvorada. O seu partido e as forças políticas que o levaram à presidência saíram derrotadas mesmo com o movimento de denúncias movidas pela imprensa e pelos órgãos de fiscalização do Estado. O esforço feito pelos legisladores da oposição não levou o governo petista ao fracasso na reeleição; a mesma lei que lhe garantiu mais quatro anos na presidência se mostrou útil também aos políticos petistas.


Paulo Markun tornou célebre em seu livro O Sapo e o Príncipe a expressão “o sociólogo e o operário”. A história recente do Brasil, a história de um presidente sociólogo e de um presidente operário, é analisada em seu livro tratando também os aspectos da semelhança; não são tão distantes assim, um como o outro seriam lados de uma mesma moeda, moeda que manteve os partidos majoritários do legislativo (PFL E PMDB) longe da chefia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Conflitos ultrapassados, texto do meu diário




Terça-feira, 03 de março de 2009.

Ao chegar ao apartamento percebi que no primeiro andar, logo a frente, havia uma festa muito movimentada ao som de rock and roll. Tocavam músicas do rock mais recente. Os risos, as conversas e o movimento inteiro da festa, fizeram-me lembrar da tentação de sempre que é abandonar os estudos e viver de farras. Tentado por essa idéia e pela falta de cigarros, decidi ir até um boteco no bairro ao lado do condomínio para comprar um maço e algumas cervejas para trazer para casa.

Enfrentei a chuva até lá com um guarda-chuva. O boteco estava com baixo movimento, todo na parte interna, sem as mesas da rua que são de costume. Não havia nenhuma mulher, somente alguns rapazes bebendo cerveja e jogando sinuca. Um era especialmente belo e realmente foi capaz de chamar minha atenção, observei-o desde que entrei. Sorriso carismático e aquele formato de cabeça característico de todos os rapazes belos., que forma uma meia lua em cima da nuca. Era o único branco.

Ao ver o dono do boteco perguntei quais cigarros ele tinha para vender, disse-me que tinha “carlton” e “hollywood”, além de algumas marcas que nunca fumo pela procedência duvidosa e péssimo gosto. Pedi uma carteira de “carlton” e perguntei sobre cerveja em lata ou longneck. Ele respondeu que não vendia nenhuma das duas, restando para mim a única alternativa de beber no bar. Aproveitei o fato para observar o comportamento dos rapazes que bebiam.

Sentei de pernas cruzadas, sem camisa, com o guarda-chuva ao lado da mesa. Na televisão passava um filme e pude reconhecer Halle Barry e Heath Ledger, e em poucos segundos mais, reconheci o filme, tratava-se de a “A Última Ceia”. Então perguntei ao rapaz mais belo da turma “nesse filme tem um condenado à morte?”. Ele respondeu que não sabia, o que para mim pouco importou, só queria que me dirigisse a palavra.

Ao longo da cerveja e dos cigarros que fumei, os rapazes comentavam sobre o filme, respondendo com expressões faciais e urros conforme as cenas fortes (como a de execução do condenado a morte) aconteciam. Percebi nesse instante, ao vê-los descontraídos, ocupados com as cervejas e suas conversas divertidas, o quanto a felicidade da vida está mesmo em momentos como esse, que são fáceis para eles de conseguir, bastam ir àquele bar e beber cervejas e conversar. Eu estava ali não como convidado, mas como espectador forasteiro, tentava compreender toda a beleza poética daqueles meninos envolvidos com jogos e descontração. Eu voltava da universidade do curso que nunca quis fazer, preocupado com a atividade financeira do estado, ou outra burocracia insuportável, enquanto aqueles rapazes voltavam de algum trabalho ou de uma escola pública. “O meu curso é uma morte, é uma morte lenta. Não chegarei a lugar nenhum”, pensei várias vezes. “Tenho agora com este diário poucos minutos de construção da minha personalidade, quando decidi escrever sobre o que vi e participei neste dia, decidi salvar a mim do comum a que me condenei. Como seria bom caso meus estudos contribuíssem para minha visão de mundo!”.

Tentava não observar seguidamente o rapaz bonito de que falei. Poderia pensar alguma coisa de mim ou estranhar que lhe olhasse, memorizei uma ou outra das expressões que achava que tinha de mais belo. Queria que falassem, queria que todos eles falassem e vivessem, que se divertissem. Eu tinha ali no corpo magro daqueles meninos morenos, com os contornos dos músculos esguios e ágeis, a poesia que perdi. Eles jogavam sinuca e se movimentavam provocando muita admiração em mim.

Paguei a conta e voltei para casa.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O FLAMENGO EM QUATRO PERSONAGENS. (publicado)


A história que levou o Flamengo à conquista do seu hexacampeonato é uma dessas histórias fascinantes que só acredita quem tem costume com o futebol. O time iniciou o ano com uma campanha fraca e com a vitória de um carioca improvável para depois entrar no brasileirão tropeçando, com derrotas injustificáveis. Tudo indicava um caminho morno pela frente. Contudo, o time se acertou, ficou invicto por várias rodadas e ultrapassou os lideres no final da corrida sendo hexacampeão. A resposta para isso são quatro personagens.


O primeiro deles é Adriano, um rapaz deprimido que abandonou o dinheiro e a Europa para jogar no Brasil no clube do coração. Tudo muito bonito, mas daí a chegar ao país, entrar em forma, vencer a depressão e jogar futebol seria como uma vitória. Acabou sendo.

O segundo personagem é Petkovic, conhecido na Sérvia como Rambo. Esse voltou para o Flamengo em um acordo para cobrir dívidas. O então técnico do time, Cuca, recusava-se a escalar o sérvio discutindo com o presidente e ameaçando sair. Colocava o Rambo pra jogar no finalzinho. Petkovic virou a mesa, chegou de fininho, e passou a ser peça fundamental do time com gols épicos de bola parada. Agora é o deus do olímpico.

O terceiro personagem da história: Andrade. Monstro do futebol brasileiro e monumento da torcida rubro-negra, é uma espécie de ligação entre o passado glorioso do clube e o presente. Membro interino dos bastidores, Andrade assumiu a função de técnico porque não havia técnicos no mercado e terminou ganhando espaço com seus resultados. Agora a torcida tem duas dívidas com o Andrade, o jogador e o técnico. Pagar não vai nunca.

O quarto é tricampeão carioca, campeão da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. Escapou de uma amputação em uma lesão rara, voltou a jogar futebol e fez o gol do título em uma jogada ensaiada. É o que mais me emociona: Ronaldo Angelim.

Fui um flamenguista pessimista e analisei mal as coisas ao longo de todo este ano. Acreditei que Adriano no máximo dava bom exemplo de “pobre menino rico” com essa choradeira toda e que Petkovic estava velho e visivelmente fora de forma e que Andrade, com todo respeito, mesmo criado nos bastidores, não ia saber levar o time como técnico. E o pior, e sem perdão: Angelim não ia voltar a jogar futebol.

Fiz tudo errado, escalei outro time para jogar. Dei cedo o título para o Palmeiras. Eu penso com a cabeça e não com o coração. E futebol não tem sentido, se tem sentido é um sexto. Esse sentido, infelizmente, eu tenho pessimamente desenvolvido.